A essa altura, você já deve estar sabendo da gafe do jornal argentino La Nacion, que noticiou que Romarinho, o mais novo pop star brasileiro, seria filho do baixinho Romário, AQUELE. O grotesco ato falho, exemplo clássico de falta de apuração, deve ter sido fruto da presunção de que Romário seria um nome exótico como Neymar (será que existem muitos Neymares com mais de 3 anos de idade Brasil afora? Cartas para a redação!). Ele só seria passado de pai para filho, sempre dentro de uma família que mantenha alguma relação com o futebol. Como se vários Romarinhos não tivessem nascido em 1994. Como se daqui a uns 15 anos, você não ficará sabendo de um Neymar Leonardo na base do São Paulo. Isso se Juvenal Juvêncio não der uma de Nero e atear fogo em Cotia antes, claro.

Caso o erro tivesse sido cometido alguns dias depois, o periódico teria uma desculpa, que ainda não seria aceitável, mas pelo menos seria divertida. Ou dá para negar que o falso bastardo apresentou uma tranquilidade fora do normal (a não-Romários) para empatar uma final da Libertadores disputada em um dos seus palcos mais temidos e tradicionais? Bastaram duas partidas para Romarinho entrar para a história do Corinthians e da competição. O risco de virar um novo Tupãzinho é maior do que a perspectiva de vê-lo construindo uma carreira brilhante, é verdade. Mas se o rapaz por acaso vingar, todo amante de futebol brasileiro vai poder contar aos seus netos sobre como a fama dele teve início.

Momento marcante à parte, o Corinthians saiu praticamente ileso de um jogo onde poderia muito bem ter se complicado. O começo foi promissor, com os brasileiros controlando o Boca sem maiores sobressaltos. No entanto, o domínio territorial ruiu com a contusão de Jorge Henrique, o que enfraqueceu a marcação no setor ofensivo, talvez o principal e menos escondido segredo do sucesso desta equipe. No meu último post sobre a Libertadores, defini o Corinthians de Tite como um organismo vivo, onde as peças se completam e se confundem. Talvez por isso, tenha mostrado dificuldades em se regenerar diante de uma perda que, em outros times, nem seria tão sentida. Com Liedson, esperava-se que, em compensação, os corintianos tivessem mais contundência na hora de contra-atacar, o que acabou não ocorrendo.

Os corintianos não defenderam com a solidez a que estamos acostumados, mas tiveram o mérito de impedir que os xeneizes vivessem uma grande noite. O chorado gol de Roncaglia veio apenas na base do abafa e já ficaria de bom tamanho. Claramente, o Boca sentiu a dificuldade de enfrentar uma equipe igualmente dedicada nos desarmes, o seu ponto mais forte. Mesmo muito participativo, Riquelme não encontrou espaços para fazer a diferença. Foi inclusive da pressão ao maestro argentino que surgiu o gol de empate corintiano. Tão excelente quanto a finalização do agora célebre Romarinho foi a roubada de bola de Paulinho, provavelmente o melhor jogador desta Libertadores. E também o passe de Emerson Sheik, vale ressaltar.

Instintivamente, é compreensível acreditar que o Corinthians esteja predestinado a vencer a Libertadores de 2012. Os motivos para acreditar nisso são abstratos, mas convincentes. A história do clube na Libertadores, somada a sua trajetória na atual edição, serve de roteiro para uma empolgante trama de redenção, cujo clímax parece ter sido a meteórica ascensão de um semidesconhecido (e não nos esqueçamos da subtrama reservada ao goleiro Cássio, até aqui de bastante sucesso). O resultado conquistado em Buenos Aires foi ótimo, mas o Corinthians traz na mala o perigo de se apegar prematuramente a um final feliz.

O Boca não é o ciúme citado em uma canção do Negritude Júnior, mas também é traiçoeiro e faz o amor maneiro se acabar (minha colaboração ingrata à rádio mental dos leitores). Costuma atuar à vontade diante das torcidas adversárias, especialmente quando os outros já começam a dá-lo por vencido. São muitos os exemplos nesse sentido. Acho que foi Fernando Sabino quem escreveu que “se as coisas não terminaram bem, é porque ainda não chegaram ao fim”. No caso específico da novela chamada “Corinthians na Libertadores”, é melhor ficar com o bom, velho e muito mais futebolístico chavão: “o jogo só acaba quando termina”.