Uma das máximas mais absolutas do futebol é a de que “o jogo só acaba quando termina”. Parece uma ideia incontestável, mas o autor desta frase certamente desconsiderou o futebol africano ao formulá-la. O apito final do árbitro é mera formalidade na África. Independentemente do que acontecer dentro de campo, tudo pode mudar fora dele. Seria cômico se não fosse trágico.

No último fim de semana, Cabo Verde comemorou uma vaga histórica para a fase final das Eliminatórias africanas para a Copa de 2014. Os “Tubarões Azuis” desafiaram os prognósticos e venceram a forte Tunísia por 2 a 0, fora de casa, garantindo a classificação. A festa, no entanto, durou apenas cinco dias. Na última quinta-feira, os pontos da vitória cabo-verdiana foram deduzidos por conta da escalação de um jogador irregular. Ou seja, a própria Tunísia acabou herdando a vaga para o playoff.

A confusão se deu em torno da escalação de Fernando Varela, que jogou normalmente a partida contra os tunisianos. No entanto, o zagueiro cumpria suspensão de quatro jogos após ser expulso contra Guiné-Equatorial no dia 24 de março. Em campo, o resultado deste jogo foi 4 a 3 para os guineanos. No entanto, curiosamente, Guiné-Equatorial também havia sido punida por conta da escalação de um jogador irregular e Cabo Verde foi declarado vencedor da partida por 3 a 0.

Ou seja, a alegação de Cabo Verde é a de que como o jogo “não valeu”, a suspensão também não valia. Ledo engano. Independentemente do que está no estatuto, claramente faltou boa vontade da Fifa em esclarecer o assunto, bem como faltou inteligência para a Federação Cabo-Verdiana de Futebol (FCF) consultar a entidade máxima do futebol.

A grande questão é que esse não é um caso isolado. Além de Cabo Verde e da supracitada Guiné-Equatorial, seleções como Burkina Faso, Gabão, Sudão, Etiópia e Togo também foram punidas ao longo das Eliminatórias por escalarem jogadores inelegíveis. No caso dos etíopes e dos togoleses, por exemplo, a punição se deu por conta da escalação de um jogador suspenso por acúmulo de cartões amarelos. Dá pra acreditar que algo simples como isso passou batido pelas federações de ambos os países?

Salvo raríssimas exceções, o futebol é muito mal gerido na África, o que acaba manchando uma competição de extrema importância como as eliminatórias para a Copa. Está cada vez mais comum que partidas ganhem novos desdobramentos fora de campo, o que é péssimo para o espetáculo e consequência do poder concentrado nas mãos de dirigentes amadores. Por essas e outras é que, infelizmente, um jogo nem sempre acaba quando termina.

Curtas

– Além da Tunísia, Congo foi outra seleção a denunciar a escalação de um jogador irregular e tentar a sorte no “tapetão”. Os congoleses, no entanto, não foram felizes. A entidade máxima do futebol rejeitou a alegação de que Mahamane Cissé, jogador de Níger que nasceu em Mali, não estaria regularmente naturalizado. Congo e Níger se enfrentaram no último sábado e empataram em 2 a 2.

– O sorteio da fase final das eliminatórias africanas será realizado no próximo dia 16, no Marrocos. As dez seleções que seguem na luta por uma vaga na Copa do Mundo serão divididas em dois potes, de acordo com o último ranking da Fifa. Pote 1 (melhores ranqueadas): Costa do Marfim, Gana, Argélia, Nigéria e Burkina Faso; Pote 2: Camarões, Tunísia, Egito, Senegal e Etiópia.

– E Samuel Eto’o hein? Pra variar, envolvido em mais uma polêmica na seleção camaronesa. Em mais um capítulo de suas idas e vindas com os Leões Indomáveis, o craque novamente anunciou o seu afastamento da seleção. A imprensa afirma que Eto’o ficou irritado com a recusa de Volker Finke, técnico de Camarões, em escalar os amigos Kameni e Webó no time titular.

– Este não é o primeiro caso de ingerência na carreira de Eto’o. O momento coincidiu com uma declaração de Roberto Carlos, hoje técnico do Sivasspor, que afirmou que o camaronês queria “controlar o Anzhi” enquanto esteve no futebol russo. O fato é que o craque está a cada dia mais desgastado na seleção, que por sua vez, ainda não aprendeu a sobreviver sem ele.

– Mais constrangedora ainda é a situação do técnico Nabil Maaloul, imediatamente demitido do comando da Tunísia após não conseguir classificação para o mata-mata das Eliminatórias. Acontece que, como dito nesta coluna, a situação sofreu uma reviravolta e os tunisianos herdaram a vaga para o playoff. Será que a federação vai reconsiderar a demissão de Maaloul?