Segurar um jogador como Cristiano Ronaldo é uma tarefa sempre muito ingrata, ainda mais quando se trata de Champions League. Depois da paralisação, a Juventus voltou à competição europeia com uma missão clara: precisava superar o Lyon para avançar. Cristiano Ronaldo fez dois gols, a Juventus venceu, mas quem levou a vaga nas quartas de final foi o Lyon, que teve uma grande atuação defensiva, ganhou um gol no começo e complicou a vida dos campeões italianos. Os 2 a 1 da Juventus não foram o bastante e a Velha Senhora está eliminada ainda nas oitavas de final.

O que o Lyon fez em Turim tem muito a ver com o trabalho defensivo. Foi um time que aproveitou o gol que marcou cedo na partida e ficou organizado defensivamente o tempo todo. O trio de zaga formado por Jason Denayer, Marcelo e Fernando Marçal foi muito bem no jogo, mesmo sofrendo dois gols. Para além dos dois zagueiros, o time todo do Lyon teve uma atuação defensivamente muito sólida. O time francês tirou os espaços da Juventus, que não os encontrava pelos lados do campo, normalmente um ponto forte do time.

A primeira surpresa da partida veio já nas escalações do time. Paulo Dybala, destaque da Juve na Serie A, ficou no banco. O argentino se recuperava de uma lesão e não estava com 100% das suas condições físicas. Aliás, como o jogo mostrou, ele não estava nem perto disso. Maurizio Sarri montou o ataque do time com Cristiano Ronaldo, Federico Bernardeschi e Gonzalo Higuaín. O time foi o habitual, com o meio-campo formado por Miralem Pjanic, Rodrigo Betancur e Adrien Rabiot.

No Lyon, o técnico Rudi Garcia não tinha desfalques e colocou o time titular, em um 3-5-2. O destaque do time estava no meio-campo: Bruno Guimarães ficava mais centralizado e recuado, com Maxence Coqueret e Houssem Aouar no setor, um pouco mais à frente. A surpresa foi não ter Moussa Dembélé no ataque. O atacante ficou no banco de reservas e quem começou a partida foi Karl Toko Ekambi, ao lado de Memphis Depay, o capitão do time. Ekambi ganhou seu lugar justamente porque na primeira partida criou problemas para a defesa italiana.

Com oito minutos de partida, o Lyon já ameaçou. Depois de uma jogada trabalhada pela esquerda, bola para Houssem Aouar, que chutou firme. A bola até parecia que ia para fora, mas era perigosa e o goleiro Wojciech Szczesny jogou para escanteio. Foi a primeira boa chance.

Aos 10 minutos, em uma jogada trabalhada dentro da área, Aouar ia para a bola e Rodrigo Betancur deu um carrinho. Pegou a bola e, depois, o meio-campista do Lyon. O árbitro Felix Zwayer nem titubeou e marcou pênalti. Na repetição do lance, ficou claro que não foi falta. Houve a revisão do VAR, mas o árbitro nem quis rever a imagem. A penalidade foi confirmada.

O atacante Memphis Depay cobrou com uma imensa categoria e risco: deu a famosa cavadinha, no meio do gol, e viu o goleiro Szczesny cair para o lado, sem ter o que fazer: 1 a 0 para o Lyon em Turim. A vantagem que já era dos franceses aumentou ainda mais. E ainda definiu que não haveria pênaltis no Allianz Stadium, já que o jogo de ida foi 1 a 0 para o Lyon na França. A Juventus agora precisava fazer três gols para se classificar, uma missão já muito mais complicada.

A Juventus chegou ao ataque com muito perigos pouco depois. Bernardeschi fez uma jogada linda, passou pela marcação e até pelo goleiro andando quase em cima da linha de fundo e, um instante antes dele tocar para o fundo das redes, o zagueiro brasileiro Marcelo travou e colocou para escanteio. Um bloqueio fundamental para impedir um lance que era gol certo.

