Nem tchú, nem tchá

O corintiano mais escaldado sabe que ainda é muito cedo para comemorar a classificação. Se o fantasma que cerca as participações do clube na Libertadores parece de folga na campanha de 2012, o mesmo ainda não se pode dizer de Neymar, que já provou várias vezes que pode desequilibrar um confronto. Evidentemente, não foi o que aconteceu ontem. E nem parece ser o que acontecerá na próxima quarta-feira, a não ser que ele esteja em noite de grande inspiração (e concentração maior ainda). O Vélez já tinha dado a dica de como anular o poder de devastação do craque. E o Corinthians, cujas características são muito mais propícias para colocar em prática tal estratégia, a seguiu à risca e com sucesso.

Aconteceu nas últimas três partidas santistas na Libertadores e, em menor escala, no amistoso da seleção brasileira contra o México: além da marcação cerrada habitual, sempre um ou dois adversários na sobra, não deixando Neymar respirar. Incomodado e voltando a mostrar sinais de uma imaturidade que parecia estar desaparecendo, o rapaz acaba se irritando (deveria ter sido expulso pela falta violenta que fez em Leandro Castán) e prendendo a bola mais do que o necessário. Contra os corintianos, a coisa ficou mais complicada ainda, já que uma das melhores defesas da história da competição, se não a melhor (são os números que estão dizendo, apenas dois gols sofridos até aqui, ambos na fase de grupos), não permitia que ele sequer pensasse em invadir a área com a bola dominada.

Natural que os olhos se voltem para Neymar na hora de criticar a péssima atuação santista. Afinal, quando as coisas funcionam, é também nas costas dele que repousa quase toda a glória. Também não ajuda em nada ele sair de campo afirmando arrogantemente que o clássico foi jogo de um time só. Ainda se ele estivesse se referindo ao Corinthians… Mas não dá para ignorar o fato de que boa parte de sua equipe entrou em campo sem aquele “sangue nos olhos” (expressão que ainda me soa como conjuntivite) que uma partida deste porte pede. E que Muricy mais uma vez cometeu os erros primários que o atrapalharam em outros jogos de mata-mata durante sua carreira.

Quem acompanha a trajetória do treinador sabe que Muricy é perito em montar times sólidos, com defesas competentes, sempre que tem à disposição um elenco minimamente esforçado. Mas sabe também da dificuldade que ele tem em fugir de seu plano inicial para reagir a adversidades. Ontem, agiu por impulso. Tudo bem que Elano, cuja cabeça está flutuando na mesma galáxia onde foi parar a bola chutada por ele em cobrança de pênalti na última Copa América, merecia ser sacado. Mas colocar Borges, um segundo centroavante, só facilitou a vida dos comandados de Tite. Se Alan Kardec já não conseguia ser municiado pelos companheiros, qual a lógica de colocar outro jogador encaixotado na inabalável zaga adversária?

De quebra, a substituição afastou Neymar da área, fazendo com que ele batesse mais de frente ainda com o núcleo duro do Corinthians, formado pelos incansáveis Ralf e Paulinho. A função do atacante passou a ser carregar a bola do meio-campo até a intermediária. Quando não a perdia ou sofria faltas, só lhe restava passá-la para que alguém a atirasse na área de qualquer jeito. Ganso também foi prejudicado com o “novo” estilo da equipe. O responsável por passes e lançamentos inspirados virou um mero abastecedor da zona do agrião. É como se Muricy reduzisse suas duas armas mais talentosas a cópias do Leandro e do Jorge Wagner dos tempos de São Paulo. Funções que Neymar e Ganso não estão acostumados a exercer. Funções que estão bem aquém do que eles podem oferecer, por mais que o segundo estivesse jogando no sacrifício.

Não é que Muricy, meia ofensivo e talentoso em seus tempos de jogador, goste que seus times joguem feio. O Santos fez ótimas exibições quando o oponente lhe dava espaço. A questão é que, ao contrário do repertório de dribles de Neymar, que é bem vasto, o cardápio tático de Muricy é bastante acanhado.  E quando o primeiro não dá resultado, não é o segundo que vai salvar o dia. Em defesa do treinador, seu elenco não é grande coisa. Ou alguém acha que Rentería e Felipe Anderson são capazes de mudar a história de uma partida? Será que vale mesmo a pena pagar os tubos para manter o astro da companhia e não ter coadjuvantes adequados?

Por ironia do destino, o Santos de ontem foi brecado por um Corinthians que lembra muito o São Paulo do Brasileiro de 2007, o time mais eficiente que o Muricy já montou. A exemplo das equipes montadas pelo treinador santista, não sabemos como reagirá o Corinthians de Tite quando precisar mudar de estilo para reverter um resultado adverso. Mas o grupo se mostra tão unido e fiel às ordens do seu comandante, que já não é absurdo nenhum imaginar que o time possa ser campeão sem passar por esse tipo de provação. O que não diminuiria o valor do possível título. Pelo contrário, diante das limitações evidentes do plantel, só ressaltaria o tamanho do feito.