Nem parecia time do Guardiola: com 35% de posse de bola, City derruba o Barcelona

Basta acompanhar um pouco de futebol europeu para saber: os times de Pep Guardiola gostam de tocar a bola. Não é apenas uma questão estética, é um dogma. O técnico espanhol acredita tem mais chances de vencer controlando as partidas e mantendo o melão nos pés. Normalmente, tem índices de posse acima dos 50%. Com isso em mente, quando você imaginaria que um time dele venceria, simbolicamente, o Barcelona, com menos de 35% de posse de bola? 34,6%, para ser mais exato, segundo números do Who Scored.

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Foi exatamente o que aconteceu nesta terça-feira, no Etihad Stadium. Em uma dinâmica muito diferente da habitual, o Manchester City ganhou do Barcelona, por 3 a 1, e se vingou da goleada que sofreu na rodada passada da fase de grupos da Champions League, no Camp Nou. A estratégia de Guardiola foi clara: marcar pressão a saída de bola dos catalães lá em cima. Quando as pernas começaram a pesar, recuou, de propósito ou por imposição do adversário, e especulou nos contra-ataques. Deu muito certo.

Marcar alto é uma maneira de evitar que, mesmo fora de casa, o Barcelona controlasse as ações e confortavelmente encurralasse os ingleses, como sabe fazer tão bem. Isso resultou em primeiros minutos bastante táticos e pegados – pergunte às canelas de Sterling, assinadas por Lucas Digne. O atacante inglês, inclusive, sofreu um pênalti de Umtiti (na opinião deste escriba, você está livre a discordar), não assinalado pelo árbitro.

O problema é que o Barcelona de Luis Enrique é multidimensional. Não brilha apenas com a posse de bola. Sabe contra-atacar como nenhuma equipe no mundo. No rebote de uma bola parada no campo de ataque do City, Messi lançou Neymar pela esquerda e caminhou tranquilamente pelo campo, sem companhia, como se estivesse nas ruas de Rosário indo comprar pão. Recebeu do brasileiro, na entrada da área, e tocou na saída de Caballero.

Nem um time de futebol composto apenas por maratonistas consegue marcar pressão o tempo inteiro. Uma hora, o City foi obrigado a recuar para não ficar sem pernas para o restante da partida. E, então, o Barcelona assumiu o controle. Poderia tranquilamente ter ampliado o marcador em chegadas de André Gomes, em uma quase cabeçada de Messi, um lance em que Neymar perdeu um pouco o controle da bola ou um chute cruzado de Suárez.

Eis que, finalmente, a estratégia de Guardiola começou a render frutos. Sergi Roberto errou um passe na saída de bola, Agüero recuperou e deixou com Sterling, que achou Gündogan na segunda trave. Saiu o empate. Logo, em seguida, o agora lateral direito errou novamente. Fernandinho puxou o contra-ataque, tabelou com Silva, e bateu cruzado, com perigo.

A partida parecia à mercê do Barcelona, mas o erro de Roberto recolou o City na contenda. Em péssima noite, o espanhol cometeu outro vacilo na saída de bola, logo no começo do segundo tempo. Desta vez, porém, Sterling desperdiçou o passe de Agüero. Recebeu livre, dentro da área, diante de um chute cruzado de manual, mas preferiu dominar a pelota, errou o primeiro toque e perdeu totalmente o ângulo. Em outro contra-ataque, o City virou: Silva foi derrubado na entrada da área, e De Bruyne cobrou a falta com muita força. O chute foi um pouco no meio, e Ter Stegen foi surpreendido no seu próprio canto.

A pressão alta voltou a cessar, e o City começou a marcar mais recuado, no seu campo de defesa, mais compacto e mais bem posicionado que no primeiro tempo. Desta vez, o Barcelona não conseguiu transformar o controle em perigo. E continuou sofrendo nos contra-ataques. Em novo erro de Sergi Roberto, De Bruyne puxou contra-ataque e abriu com Kolarov. O cruzamento na boca do gol passou direto pelo belga e por Agüero. Depois de muito tempo, o Barcelona devolveu um soco. Suárez deu drible desconcertante e deixou a bola limpinha para André Gomes empatar. Mas o chute do meia espanhol carimbou o travessão de Caballero. Sem permitir que o Barça respirasse, Silva lançou De Bruyne no contra-ataque. O belga tabelou com Sterling e bateu da entrada da área, raspando a trave.

O terceiro gol do Manchester City estava mais próximo que o empate do Barcelona e se concretizou do único jeito que seria possível esta noite: no contra-golpe. Agüero achou De Bruyne, que deu lindo passe para Navas, pela direita. O cruzamento bateu no braço do atacante argentino – junto ao corpo, lance normal, involuntário – e sobrou para Gündogan fechar o caixão.

Fica a pergunta: depois de levar duas pancadas duras do Barcelona, nas semifinais da Champions League de 2014/15 e algumas semanas atrás, Guardiola finalmente deixou de ser teimoso, como seus críticos exigiam nas derrotas do Bayern de Munique na principal competição europeia – inclusive para o Real Madrid, na sua temporada de estreia? Ou não conseguiu tocar a bola como sempre por imposição do Barcelona? Os números indicam a primeira resposta porque, nos outros duelos de times seus contra os catalães, nunca este índice foi tão baixo assim: 54% nos dois jogos do ano passado e 47% na rodada passada da atual edição da Champions.

O certo é que, depois de ser derrotado duas vezes sem contestações, Guardiola finalmente de um jeito de fazer seu time vencer o Barcelona.