Como seria de se imaginar, depois do gol só dava Juventus. O time italiano era quem tinha a bola quase o tempo todo, rondando a área do Lyon e procurando espaços. Aos 37 minutos, Betancur chegou nas imediações da área, tocou para Cristiano Ronaldo, que devolveu bonito, de letra, e o uruguaio acabou derrubado, na meia-lua. Uma chance de ouro para a Juve.

Cristiano Ronaldo cobrou a falta de um jeito diferente do que estamos acostumados a ver: em vez de bater forte e no alto, bateu colocado, por cima da barreira, e obrigou Anthony Lopes a uma grande defesa para impedir o empate. Logo depois, foi a vez de Cristiano Ronaldo sofrer uma falta, desta vez mais de longe. Miralem Pjanic cobrou, levou perigo, mas mandou fora.

O que o árbitro viu foi um toque de mão de Depay na cobrança de falta e, por isso, ele marcou o pênalti. Um pênalti que só o árbitro viu – e que o VAR também não o salvou, como foi no lance do primeiro pênalti do jogo. Cristiano Ronaldo foi para a cobrança e, com tranquilidade, tocou em um canto, deixando Lopes cair no outro: 1 a 1, aos 43 minutos. A Juventus ainda precisaria de dois gols.

O segundo tempo começou em um cenário parecido com o primeiro: a Juventus rondando a área, tentando achar os espaços, mas tendo dificuldades. O Lyon, desde que tomou o gol de empate ainda no final do primeiro tempo, tentava ter mais a bola, diferente da postura do momento que fez o gol até sofrer o empate.

Bem posicionada, a defesa do Lyon não dava espaços. Então, foi preciso criá-lo. Cristiano Ronaldo recebeu de fora da área, puxou para o meio e bateu rápido, antes que a marcação pudesse perceber de onde sairia o chute. De canhota, ele acertou um chutaço e Anthony Lopes até tocou na bola, mas não conseguiu evitar: 2 a 1 para a Juve. Os jogadores do clube italiano foram lá buscar a bola no fundo do gol para correr atrás de mais um.

Logo depois do gol, Sarri tirou Pjanic e colocou Aaron Ramsey. O Lyon também mudou, com a saída de Jason Denayer e a entrada de Joachim Andersen, com 1,90 metro, um pouco mais alto que Denayer, que tem 1,84. Uma tentativa, talvez, de evitar este ótimo fundamento de Cristiano Ronaldo e também e Higuaín.

O Lyon fez mais mudanças pouco depois. Saíram Memphis Depay e Ekambi para as entradas de Moussa Dembélé e Jeff Reine-Adélaide, respectivamente. Enquanto o primeiro que entrou é um centroavante típico, o segundo é mais um meia ofensivo, que recua mais para tentar as jogadas.

Sarri fez mudanças no time. Entrou Danilo no lugar de Cuadrado. O colombiano não saiu feliz, mas em seguida recebeu atendimento. Parece que o desgaste físico estava grande para o jogador. Dybala entrou no lugar de Bernardeschi. A Juve tinha, enfim, o trio ofensivo com Dybala, Ronaldo e Higuaín. Eram pouco mais de 20 minutos para tentar o gol da classificação. Se não sofresse mais um, claro.

O Lyon passou a atuar mais recuado. Os três zagueiros ganharam a companha dos alas, Léo Dubois e Maxwel Cornet, que recuaram para a linha de defesa. Cristiano Ronaldo abriu pela esquerda para tentar ganhar espaço, enquanto Dybala, pelo meio, tentava ser um jogador de perigo.

Aos 30 minutos, Cristiano Ronaldo fez a jogada pela esquerda e tentou cruzar, mas ganhou escanteio. Na cobrança, Dybala colocou no meio da área e Cristiano Ronaldo, surpreendentemente com liberdade, cabeceou com perigo, mas para fora. Uma boa chance perdida pelo português.

