Não havia outro assunto para a molecada naquela semana, no início dos anos 70. Uma seleção aguaiana havia sido convidada para jogar em Poços de Caldas. Uma honra como nunca antes. Jogar no campo da Caldense era um presente para quem brilhava ali no Leonardo Guaranha e também disputava partidas do campeonato amador contra timaços como Vargeana, Pratinha, Cocais, Guará e tantos outros.

Todos os selecionados se prepararam da melhor maneira possível. Teve gente que fez até treino físico, outros não saíram de casa, houve quem sugerisse uma concentração. Ideia rejeitada, melhor fica em casa do que em alguma chácara sendo tentado por baralho e cerveja.

Joãzinho Cavalo Jumento era o mais entusiasmado. Não tinha 18 anos, mas já era uma revelação. Ainda não era o jogador famoso em que se transformou. Ele sempre soube que não era um jogador técnico, como Rosinho, seu irmão, mas falava de boca cheia para quem quisesse ouvir que não havia maior vencedor no futebol aguaiano. E repetia todos os seus títulos. Joãozinho era raçudo e gostava do jogo duro. Atacante que passava por ele, era derrubado sem estilo e sem dó. Mas logo corria para dar a mão à vítima. Todo o estádio o via tentando levantar o adversário. Poucos viam o tapa de mão aberta e os xingamentos em quem estava caído.   

Não perderia esse jogo por nada. Mas havia outro motivo para que todos contassem as horas para a viagem até Poços. Cidade grande, estância, perto de Aguaí, Poços era uma metrópole. E tinha zona. Zona da boa, não as casas mal iluminadas de Aguaí. Ganhar o jogo e comemorar na zona era a meta de todos. 

Até de quem não jogaria e estava acompanhando o time. Bertinho, brizolista fanático, ouvinte da rádio cubana em potente transglobe e são-paulino de quatro costados também. Ele gostava tanto do time que, três anos depois, foi, com mais três amigos até Buenos Aires ver São Paulo e Independiente pela Libertadores. Ou melhor, tentou ir. Um dos quatro esqueceu o passaporte e não conseguiram atravesar a fronteira. Voltaram e, em um posto de estrada, ouviram a derrota por 2 a 0. Amor é isso.

Mas, voltando ao jogo, todo mundo prometeu a Fabiano que se comportaria. Não em campo, mas na zona. Não haveria problemas. E ninguém gostaria de dar trabalho a Dirceu, bom na zaga, bom no ataque, uma lenda na cidade. Fabiano passou por testes no Corinthians, ficou no mesmo quarto que Dirceu Alves, foi bem, mas não contiunou. Preferiu estudar direito em Campinas. Estava começando o curo e explicou a todos os problemas que poderiam acontecer.

O jogo terminou empatado. E foram todos para a casa da luz vermelha, a mais chique que conheciam. A primeira que alguns, como Joãozinho, conheciam. Todo mundo aceitou a última recomendação e… mãos à obra.

Algum tempo depis, a gerente do estabelecimento começou a perguntar em altos brados. “Quem é responsável por esse garoto, esse tal Joãozinho Cavalo”? Fabiano, lívido, chegou e disse que tudo se resolveria. Pediu para que a polícia não fosse chamada e só depois quis saber o que estava acontecendo. Se estava faltando dinheiro, ele completaria.

Nada disso, me acompanhe para o senhor ver. E Fabiano viu. O abajur lilás, o colchão de molas, a Nossa Senhora Aparecida no criado mundo, fotos da mãe e do pai da moça, uma boneca de pelúcia, quem já foi sabe como é, e, no alto, uma pequena televisão branco e preta, com péssima imagem.

E Joãozinho, olhos estatelados, largadão na cama. Pronto para explicar

“Fabiano, me desculpa, mas daqui eu não saio enquanto não terminar esse video teipe de Santos x XV de Piracibada.

Isso é amor. A viagem de Bertinho também. Nesse domingo, possivelmente não chegaram até o final de Santos x São Paulo. Dois times sem fibra que não merecem tanta consideração. Como esse Palmeiras, que não é de Felipão, mas sim do Tio Alamir, do Tio Percival e do Tio Etore, cuja única lembrança que tenho é mexendo no dial de um rádio de pilhas – enorme – para ouvir o Fiori Gigliotti narrar um jogo do seu Palestra.