Elegância, estilo, roupas finas, carros, mulheres. É difícil imaginar que o agente secreto James Bond, o 007, poderá correr algum risco de vida nas histórias criadas por Ian Fleming. Mesmo sabendo que o herói é o agente britânico da MI-6, nós o vemos passar por apuros que chegamos a pensar: agora ele não escapa. Achamos que ele está pressionado, em perigo e que, finalmente, irá sucumbir diante do inimigo. Mas não sucumbe. Mais uma vez, arranja um modo de sair de todas as dificuldades e sair por cima. E ainda com aquela cara cínica de quem mal se esforçou para isso. Apenas para fazerem sofrer sua chefe, M, sua admiradora (não tão) secreta, Moneypenny, e suas muitas bondgirls.

O Fluminense campeão brasileiro foi assim. Durante a campanha, o futebol parecia que não seria suficiente. Nos jogos, parecia que recuava demais. Aquela sensação que o time não irá resistir e irá sucumbir à pressão dos adversários. É impossível que um time consiga ganhar sempre assim. Sempre talvez não, mas ganha 22 vezes em 35. A sensação em todos jogos foi parecida: não adianta, no fim o Flu se salva. Nem mesmo a terrível bola vadia, destruidora de corações, derrubou o Fluminense.

Rodada após rodada, a força do time em campo passou também a ser uma forma de intimidação. Aos poucos, as pessoas começaram a achar natural. O Fluminense irá sofrer na partida, mas no fim acabará ganhando. Como James Bond, que você sabe que ele vai para a cama com alguma gostosa, que ele vai dirigir algum carro esportivo caro, que ele terá dificuldades, estará entre a vida e a morte e, no final, dará aquele sorriso cínico e sairá com seu smoking impecável.

O Fluminense deu a impressão de estar se colocando em risco o tempo todo. Recuando demais, arriscando pontos. “Diguinho não, Abel!”, reclamava a arquibancada. “Esse Edinho é um tormento”, dizia outro. Curiosamente, à medida que o tempo passava, o time estava mais e mais seguro. Quando se viu, já estava contando os dias para a taça. E eis que levou o troféu tranquilamente, como se não tivesse passado por sufocos homéricos. Ou, ao menos, não tivesse feito sua torcida sentir a angústia no fim de cada jogo.

Como símbolo, o seu melhor jogador. Diego Cavalieri parece impassível. Faz dezenas de defesas, salvou o time em incontáveis oportunidades, teve seu nome cantado, virou ídolo. Tem atuações de craque, ainda que não seja. Deixa o campo tal qual 007, nem parece que suou, sai com aquela cara quase pedante de quem nem sofreu, que tudo foi fácil e que ele sabe que no fim estará dormindo com uma gostosa. Daí em diante, é só pedir um Vesper Martini, mexido e não batido, e comemorar. Até que nova missão chegue.