Futebol é uma paixão, mas que tem que lidar com uma dose considerável de ódio. Uma convivência que deixa marcas, às vezes físicas, outras vezes com mágoas que jamais serão curadas. Recentemente lembramos do episódio de Hillsborough, que matou 96 pessoas em uma mistura de irresponsabilidade, incompetência e mau-caratismo dos envolvidos. Uma dor que jamais pode ser esquecida, porque serviu para trazer mudanças que tornaram o futebol inglês mais humano. As autoridades tiveram que admitir, depois de décadas, que estavam errados e a culpa por tantas mortes foi, em última instância, deles. O episódio é lembrado como um momento que jamais deve se repetir. O que se viu neste fim de semana, no Brasil, não tem a dor da morte, mas também deveria ser um marco para lembrarmos sempre, para que jamais se repitam.

Sábado à noite, estádio dos Aflitos, Recife. A torcida do Náutico leva uma faixa com dizeres que chamaram a atenção: “Não irão nos derrubar no apito”. No sábado passado, no dia 22 de setembro, o Náutico reclamou muito da arbitragem de Pablo dos Santos Alves, que não marcou um pênalti no final do jogo contra o Fluminense, em Volta Redonda, na derrota por 2 a 1. O árbitro acabou punido com o afastamento por uma rodada.

O árbitro da partida deste sábado, Leandro Vuaden, parece não ter gostado da faixa. Atrasou o jogo e obrigou a torcida a abaixar a faixa. Com que autoridade? Quem ele pensa que é para tomar essa decisão?

Há sim um artigo no Estatuto do Torcedor que fala em faixas. Capítulo IV: da segurança do torcedor partícipe do evento esportivo. O Art. 13-A diz quais as condições que o torcedor precisa ter para poder entrar e permanecer no estádio. O inciso IV diz: “IV – não portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenófobo; (Incluído pela Lei nº 12.299, de 2010)”.

Como a mensagem não é racista nem xenófoba, o árbitro deve ter considerado que a mensagem era ofensiva. Isso na melhor das hipóteses, porque pode ser ainda pior. Pode não ser um ato de arrogância e autoritarismo de Leandro Vuaden, pode ser uma ordem do delegado da partida ou uma orientação da Comissão de Arbitragem. O que eu temo, porque isso significaria que o autoritarismo e o espírito de censura estão institucionalizados.

Há motivos para imaginar que é algo orquestrado. Em um jogo da 26ª rodada da Série B, na sexta-feira dia 21 de setembro, Joinville e Paraná se enfrentaram na Arena Joinville. Os torcedores do time da casa levaram faixas com protestos contra a CBF e contra o árbitro Alicio Pena Júnior, que errou na partida contra o Ceará. Marcelo de Lima Henrique, o árbitro da partida, decidiu mandar tirar a faixa. Novamente, uma medida autoritária, que usa o Estatuto do Torcedor de maneira oportunista.

No Recife, Vuaden demorou quase 20 minutos para começar Náutico x Atlético Goianiense, até que a faixa fosse abaixada. Não adiantou. Ela voltou poucos minutos depois da bola rolar. Como tem que ser. O protesto é legítimo e não agride ninguém. A torcida tem todo o direito de se manifestar como quiser. E deveria levar em todos os jogos a partir de agora, como uma forma de protesto permanente para lembrar esse ato autoritário ridículo.

Ditadura das minorias estúpidas

Se o sábado foi ruim, o domingo não foi melhor. Em Curitiba, o estádio Couto Pereira teve o empate por 1 a 1 entre Coritiba e São Paulo. Após o jogo, Lucas atendeu aos pedidos de uma torcedora do Coritiba, que perdia a voz querendo a camisa do jogador. Ele foi até lá e jogou a camisa. O que se viu em seguida foi uma legião de imbecis agir da única forma como sabem: em grupo, como manada. Agrediram o pai e foram para cima da garota, inconformados pela torcedora do Coxa ter pedido a camisa a um jogador do São Paulo. O pai da garota Milena, de 13 anos, foi agredido, o óculos quebrado, e os dois jogaram a camisa de volta a Lucas, com medo e cercados por torcedores que pareciam a ponto de agredir muito mais.

A polícia que estava no local nada fez. Não os protegeu, não os ajudou a sair dali em segurança. Os policiais ficaram assistindo as dezenas de torcedores insultando e agredindo, moral e fisicamente, duas pessoas que nada fizeram de errado. Ainda bem que o São Paulo levou a menina ao túnel dos times e Milena recebeu uma camisa de Lucas e pôde tirar foto com o jogador. A minoria estúpida deve ter deixado o estádio radiante. Mostraram mais uma vez sua imbecilidade. Imbecilidade, aliás, que não tem cor. Está presente em todas as torcidas.

No Pacaembu, o Corinthians enfrentou o Sport. Na arquibancada, um escocês foi assistir a partida na torcida do Corinthians vestido com a camisa do seu clube de coração, o Celtic. Por um acaso, as cores do Celtic são verde e branco, em listras horizontais que tornam a camisa do clube famosa no mundo todo. Alguns torcedores do Corinthians, então, passaram olhar feio para o escocês. O olhar feio passou para ameaça e os alguns viraram muitos. A torcida mandava que ele tirasse a camisa, até que os policiais o tiraram de onde ele estava para colocar um agasalho por cima, para esconder a camisa. Só então ele voltou ao seu lugar. Certamente achando estranho ser ameaçado por usar a camisa de um time que sequer é rival do Corinthians.

Estão matando o futebol. Os golpes dados nesse fim de semana deixam marcas tristes na história desse esporte que nos apaixonamos ainda crianças. Não podemos deixar que dirigentes omissos, árbitros autoritários e torcedores imbecis destruam o prazer de ir ao estádio, de poder amar esse esporte. Não podemos deixar que nada disso passe em branco. A começar por uma explicação para o que aconteceu no Recife. Nós, apaixonados pelo jogo, merecemos que o episódio seja esclarecido e os responsáveis devidamente punidos. Para que possamos lembrar esse dia nos Aflitos sempre como a última vez que algo assim aconteceu.