Ainda é futebol. Mas já deixou de ser apenas futebol há algum tempo. A Islândia atravessou décadas comendo migalhas com a seleção. A Euro 2016 surgiu como um banquete. Do qual os nórdicos não se fizeram satisfeitos apenas por se sentarem à mesa. Conquistaram a primeira vitória e abocanharam a vaga nos mata-matas. Depois, engoliram a Inglaterra em uma partida para ser lembrada por muito tempo. Até encararem os anfitriões. Não deu para surpreender a França, mas a eliminação virou detalhe, apesar de tudo. E o craque islandês no Stade de France, mais uma vez, não foi nenhum jogador. Foi sua torcida. A vontade de quem não desistiu em nenhum momento, mesmo que a goleada se formasse no placar.

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Mais uma vez, os islandeses roubaram a cena nas arquibancadas. Pareciam até causar ciúmes dos franceses. O grito de guerra viking era respondido por vaias nos primeiros minutos. Nada que os inibisse. Muito menos os gols franceses. Depois que assumiu o comando da seleção, Lars Lagerbäck ligou para o líder da torcida nacional. Pediu que se aproximassem no campo, que dessem força para transformar o que parecia impossível em realidade. Ganhou o comprometimento de um país. Que se repetiu pela última vez nesta Eurocopa. Até o presidente Gudni Jóhannesson, que poderia muito bem estar na tribuna de honra, preferiu ser mais um torcedor neste domingo.

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Mesmo o segundo gol nórdico, quando a partida estava totalmente resolvida, contou com uma grande comemoração nas arquibancadas. Basta ver na onda que se gera na massa azul depois que a bola toca as redes. Festejaram muito Gudjohnsen, o velho guerreiro desde os momentos de penúrias. Já ao final, a falta de ânimo dos jogadores durante o agradecimento aos compatriotas foi correspondida com mais firmeza. Com orgulho. Os islandeses permaneceram nas arquibancadas, vários minutos depois da derrota. Não deixaram de cantar.

Enquanto isso, em Reykjavík, cerca de 20 mil pessoas se reuniram em um parque da capital para assistir à partida em um telão – aproximadamente 6% da população do país e 15% da cidade. Que não estivessem por perto do time, não deixaram de transmitir sua força. Uma demonstração de caráter. A seleção mobiliza uma nação inteira. Em resposta, a nação prova que pode ir além de sua pequenez. No esforço, na concentração, no coração. União que se correspondeu dentro de campo. Que ganhou admiração de outras nações e que fez história na Eurocopa.

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