Nem a estátua será capaz de dimensionar o que Renato simboliza ao Grêmio

“Eu, Renato Portaluppi, estou declarando feriado em Porto Alegre”.

A frase não poderia ser proferida por nenhum outro ser humano no planeta. E em nenhuma outra madrugada que não fosse esta, de celebração enlouquecida, pelo ardor de conquistar a Copa Libertadores finalmente concretizado. Renato Portaluppi é um dos melhores personagens do futebol brasileiro. As frases impagáveis, o estilo desencanado, as brincadeiras constantes: a imagem construída pelo veterano o leva ao centro das atenções. Mas o Gaúcho consegue ser mais. É o craque que viveu muitos episódios importantes em campo. É o técnico que possui grandes campanhas ao longo da carreira. E que, no Grêmio, se já era um ídolo inigualável, agora se torna o ser supremo que rege definitivamente o coração dos tricolores.

Entender a importância de Renato ao Grêmio vai além dos estereótipos. Afinal, o gaúcho de Guaporé se tornou um carioca de alma como poucos. Sua leveza não é bem o que se encaixa no espírito aguerrido tão exaltado pelos tricolores. Mas, entre semelhanças e diferenças, Renato consegue sintetizar muito do que o Grêmio entende como a sua grandeza. O prata-da-casa está justamente na gênese do clube que rompeu frustrações e ansiedades para se colocar entre os maiores da América.

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O ano-chave para a transformação do Grêmio é 1977. A conquista do Campeonato Gaúcho, que encerrou a senda de vitórias do Internacional e colocou um ponto final ao amargor dos tricolores inicia um período de transição. E o declínio experimentado no Beira-Rio a partir da década de 1980 se alternaria com a ascensão dos campeões monumentais do Olímpico. Primeiro veio o título no Campeonato Brasileiro em 1981, que ao menos expandia as fronteiras gremistas para além dos limites estaduais. Mas a oportunidade de se dizer o maior do Rio Grande seria oferecida mesmo pela Libertadores. A competição na qual Renato explodiu.

A predileção dos tricolores por Renato surgiu quando o garoto sequer havia se firmado no time principal. Era motivo de pedidos constantes a Ênio Andrade na Libertadores de 1982. Os torcedores já tinham consciência do tamanho do talento que despontava na Azenha, apesar de seu gênio forte e dos episódios de indisciplina. Foram meses de espera até que o camisa 7 se tornasse realmente absoluto, pelas mãos de Valdir Espinosa. Uma parceria que valeria ouro ao Grêmio a partir de 1983, na segunda participação continental do clube. Foi o jovem de 20 anos que carregou todas as esperanças de ir além, de conseguir o novo, de extrapolar os desejos de toda a massa.

Em campo, Renato unia o melhor de dois mundos. Era o ponta extremamente técnico, deslumbrante nos dribles, agudo nas jogadas. Mas, diferentemente do que seu virtuosismo poderia sugerir, também possuía grande dose de valentia. A potência física era um de seus trunfos para encarar os beques adversários sem temer o contato. Qualidade e garra vestindo a camisa 7, chamando a responsabilidade, partindo para cima da marcação. O garoto era daqueles jogadores que puxavam a torcida consigo, pelo ímpeto que colocava em cada lance. Assim se viu muitas vezes na Libertadores de 1983, com o fenômeno protagonizando o Tricolor rumo ao seu primeiro título continental.

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A personalidade de Renato já dava as caras naquela época, seja pelas fanfarronices ou pelo gosto de desfrutar a vida noturna. Mas nada que comprometesse a maneira como ele cativava as arquibancadas do Olímpico. Pois, dentro de campo, ele resolvia. E resolveu muitas vezes para o Grêmio conquistar a América. O ponta colecionou atuações imparáveis. Derrubou América de Cali e Estudiantes no triangular semifinal. Até destoar na decisão, diante do tradicionalíssimo Peñarol. No primeiro jogo, dentro do Centenario, o garoto precisou saber apanhar sem revidar e esquecer suas vaidades para também defender. Já no reencontro em Porto Alegre, arrebentou com os carboneros. Entortou os marcadores, conseguiu faltas, cavou cartões. Participou da origem do primeiro gol e foi decisivo no segundo, em cruzamento nascido de um lampejo, para César arrematar de cabeça. Além disso, Renato não fugiria da briga, expulso nos minutos finais ao devolver as agressões dos aurinegros.

A conquista da Libertadores elevava Renato de príncipe a rei no Olímpico. E o seu reinado se estendeu aos quatro cantos do mundo em dezembro, diante de tudo o que o camisa 7 aprontou contra o Hamburgo. O rapazote fez a partida de sua vida no Estádio Nacional de Tóquio. O tricolor, que se tornara continental pouco antes, agora também era mundial. Então, não existiam manifestações suficientes que pudesse preencher a gratidão dos torcedores gremistas em relação ao seu ídolo. Os tempos de cativeiro pré-1977 ainda estavam frescos na memória dos gaúchos. Foi aquele garoto, como um messias rebelde e tresloucado, que levou os gremistas a uma transcendência muito além dos limites do Rio Grande. É difícil imaginar que surja, mesmo considerando apenas o que aconteceu dentro de campo, uma lenda que represente tanto quanto Portaluppi – o menino que eclodiu no seio do Olímpico, se fez homem por lá, conclamou o seu povo e tornou todos os prodígios possíveis.

