Por Marcelo Bloc*

Com a vaga garantida na Série B 2018, o torcedor do Fortaleza sente que finalmente tirou o peso do mundo das costas. Peso esse que tanto atrapalhou a caminhada dos últimos anos.

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Os sucessivos fracassos têm muita explicação na imensa pressão que era colocada no próprio clube, exigindo o acesso. Pressão essa que vinha das diversas diretorias que pelo Fortaleza passaram nos últimos anos, pela imprensa que corretamente sempre o apontava como um dos grandes favoritos a subir, assim como pela torcida, ansiosa para finalmente conseguir largar o tal ‘inferno da Série C’.

Não é preciso puxar muito da memória para relembrar o Fortaleza na Série A, já que há pouco mais de uma década fora o único representante do Nordeste na competição. A derrocada, porém, foi rápida. Levantar-se mostrou ser essencialmente difícil para o clube, que reencontrou velhos fantasmas.

Na década de 1990, o Fortaleza saiu da Primeira Divisão (em 1993) para a Terceira em dois anos. As temporadas seguintes foram de vacas muito magras e o clube não conseguiu o acesso em campo. O retorno à Segundona veio apenas em 2000, quando da criação da Copa João Havelange. A ‘dívida da Série C’ ficava.

Com a nova queda em 2009, os fantasmas voltaram. “Vai morrer na Série C” era o hino cantado pelos torcedores rivais. A torcida nunca se afastou e, ano após ano, renovava as esperanças, enchendo o Castelão, batendo recordes de público, fazendo festas de repercussão imensa, mas sempre terminando em fracassos.

Foram sucessivos “quase”. O prejuízo financeira era imenso, sem falar no prejuízo à imagem de um clube que vivera sua década de ouro anos antes.

O final feliz

Mas o futebol tem caprichos que o tornam um esporte único. Se em anos em que tinha um time apontado como melhor, salários em dia, a suposta vantagem de decidir em casa, o Leão patinou e acabou derrotado, esse ano as coisas foram bem diferentes.

O time, totalmente reformulado no início da temporada, não agradava e foi acumulando insucessos na Copa do Brasil, Campeonato Cearense e Copa do Nordeste. A pressão foi tanta que até a diretoria deixou o clube. Os novos gestores herdaram uma grave crise financeira, tentaram melhorar o grupo, mas a qualidade técnica do elenco seguiu muito questionada durante o ano. Houve ainda mudança de técnico já na reta final da primeira fase, com a chegada de Antônio Carlos Zago, algoz de 2016 comandando o Juventude.

A desvantagem comemorada

Nesses 8 anos houve fracassos de todo tipo. No PV, Castelão, jogando bem, jogando mal. O que não havia tido era a suposta desvantagem de decidir fora.

Com todos os problemas citados, e mais alguns, o Fortaleza somente garantiu sua vaga no mata-mata na rodada final. E desta vez em terceiro do grupo. A decisão seria fora de casa.

Na ida, no Castelão, o clima parecia outro. Em vez da tensão de outros anos, após ter tido dificuldade no jogo de ida e tendo que se impor em casa, o Fortaleza acabou empurrado por sua torcida, ciente que dali não sairia classificado ou eliminado. Era essencial levar boa vantagem para a volta e os 2 a 0 foram comemorados, apesar de o volume de jogo ter tornado possível sonhar com uma vitória até maior.

Invasão tricolor em MG

Durante a semana, dezenas, centenas, milhares de tricolores só pensavam em uma coisa: assistir ao vivo o jogo de volta, em Juiz de Fora. Seja de carro, ônibus ou avião, mais de dois mil leoninos foram mostrar que a ‘torcida tão leal’, com bem diz o hino do clube, nunca o abandona.

O acesso veio com um time que, no mata-mata, compensou as dificuldades técnicas com muita vontade, com a segurança do goleiro Marcelo Boeck, que viu a morte de perto menos de um ano antes na Chapecoense e agora virara ídolo de uma nação. E veio com muita tensão.

E festa.

Tudo que fora dito acima talvez explique um pouco a incrível recepção que a torcida tricolor fez no retorno da equipe ao Ceará, ajude a entender que essa conquista fora muito mais do que um simples acesso, mas a libertação do Fortaleza Esporte Clube de seu maior fantasma. O choro agora é de alegria, o centenário tricolor não será na Série C.

*Marcelo Bloc é jornalista de Fortaleza e acredita que a arquibancada forma caráter

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