A grande maravilha do futebol está no imprevisível. Naquilo que não se consegue imaginar nem com todas as certezas do universo. E este imponderável tomou conta do Maracanã durante o clássico entre Vasco e Fluminense. O jogo desta quinta não tinha o melhor dos níveis técnicos, mas não deveu nada em emoção. Foram 90 minutos em que não se podia cravar qualquer resultado. Os cruzmaltinos saíram em vantagem, os tricolores viraram e entrada do infernal Paulinho valeu novo empate aos vascaínos. Ainda assim, o resultado era insuficiente para o time de Zé Ricardo avançar à final do Campeonato Carioca. E quando o Flu se agarrava na classificação, eis que o acaso decide: Fabrício, execrado várias vezes, decreta a vitória por 3 a 2. Aos 50 do segundo tempo, no último minuto dos acréscimos, garante o Vasco na decisão.

A parte alvinegra do Maracanã entrou em erupção com o gol de Fabrício. Ninguém se lembrou dos erros do lateral, das entregadas, da falta de precisão. Colada na retina estava a imagem do chute quase sem ângulo, forte, que entrou rente à trave depois que o goleiro Júlio César abriu o caminho. E tão notável quanto o tento foi a entrevista do herói, na saída de campo, aos microfones do SporTV. Ao invés de se vangloriar, o defensor exibiu uma humildade difícil de se ouvir. Uma postura que não nega muitas das críticas que escutou de diferentes torcidas, mas que também valoriza o seu empenho para desfrutar ao menos o lampejo.

“Velho, vou te falar… Trabalho a semana inteira, mas às vezes não sai do jeito que a gente quer. Amassei a bola hoje. Errei dois lances ali, torcida pegou no pé… Posso estar jogando mal o jogo inteiro. Só que enquanto tiver um segundo de esperança, enquanto o juiz não acabar o jogo, tem que incentivar o cara. Vaia depois que acaba. Amassei a bola, não joguei nada, mas joguei por meus companheiros. Errei dois lances ali e começaram a chiar. Eu escutei, eu sei que estou mal no jogo, só que vontade, garra e determinação não podem faltar dentro de mim. Então a equipe está de parabéns, é uma equipe sofredora, batalhadora”, afirmou o lateral.

Na saída do estádio, ainda complementou ao SporTV: “Até comecei bem no primeiro tempo, mas errei dois lances no segundo, tomei o cartão… A torcida reclamou, e com razão. Mas quando ainda tem um minutinho de chance, precisa incentivar. Não é a primeira vez que acontece isso comigo e nem vai ser a última, até meu pai me cobra. Mas tinha algo dentro de mim. Falei para os meus companheiros não deixarem de tocar a bola só porque a torcida estava vaiando. Até gritei naquele lance, acho que o Riascos não ouviu. Quando a bola veio, não pensei duas vezes em bater forte. Só meti um porradão pro gol e acertei um belo chute”

Não bastaram as boas atuações do Fluminense em partidas anteriores. Preponderou a dedicação e a perseverança do Vasco. Ajudou Paulinho, mesmo sem estar 100% fisicamente, que saiu do banco para anotar um belo gol. E, principalmente, brilhou Fabrício, o homem da autocrítica e do estalo – embora, como reclamaram os tricolores, realmente houve um erro da arbitragem invertendo lateral na origem do lance.

A partir de domingo, o Vasco enfrenta na finalíssima o Botafogo, com quem realizou clássicos igualmente eletrizantes recentemente. Depois desta noite, ambos sabem que não existem certezas. Não se ignora as improbabilidades. Muito menos aquele que amassa a bola.

Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br


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