Renato permaneceu no Grêmio até 1987. Não repetiu tais façanhas, mas conquistou o bicampeonato estadual e manteve a idolatria. De maneira até natural, a relação acabou se desgastando e o craque arrumou as malas para o Flamengo. Até voltaria em 1991, para uma breve e mal-sucedida passagem por empréstimo, em ano no qual os tricolores acabaram rebaixados no Brasileirão. Por mais que tenha defendido diferentes clubes no final de sua carreira, Portaluppi não retornaria à Azenha para o último adeus, como sua história poderia sugerir. O cordão umbilical já tinha sido cortado, apesar do carinho que permanecia.

A carreira de treinador de Renato se forjou no Rio de Janeiro, onde o craque estabeleceu morada durante a maior parte dos anos depois que deixou Porto Alegre. O retorno ao Olímpico aconteceria apenas em 2010, como o filho pródigo de volta à casa. O momento não era fácil, com os tricolores ocupando a zona de rebaixamento, mas o treinador não apenas comandou a salvação, como também colocou o time na Copa Libertadores. Avançou até as oitavas de final, eliminado na famosa semana de pesadelo aos brasileiros. Pouco mais de um mês depois, pediria demissão. Já a segunda passagem de Portaluppi na casamata gremista aconteceu em 2013, novamente enchendo a torcida de esperanças. Foi vice-campeão brasileiro e classificou o time à Libertadores, mas saiu em dezembro daquele ano, após somente cinco meses no cargo. Não chegou a um acordo com a diretoria por sua renovação, mas prometia retornar em breve.

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Por fim, quando o nome de Renato ressurgiu no Humaitá, em setembro de 2016, a empolgação era menor do que nas outras ocasiões. O último trabalho do comandante tinha sido em 2014, caindo após quatro meses à frente do Fluminense. Parecia apenas um apelo à história depois da saída de Roger Machado, tirando o velho ídolo de seu descanso no Rio de Janeiro. Uma mudança radical de perfis, talvez. Para muita gente que via de fora, soava como um tiro na água. Acabou por imprimir a sua marca, com seu jeito particular, respaldado também por uma base oferecida pela diretoria.

Como no trabalho de qualquer treinador, Renato assumiu uma herança de seus antecessores – de Roger e mesmo de Felipão. Mas não dá para negar que a volta do lendário camisa 7 impactou sobre o time. Em menos de três meses, o Grêmio encerrou o mar de lamentações que durava 15 anos. Enfim, voltou a conquistar um título de expressão, faturando a Copa do Brasil. E ainda que o parco tempo gerasse dúvidas sobre a real profundidade do que ele proporcionou, os traços estavam claros. Como escrevemos no texto da conquista aqui na Trivela: “O título do Grêmio é de Renato – Gaúcho ou Portaluppi, como preferirem. O homem que, ao lado de Valdir Espinosa, conseguiu reinventar o trabalho que não vinha rendendo com Roger e fez o time dar passos à frente, muito mais consistente na defesa, letal nos contra-ataques”. Importância esta que realmente se escancarou em 2017, de diferentes maneiras.

O trunfo mais evidente de Renato é a relação que construiu com o elenco. É difícil encontrar um jogador que critique o treinador abertamente. Pelo contrário, a amizade se reflete diferentes vezes nas próprias entrevistas. Assim, fica mais fácil entender como a injeção de moral reergueu o time para a conquista da Copa do Brasil de 2016 e uniu o grupo em busca do principal objetivo neste ano. Mesmo com as rotações constantes entre as diferentes competições, não se viu qualquer crise de vaidades no elenco tricolor. Até pela abertura que o treinador sempre pareceu dar as seus jogadores, extraindo o máximo de confiança.

Dentro disso, foram vários os destaques que subiram de produção com Renato. Jogadores que já estavam na casa e pareceram encontrar o seu melhor momento. Marcelo Grohe e Luan são os nomes inescapáveis neste processo. Pedro Rocha, de tantos gols talismânicos com Portaluppi, melhorou a sua capacidade de definição e passou a aparecer muito mais. Ramiro cumpriu o que se prometia dele, redefinindo sua função. Mesmo Geromel e Kannemann chegaram ao melhor momento de sua afinação quando a proteção defensiva aumentou com a chegada do novo treinador. E dá para listar outros atletas que não necessariamente brilharam na Libertadores, mas foram importantes na jornada, como Maicon, Marcelo Oliveira ou Douglas – afetados pelas lesões em 2017.

