O Real Madrid fez uma escolha quando contratou Thibaut Courtois em 2018, após um longo namoro e o impacto causado pelo belga na Copa do Mundo. A decisão dos merengues, porém, também simbolizou a falta de consideração com Keylor Navas. Que tenha feito sua temporada menos reluzente em 2017/18, foi igualmente fundamental às conquistas do clube. Merecia créditos pelo papel decisivo desempenhado em seus quatro anos anteriores no Santiago Bernabéu, sobretudo pela maneira como salvou o time repetidas vezes na Champions League. Mas a falta de “grife” parece ter pesado contra o costarriquenho e, por mais que ele tenha se empenhado para manter a concorrência aberta com Courtois, seus superiores discordaram. Hora, então, de seguir um rumo diferente. O arqueiro chega como um excelente acréscimo do Paris Saint-Germain neste fechamento de mercado.

Quando Courtois desembarcou no Real Madrid, por badalação ou por preço, era compreensível que ele entrasse como titular da equipe. A despeito da história já construída com os merengues, Navas teria que lidar com a concorrência. O costarriquenho fez bons jogos quando precisou entrar em campo na temporada passada e parecia disposto a recobrar o seu espaço. Isso ficou ainda mais evidente durante a pré-temporada. Enquanto Courtois acumulava atuações ruins, Navas foi um dos pouquíssimos que se salvaram e evitou humilhações maiores. Zinedine Zidane, entretanto, não concedeu ao goleiro a mesma proteção que confere ao restante de sua “igrejinha”. Courtois permaneceria como titular. Então, uma semana antes do fechamento do mercado, Navas solicitou à diretoria sua transferência – mas sem criar caso por isso.

Não foi a primeira vez, afinal, que o Real Madrid virou as costas a Keylor Navas. O episódio inicial aconteceu em agosto de 2015, quando sequer tinha recebido uma sequência de jogos em Madri. Os merengues tentaram trocá-lo por David de Gea e só não conseguiram por uma série de trapalhadas durante os minutos finais da janela de transferências. O costarriquenho declarou que chegou a chorar pela incerteza que enfrentou na ocasião. Deu sua volta por cima com atuações brilhantes e defesas milagrosas, mas ainda assim precisou lidar com os rumores persistentes quanto a De Gea. Kepa Arrizabalaga, por sua vez, não chegou porque Zidane barrou, após o acerto inicial com a diretoria. Por fim, Courtois foi o último baque nesta relação.

Navas tentou, e muito. Fez por merecer mais respeito do Real Madrid, o que não recebeu, e também deu uma prova enorme de sua abnegação, ao persistir até demais. Quando se abriu às transferências, no início da janela, não recebeu propostas que mantivessem o seu salário. Entretanto, uma boa oportunidade surgiu nesta semana. O PSG, que não se mostrava contente com suas atuais opções ao gol, resolveu bancar o salário de Navas e concederá mais minutos ao novo arqueiro. Segundo a France Football, o clube desembolsará €10 milhões pelo reforço, em contrato firmado por quatro anos, e ainda cederá Alphonse Aréola por empréstimo como reserva aos merengues. Além do costarriquenho, Sergio Rico chega como opção ao banco dos parisienses.

O valor é condizente à estatura de Navas. Afinal, os três títulos da Champions com o Real Madrid o colocam em um lugar privilegiado na história do clube – e, por consequência, do próprio futebol europeu. Ele se iguala a Iker Casillas e Juan Alonso, titulares da agremiação em tantas conquistas continentais. Ao longo de cinco anos no Bernabéu, três deles como dono da meta, o costarriquenho disputou 162 partidas, levou 159 gols e somou 52 atuações sem ser vazado. Certamente sustentará um carinho grande com os torcedores. O reconhecimento tende a ser maior com o tempo.

Já no Parc des Princes, Navas tentará colocar fim a um ponto instável do Paris Saint-Germain. O clube teve bons goleiros ao longo dos últimos anos, desde que os “petroeuros” passaram a jorrar na capital. Entretanto, nenhum deles se tornou intocável. Gianluigi Buffon foi o mais renomado a passar pela capital, mas sua aventura durou pouco e não causou os efeitos que se esperava, em meio à crise interna. Alphonse Aréola teve momentos reluzentes. Porém, além da falta de grife, sofreu com suas oscilações. Uma irregularidade maior limou Kévin Trapp, bem melhor sem tanta pressão no Eintracht Frankfurt. Talvez o mais bem-sucedido dos arqueiros nesta era parisiense tenha sido Salvatore Sirigu, que segurou as pontas por um longo período, embora não fosse exatamente uma unanimidade.

“Estou realmente empolgado em assinar com o PSG. Depois da minha experiência na Espanha, chego à França com grandes expectativas. O PSG é um clube muito prestigiado na América Latina e estou ansioso para fazer parte desta aventura que começou há alguns anos. Farei de tudo para que o PSG conquiste novos títulos, trazendo minha experiência e meu profissionalismo. Tentarei conquistar os corações dos torcedores parisienses, famosos em toda a Europa por sua paixão”, declarou Navas, durante a apresentação.

Keylor Navas oferece, além de sua comprovada qualidade, também um espírito competitivo e vencedor que podem ser importantes ao Paris Saint-Germain. É um goleiro que cresceu em grandes momentos e pode fazer a diferença na ambição do clube dentro da Liga dos Campeões. Tem um perfil humilde e de trabalho intenso, que não se choca com outras estrelas do elenco – pelo contrário, serve de exemplo. E chega mordido para mudar sua história, diante da falta de prestígio que encarava no Real Madrid. A própria pré-temporada foi uma prova de como o camisa 1 preserva sua forma. Agora, passará a atuar em um ambiente diferente. Será menos exigido na Ligue 1, apesar das cobranças na Champions.

A idade de Navas gera um pouco mais de dúvidas em relação ao seu sucesso, considerando o próprio estilo de jogo sob as traves. Até por sua altura, o veterano de 32 anos depende bastante de sua explosão e de sua agilidade. Graças a essas virtudes chegou ao topo. De qualquer maneira, parece cedo demais para cravar o declínio do costarriquenho. Vontade não faltará para que, enfim, o novo clube reconheça o seu valor. Diante daquilo que aporta e que pode realizar na Champions, o arqueiro parece a escolha ideal para o Paris Saint-Germain subir de patamar.