O Lyon chegou com muito perigo aos 32 minutos. Cruzamento para a área, Szczesny saiu para socar a bola, não acertou e a bola sobrou para Caqueret, que tocou para o meio. Ramsey chegou rasgando e se antecipando a Dembélé, mas acertou o atacante francês. Sem falta, porém. Não na visão dos jogadores do time francês, que cercaram o árbitro para pressioná-lo. Pressionado, o árbitro esperou o VAR o salvar de um erro. Como não deve ter recebido nenhum relato de falta clara, deixou para lá e o jogo seguiu.

Faltavam 10 minutos para o fim do tempo regulamentar e o Lyon tentava segurar a bola. A essa altura, o time claramente queria ganhar tempo. A Juventus ficava impaciente. Leonardo Bonucci fez uma falta por impaciência, o que gerou a reclamação de Sarri – e que fez o técnico levar o cartão amarelo.

Aos 38 minutos, Dybala mancava em campo. Quando ele recebeu a bola, não pareceu aguentar mais. A lesão o impedia de continuar em campo. Foi substituído por Marco Olivieri, um jovem de 21 anos da base da Velha Senhora. Uma chance de ouro para brilhar, ainda que em poucos minutos.

Nos acréscimos, o Lyon tentou ganhar mais tempo com as substituições. Tirou Léo Dubois, ala, e entrou Kenny Tate, zagueiro. Também tirou Aouar e colocou Thiago Mendes. A Juventus, desesperada, tentava chegar, mas nem na base do abafa conseguia: os franceses não davam espaço nem mesmo para cruzamentos. Uma atuação notável do sistema de marcação dos lioneses.

Eram 47 minutos quando Higuaín recebeu a bola de costas, girou e sofreu a falta. Uma grande chance de finalização. Cristiano Ronaldo foi para a bola para tentar o gol salvador. Ele cobrou, mas a bola explodiu em Marcelo, que estava na barreira, e foi para escanteio, que não deu em nada. O Lyon ganhava tempo. A Juventus entrou no modo desespero, com o zagueiro Matthijs De Ligt nem voltando mais para marcar, já como outro atacante.

Nos minutos finais, a Juventus se jogou ao ataque, mas foi como em todo o resto do jogo: cercando, da intermediária para frente, mas sem conseguir criar uma chance. Ronaldo de fato criou o espaço quando foi preciso, mas ele teria que tirar um outro coelho da cartola. Não tirou. Gonzalo Higuaín não teve um bom dia. A ausência de Dybala pesou.

A Juventus está eliminada nas oitavas de final da Champions League, com Cristiano Ronaldo e tudo. A eliminação pesa também porque o desempenho do time não passou nem perto do que se espera de um time como a Juve, com o elenco que tem, os jogadores estelares que possui. Maurizio Sarri será ainda mais questionado, mas há muito o que se questionar no clube, a começar pela diretoria e a política de transferências.

Sarri não conseguiu implantar seu estilo de jogo e cometeu erros, mas o time está longe de ter jogadores que se adequem ao seu estilo também. E as contratações do time passaram longe de permitir que ele fizesse isso. É um ponto que precisará de reflexão em Turim antes de dar a ele o cartão azul.

O Lyon, por sua vez, mostrou um pouco do que já tinha feito com o PSG na final da Copa da Liga da França. Diante do PSG, que é muito forte tecnicamente, travou o jogo, mostrou consistência defensiva, preparo e uma imensa capacidade de tirar espaços do adversário. Com a bola, o time também é perigoso.

O desempenho na Ligue 1 não indicava isso, mas em jogos eliminatórios como o que vimos em Turim, e antes em Paris, os lioneses podem no mínimo dificultar muito a vida dos adversários. O meio-campo do time é bastante promissor com Bruno Guimarães, Caqueret e Aouar. Os três tiveram uma boa atuação e indicam um futuro para o clube. Com o avanço na Champions, certamente o time tem muito a evoluir. Mais do que isso, como não conseguiu vaga em competições europeias, a receita oriunda de premiação por ir mais longe na Champions será fundamental para o time francês.