O Cagliari possui uma relação histórica com o Uruguai. Os trâmites empresariais com Paco Casal, o controverso agente de superpoderes no futebol charrua, abriram o caminho para que o clube da Sardenha investisse nos jogadores nascidos no país. De qualquer maneira, em tempos nos quais o Milan montava o seu trio holandês e a Internazionale confiava no trio alemão, os rossoblù se notabilizaram pelo trio celeste em seu elenco. E os uruguaios permanecem ainda hoje como a nacionalidade estrangeira que mais forneceu jogadores ao Cagliari na Serie A, ganhando um importante acréscimo nesta sexta-feira. Nahitan Nández estava apalavrado com a agremiação e teve seu anúncio oficial como reforço ao meio-campo.

O primeiro uruguaio a defender o Cagliari foi Waldemar Victorino. Herói do Nacional na conquista da Copa Libertadores de 1980, o atacante chegou à Sardenha em 1982 e não durou muito no elenco, somando 17 partidas e dois gols. Saiu já em 1983. Foi um caso isolado dentro da relação que se fortaleceu após a Copa de 1990, com a abertura a Paco Casal, após o acesso conquistado pelos rossoblù na Serie B. O trio uruguaio inicial se formou com três jogadores talentosos. E enquanto José Herrera e Daniel Fonseca tentavam se firmar na Europa, a grande estrela era mesmo Enzo Francescoli, reconhecido no continente após suas passagens valorosas por Racing de Paris e Olympique de Marseille.

A maestria de Francescoli prevaleceu na Sardenha e o craque também escreveu uma história expressiva no Cagliari. Herrera se tornou um esteio na lateral, enquanto Fonseca acumulou os seus gols e foi vendido ao Napoli dois anos depois. Assim, o vínculo se renovou e se ampliou após o aumento nos limites para jogadores estrangeiros. O jovem Marcelo Tejera aportou em 1992, para a vaga de Fonseca. E o time correspondeu naquela temporada, a última de Francescoli. Os rossoblù terminaram na sexta colocação da Serie A, repetindo a melhor campanha desde o Scudetto de 1970, e se classificaram à Copa da Uefa.

Naquele momento, porém, as relações entre Cagliari e Casal estremeceram. Em 1992, um novo dono chegou ao clube: Massimo Cellino, que permaneceu por lá ao longo de 17 temporadas, antes de acumular polêmicas à frente do Palermo. O dirigente entrou em litígio com o empresário após Marcelo Saralegui, que deveria vir no lugar de Tejera, terminar vestindo a camisa do Torino. Neste momento, a lista de contatos de Casal na Itália era bem maior e outros de seus jogadores ganhavam mercado na Serie A. O próprio Francescoli seguiu ao Torino em 1993. Isso, porém, não fechou as portas dos rossoblù aos jogadores do Uruguai, inclusive outros agenciados por Casal.

Um dos maiores ídolos do Cagliari nos anos 1990, aliás, era “uruguaio por vias tortas”. O panamenho Júlio César Dely Valdés aproveitou-se da ponte para deixar o Nacional rumo à Serie A em 1993, transformando-se na referência do ataque durante a caminhada até as semifinais da Copa da Uefa. E os rossoblù continuaram os anos 1990 recebendo outros atletas celestes importantes. Darío Silva foi o substituto de Dely Valdés no ataque e anotou 24 gols na Sardenha, maior marca de um atleta nascido no país. Ficou três temporadas na equipe. Os meio-campistas Fabián O’Neill e Nelson Abeijón superaram as 100 partidas, com o primeiro se transferindo à Juventus após cinco anos com os rossoblù, em 2000.

Já o uruguaio mais longevo foi Diego López, atual técnico do Peñarol. O defensor vestiu as cores do Cagliari por 12 anos, após ser contratado junto ao Racing de Santander em 1998. Neste período, foi capitão e somou 314 partidas pela Serie A. É o estrangeiro que mais atuou pela equipe na competição e o quinto na lista geral, com somente um jogo a menos que Gigi Riva, maior lenda da história dos rossoblù. Após se aposentar, López virou técnico da base e chegou a assumir a equipe principal dos sardenhos em duas oportunidades.

López, aliás, não havia sido o primeiro uruguaio a treinar o Cagliari. O pioneiro foi Héctor Puricelli, oriundi nascido em Montevidéu e que atuou profissionalmente no Calcio a partir dos anos 1940, comandando os sardenhos entre 1967 e 1968. Já na década de 1990, ninguém menos que Óscar Tabárez assumiu as rédeas do Cagliari na Serie A. O Maestro levou o time ao nono lugar em 1994/95, antes de assumir o Milan. Retornaria também em 1999, quando ficou por apenas quatro partidas, antes de ser queimado por Cellino. Assistente de Tabárez na Copa de 1990 e multicampeão com o Peñarol, Gregorio Pérez ainda dirigiu a equipe por seis rodadas em 1996.

Apesar da presença perene de Diego López, os uruguaios se tornaram menos recorrentes no Cagliari a partir da virada do século. Passaram-se seis anos até que Horacio Peralta fosse contratado em 2004. Desde então, a lista é bem mais recheada de nomes inexpressivos. Dentre os mais notáveis, Fabián Carini permaneceu na equipe por uma temporada, enquanto Matías Vecino ficou emprestado por seis meses em 2014. Ninguém que represente o investimento e a confiança ao redor de Nández. É o grande elo com a tradição uruguaia em muito tempo.

O meio-campista surgiu bem no Peñarol e, ao longo das últimas duas temporadas, se tornou um dos jogadores mais importantes do Boca Juniors. Aos 23 anos, é um atleta de intensidade impressionante e que oferece equilíbrio, sobretudo por sua participação no ataque e na defesa. As boas campanhas com os xeneizes ajudaram Nández a se firmar na seleção uruguaia, titular na Copa do Mundo e na Copa América. Por sua capacidade, até parecia poder almejar um time maior que o Cagliari. Por isso mesmo, os €18 milhões pagos pelos rossoblù soam como uma pechincha.

O Cagliari, aliás, faz um mercado interessante. Federico Mattiello e Marko Rog chegaram por empréstimo. O volante Christian Oliva é outro uruguaio, comprado por €5 milhões junto ao Nacional de Montevidéu, enquanto o atacante italiano Alberto Cerri chega em definitivo após período de empréstimo. O grande nome, de qualquer maneira, é o de Radja Nainggolan. A luta de sua esposa contra um câncer alinhou o empréstimo do belga. Se Nicolò Barella saiu à Inter, a união do “Ninja” com Nández é bastante promissora. Dará outra cara à faixa central, mas o que não faltará é energia por ali.

A Nández, o Cagliari parece ser uma porta de entrada. Um bom desempenho na Sardenha pode ajudá-lo a buscar desafios maiores na Europa. Tem talento o suficiente para almejar esse salto em breve. Mas, por enquanto, sua realidade é a Sardenha. Tentará fazer jus a um passado riquíssimo dos charruas, que também diz muito à história dos rossoblù. Ser herdeiro do Príncipe Francescoli não é para qualquer um.