Na Espanha, a obsessão deve ser bem mais antiga. Mas foi no sorteio do mata-mata da Champions League passada que o mundo abraçou de vez essa causa: todos esperavam por uma final entre Barcelona e Real Madrid. Por mais que você não goste de um dos dois, ou mesmo de ambos, não pode negar que um confronto entre eles, especialmente no momento em que são os dois clubes mais fortes do mundo (e continuam sendo, mesmo depois de eliminados), tendo como cenário o campeonato interclubes mais prestigiado do planeta (e que continuará sendo, pelo menos enquanto seu único potencial concorrente for organizado pela patética Conmebol), seria um evento imperdível para todos aqueles que gostam de futebol.

O sorteio do ano passado fez as vezes de estraga-prazeres. Mas acabamos nos consolando com a ideia de que seria até melhor vê-los se enfrentando na semifinal. Assim, teríamos não um, mas dois jogos, disputados em um Santiago Bernabéu e um Camp Nou loucamente pilhados, tirando a prova (que não chamarei de “real” por motivos óbvios) de quem mandava no duelo. Foram duas partidas históricas, que confirmaram a supremacia do Barça naquele momento. No clássico e no continente, algo ressaltado na final, onde o respeitabilíssimo Manchester United parecia um time de bairro, envolvido pelo impiedoso tiki taka catalão. Estilo que, na temporada seguinte, não seria apresentado com a mesma desenvoltura e constância. Em 2012, teríamos enfim a desejada final? Se o sorteio permitiu, quem poderia impedir?

O campeonato à parte disputado entre os obcecados rivais pode ter sido decisivo na eliminação conjunta. Perder dos merengues, dentro de casa, fez a confiança do Barcelona ficar ainda mais abalada, no que foi um golpe muito mais forte do que a derrota para o Chelsea. Ganhar dos culés exigiu esforço mental e físico acima da média por parte do Real. A afobação do Barcelona contra os ingleses e o desgaste do Real contra os alemães ficaram evidentes. Mas que fique claro que isso não serve de desculpa: Chelsea e Bayern mereceram passar para a final. O primeiro pela entrega, o segundo pela postura. Em confrontos de contornos bastante diferentes

O Chelsea deu sorte. Cedeu muitos espaços no primeiro tempo no Stamford Bridge, gerando pelo menos três boas chances desperdiçadas pelo Barcelona. A impressão era de que o jogo poderia ser resolvido a qualquer momento. E foi, só que pelo lado mais fraco. O gol de Drogba era o que os blues precisavam para voltar no segundo tempo com a única preocupação de atrapalhar os catalães, tarefa cumprida de forma exemplar. No jogo da volta, quando o Barça ameaçou atropelar, Ramires, incansável nas duas partidas, reacendeu a insegurança blaugraná. E o emocional foi pro espaço depois que Messi, em uma das piores atuações de sua carreira, perdeu um pênalti. Dali para a frente, faltou inspiração e tranquilidade ao Barça. O melhor time ficou pelo caminho, o mais focado seguiu adiante.

Para Bayern x Real, já se anunciava um confronto equilibrado. No embalo de sua torcida e respeitando o peso de sua tradição, os bávaros partiram para cima, deixando os espanhóis confortáveis para apostar em seus incisivos contra-ataques (o Barcelona que o diga). A merecida vitória só veio no final e os alemães precisariam de muita concentração no jogo do Bernabéu. Jogando em casa, o Real também deu a impressão de que passaria por cima. Mas o pênalti (que não existiu e só foi marcado para compensar outra infração forçada) convertido por Robben deixou o jogo perigoso. Afinal, um gol do Bayern e tudo poderia ir para o espaço. Encharcados de respeito e cautela, os times seguiram na mesma toada até os pênaltis, quando Neuer e Casillas brilharam, mas só um poderia viver noite de herói.

Mourinho garante que continua no Real, enquanto Guardiola desconversa sobre sua permanência no Barcelona. É possível que os dois caiam fora, mas é provável que continuem se enfrentando, pelo menos por mais uma temporada. Mesmo com o título mais desejado ficando na mão de um terceiro, os rivais continuarão sendo as equipes mais temidas do mundo. No máximo, ganham a companhia do Bayern, que provou que pode jogar de igual para igual contra eles e herdou da dupla espanhola o posto de favorito ao título europeu. A final dos sonhos de muitos passou selada, foram os rivais que não conseguiram montar nela. E não podem culpar mais ninguém pela oportunidade jogada fora. Boa parte do mundo pode até lamentar, mas Munique, o palco do espetáculo, agradece.