Reinventar, aliás, foi um verbo que Renato conjugou diversas vezes no Humaitá. Soube superar os desfalques e conseguiu montar um elenco baseado em seus homens de confiança. Jogadores tidos como refugos, mas que ressurgiram para impulsionar o Grêmio. E a lista é extensa: Edílson, Cortez, Léo Moura, Jael, Cícero, Fernandinho. Lucas Barrios acabou sendo o único investimento realmente caro para este ano, mas também reencontrou seu melhor futebol com a camisa tricolor. Um time improvável no papel, por todos aqueles nomes que pareciam no ocaso de suas carreiras, mas que se transformou nas mãos do treinador e no trabalho coletivo.

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E há, claro, as descobertas de Renato. Outra virtude do treinador, que não necessariamente escalou o time por tempo de casa ou por amizade, mas sim por produtividade. É o que permitiu Arthur, um garoto que mal tinha atuado profissionalmente, se afirmar como um monstro em partidas decisivas da Libertadores. Ao seu lado, outro achado foi o parceiro do prodígio na cabeça de área, Jaílson, mais um que não se destacava tanto na transição ao elenco principal. O volante cumpriu com grande eficiência seu papel ao longo da competição e, apesar do pênalti cometido na final, deu uma bela assistência.

Com as peças distribuídas no tabuleiro, restou a Renato montar seu time. A solidez defensiva e a verticalidade no ataque, vistas em 2016, evoluíram nos últimos meses. O Grêmio nem sempre foi perfeito, mas praticou o futebol mais vistoso do Brasil em 2017. Uma equipe que soube trabalhar a bola, envolver os adversários, criar jogadas bem encadeadas. Teve os seus momentos menos impressionantes, claro. Mas, no geral, soube combinar necessidades e aptidões. E o ápice aconteceu justamente na decisão da Libertadores. Os gremistas conectaram as diferentes fases do jogo, especialmente pela maneira como trabalharam sem a bola, pressionando, agressivos. Deram gosto de ver, até pelo empenho. Uniram qualidade à vontade, o copeirismo ao requinte. A identidade do Grêmio, fundida à personalidade de Portaluppi-Gaúcho. Quando isso acontece, não há como desprezar a preparação realizada pelo treinador, bem como por sua comissão técnica.

Renato pode querer afastar de si a imagem de catedrático da bola. Já falou em tom de deboche sobre os que investem tempo se reciclando – em falas que nunca saberemos se era crença mesmo ou só o personagem preponderando. Fato é: não dá para ter sucesso como o Grêmio teve sem um trabalho intenso por trás. Sem o próprio estudo, para ajeitar a equipe. E que não seja o aluno mais CDF da classe, Portaluppi é um cara que entende muito do riscado, por aquilo que aprendeu ao longo da vida. Que tem uma compreensão rápida e dinâmica do que acontece em campo. Mais do que isso, que consegue passar aos seus jogadores o que ele deseja. Não à toa, os tricolores conseguiram se reinventar mesmo dentro das próprias partidas, para chegar as soluções e abrir seu caminho rumo ao título.

Com a taça em mãos, Renato Portaluppi deixa assumir o folclore. O personagem que dá um sabor diferente ao futebol, mesmo que nem todos batam palmas. Admirado pela maneira como encara a vida, mas que também não pode ser ignorado como treinador. O gaúcho se reinventou na casamata com esse título da Libertadores. A boleiragem é inegável nos traços de seus trabalhos, mas não só isso. Ele sobe um patamar ao conquistar a taça de peso que marca a carreira de qualquer um. E que talvez não pare por aí, diante daquilo que o Grêmio pode continuar fazendo. Dentro daquilo que o próprio Renato pode continuar cultivando no Humaitá.

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Por fim, há um Renato Portaluppi que fica à eternidade do Grêmio. O ídolo, que já era insuperável, multiplica o seu gigantismo de uma maneira como nenhum outro conseguiu no futebol brasileiro, como jogador e como treinador. Aos tricolores, o nome de Renato soa como uma espécie de Midas, que transformou o continente em ouro duas vezes. E se em 1983 ele foi o messias surgido na própria base, desta vez ele retorna tal qual um matreiro Moisés, encerrando os 15 anos de travessia no deserto rumo à terra prometida – uma terra que, na fanfarronice de suas palavras, ele mesmo prometeu e cumpriu.

Este momento, porém, tem que deixar de lado qualquer comparação profética com as escrituras. A hora é de uma festa pagã tomando as ruas de Porto Alegre, em meio ao feriado decretado por Renato, para que se cumpra o seu regozijo total. Só depois disso é que dará para pensar na deificação da lenda imortal – de preferência, com a estátua de bronze que ele tanto reivindica, para ser adorada e idolatrada por décadas durante as peregrinações à Arena. E nem isso dimensionará sua real grandeza aos tricolores.


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