O mundo está mergulhado em uma profunda crise sanitária com a pandemia do coronavírus, mas os dirigentes do futebol brasileiro articulam uma volta aos gramados já em maio. A CBF já trabalha com a data de 17 de maio para a retomada das atividades, ainda mais com o governo já falando em conversas para que a bola role nos gramados daqui novamente. Mesmo que nem mesmo tenhamos chegado ao pico da pandemia. Segundo uma universidade de Singapura, que fez projeções sobre o pico da pandemia a partir dos dados públicos, o Brasil só superará a crise em julho.

O momento é de incertezas e há prejuízos em todos os sentidos, comerciais, industriais e especialmente humano. O futebol está muito prejudicado, como tantos ramos da economia. Pensar em retomar é importante, sem dúvida, e é preciso ter vários planos para que isso se torne possível. Isso é parte do jogo. O que falta, porém, é ter uma ideia de como fazer isso respeitando a situação que estamos e os profissionais envolvidos. Ainda mais porque todos os envolvidos nas partidas estarão sob risco, caso os dirigentes se apressem a voltar.

A terça-feira teve os clubes pedindo a volta do futebol, algo que as federações reforçaram. A CBF, que recebeu os pedidos, aguarda um parecer das autoridades para seguir adiante quer criar um protocolo de prevenção para os clubes. A expectativa dos clubes é voltar a treinar no começo de maio para retomar os jogos no meio do mês. A maior parte das grandes cidades tem situação de emergência decretada até o começo do próximo mês.

Voltariam os estaduais, seguido do início do Brasileiro. Ninguém parece disposto a diminuir o número de datas. O temor é a perda de receita com as transmissões na TV, a principal receita dos clubes. A CBF, segundo o UOL, não queria voltar com os jogos tão rapidamente quanto querem seus clubes e federações. Isso porque a entidade seguia as recomendações feitas pela equipe do ex-Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e não haveria jogos antes de junho. Só que tudo mudou com a queda do ministro e a entrada de Nelson Teich.

A CBF sabe que é preciso algo coordenado com os governos estaduais, que estão liderando as restrições de circulação. Em vários estados, como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Ceará, os clubes já se articulam para recomeçarem os treinos, mas dependem de liberação do governo estadual. Os clubes de todos estados, de maneira geral, concordam que é preciso retomar ao menos os treinamentos, respeitando todo o protocolo de saúde pública. Esse é o principal tópico tratado neste momento.

Segundo informado pelo UOL, os clubes consideram a possibilidade do calendário 2020 invadir 2021. CBF e clubes estipulam uma data máxima para término do calendário deste ano na última semana de janeiro de 2021, de forma a não prejudicar também o próximo ano. Segundo Nadja Mauad e Raphael Zarko, do Globoesporte.com, a CBF se reuniu com as federações estaduais para informar que tem tratado com o governo federal e órgãos de saúde para retomada de atividades, dependendo da situação de cada estado.

Se os estaduais puderem ser retomados em maio, é possível que o calendário, ainda que muito apertado, possa ser cumprido até janeiro de 2021. Caso o futebol tenha que ficar parado mais tempo, até junho, por exemplo, ou mesmo agosto ou setembro, na pior das hipóteses, cumprir o calendário será uma missão impossível. E aí será preciso tomar decisões ainda mais difíceis e, possivelmente, todos os lados terão que ceder: CBF, federações, clubes e também as TVs que transmitem os campeonatos.

São 71.886 casos confirmados de COVID-19, com 5.017 mortes, segundo o Ministério da Saúde. Foi registrado recorde de mortes em um só dia, com 474 anunciadas nesta terça-feira. No mundo, há uma movimentação para se cancelar a temporada europeia (que começa em agosto nas principais ligas do mundo). Holanda e França já caminham nesse sentido. Há riscos também em outras ligas, embora haja muita resistência.

A Argentina, que é vizinha do Brasil, tomou caminhos muito diferentes tanto no governo federal quanto em relação ao futebol. Por lá, o distanciamento social foi adotado cedo. Desde o dia 20 de março, o país decidiu fazer quarentena preventiva e obrigatória. O país tem 44,5 milhões de habitantes, 3.892 casos confirmados e 192 mortes até esta terça-feira, segundo dados oficiais. Por lá, o futebol parou. Na segunda-feira, 27, a AFA anunciou o encerramento da atual temporada no país (que iria até junho).

Os franceses, aliás, viram o governo dizer que não haverá esportes até setembro, o que levou à decisão de encerrar a temporada atual. Outros lugares, como a Alemanha e a Coreia do Sul, se planejam para voltar. Só que estes dois países usaram estratégias muito diferentes do Brasil, com testes em massa e isolamento da população e dos infectados. O Brasil não tomou esse caminho e o governo federal se declarou contra o distanciamento social recomendado pela OMS. E aqui a curva ainda está ascendente.

Todos sentimos falta do futebol. Os clubes e entidades precisam mesmo pensar em voltar, ter um plano, como já citamos. Mas é preciso fazer isso seguindo as instruções dos órgãos de saúde. E tendo responsabilidade. Mais do que jogadores, há outros profissionais envolvidos em jogos de futebol. Seguranças no estádio, motoristas dos ônibus dos clubes, funcionários do estádio: todos eles serão expostos, em maior ou menor grau. É preciso, portanto, não só tomar todos os cuidados, mas só dar esse passo se as autoridades da saúde no Brasil, do governo federal aos governos estaduais e municipais, validem.

Há de se ter responsabilidade. Se um motorista do ônibus de um clube for infectado por um jogador assintomático e tiver complicações, como faz? É um risco que vale a pena correr? Parece que não. Por isso, só é importante só dar esse passo se for possível evitar mesmo esse tipo de coisa. Seguir todas as recomendações e só voltar quando houver segurança para todos os envolvidos.

Nos países que lutam contra os efeitos da pandemia do novo coronavírus, a volta do futebol passa uma sensação de normalidade que não faz sentido. Não temos como viver normalmente no momento, até termos soluções melhores para combater o espalhamento do vírus SARS-Cov-2 e, principalmente, o seu tratamento e cura dos doentes. O futebol não pode ser um setor privilegiado diante dos demais, ainda mais com todo o risco que pode representar. Não há sentido nenhum retomar uma pretensa normalidade que não existe.

O título deste texto é algo óbvio. Mas em tempos como os que vivemos, até o óbvio precisa ser dito com veemência.