Não sei se você já ouviu esse ditado velho, que tem mais anos de vida do que Paulo Baier e Magno Alves juntos. É assim: “Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, ah, elas existem”. Eu não acreditava que uma narração ufanista pudesse desclassificar um time. Mas ouvindo a sequência inacreditável de frases do narrador Luiz Penido, da Rádio Globo, olha… Estou mudando meus conceitos.

OUÇA: Eis aqui a narração de Luiz Penido no primeiro gol do Flamengo.

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Quando o Flamengo abriu o placar contra o Atlético-MG, Penido, uma das vozes mais empolgantes e poderosas do rádio carioca, se empolgou. Em quase dois minutos, ele crava que o “Flamengaço” já era finalista da Copa do Brasil por causa de uma “jogada santa, jogada abençoada”.

Depois, enquanto a torcida do Galo cantava o tradicional “eu acredito”, o narrador dizia “eu du-vi-do!”. E deixa uma sequência de frases premonitórias no final: “Agora, só se o Atlético fizer quatro… E não vai fazer mesmo! Isso é Flamengo! Deixou chegar… hummmm…. Mengão querido! Rala, rala, rala Galo! Aqui no Mineirão a galera do Mengão vibrando de montão”.

Não é o caso de colocar Penido no altar e sacrificá-los aos deuses da bola. Cada Estado tem um estilo de narração. Esses estilos encarnam todos os lugares-comuns de cada canto do Brasil – e alguns narradores, como Penido, fazem isso com maestria. Os gaúchos costumam apelar à “gauchicidade”, como na célebre narração em que as origens místicas de Rafael Sóbis são invocadas no momento em que o Internacional “pisa” na camisa do São Paulo. Os paulistas são sóbrios e irritados. Os mineiros fazem jus às raízes católicas e apelam a todos os santos – e até se irritam, como aconteceu no célebre momento do gol de Gil. A narração de Penido é praticamente um Zé Carioca do rádio.

As narrações boleiras de rádios materializam o clichê de cada Estado do Brasil – e até além fronteiras, como são as inacreditáveis narrações da rádio argentina. Em vez de se irritar com elas, é melhor abraça-las. Os narradores de rádio, por mais ufanistas ou críticos que sejam, fazem parte do espetáculo da bola.

Em alguns casos, são personagens tão interessantes quanto os jogadores. Por isso não faz sentido nenhum ficar furioso ou ameaçar narradores por causa dessas narrações- eles estão atuando, de certa forma. Nunca vou esquecer das narrações épicas de Osmar Santos, uma pessoa gigantesca para o futebol brasileiro, tão grandes quanto os outros ícones dos anos 80 e 90. Osmar Santos é do tamanho de Sócrates, de Zico. Ele faz o espetáculo.

Porque, quando é a favor do seu time, geralmente o resultado é uma catarse espetacular. Quando é contra, como acabou acontecendo, sem querer, com Penido… o jeito é abraçar a tragicomédia da vida – e fazer uma mandinga mais forte da próxima vez. Porque as bruxas existem e parece que elas andam passando uma ótima temporada em Belo Horizonte, comendo pão de queijo e bebendo umas pinguinhas (até o 7 a 1 foi por lá, lembre-se).

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