Julian Nagelsmann ainda não havia completado 31 anos quando recebeu a proposta que muitos de seus colegas, ele incluso, consideram o auge da profissão: treinar o Real Madrid. Estava no Hoffenheim, pesou os prós e contras e rechaçou a abordagem. Considerou que ainda não estava pronto, o que apenas reforça a maturidade do treinador mais jovem da história da Bundesliga.

Ele contou a história ao jornal Independent, no aquecimento para o duelo do seu RB Leipzig contra o Tottenham pelas oitavas de final da Champions League. No outro lado do telefone, estava o diretor merengue José Ángel Sánchez, o responsável por informar a Nagelsmann que ele era o principal candidato a substituir Zinedine Zidane.

“Eu fiquei surpreso, ponderei e não me senti confortável com a decisão de ir para lá. Eu quero melhorar. Se você vai ao Real Madrid, não há tempo para melhorar como treinador. Você não tem a chance de se tornar um treinador melhor, você já tem que ser o melhor. Não sou o melhor agora, mas admito que quero ser um dos melhores no futuro. Se você for ao Real Madrid ou ao Barcelona, os torcedores, a imprensa, os tomadores de decisão não lhe dão tempo de crescer”, explicou.

“A única coisa que veem são vitórias todos os jogos, títulos, troféus da Champions League. Se você não vencer, não pode dizer ‘ainda sou jovem, estou me desenvolvendo’.  Não é tão fácil no futebol planejar uma carreira porque tudo é tão imprevisível, mas você tem que tentar. O principal é tomar os passos certos e não os maiores passos. O Real Madrid é provavelmente um dos maiores passos que você pode tomar, então pensei: ‘eu completo 31 anos, vou ao Real Madrid, e depois faço o quê?’.”

“Outra coisa foi a língua. É muito importante para mim. Eu gosto de me comunicar, sou muito expressivo com os jogadores. Não consigo falar espanhol ainda, consigo apenas dizer ‘hola, que tal’. Então era o maior passo, mas não o passo certo”, completou.

O passo certo para Nagelsmann foi o RB Leipzig. O clube da Red Bull queria tanto contar com os seus serviços que se moveu mais rápido do que o comum e fechou o acordo com um ano de antecedência. O jovem treinador afirmou que enquanto outros pretendentes diziam que ‘talvez o quisessem contratar’, o Leipzig foi mais agressivo.

“Eles realmente lutaram por mim. É importante para um treinador sentir que o clube acredita em você e nos seus métodos. Oliver Mintzlaff (CEO da Red Bull) e Ralf Rangnick (chefe de desenvolvimento da empresa) me mostraram isso. Eles me ligaram um ano antes de e quando me queriam e me disseram por que e como funcionaria. No dia seguinte, havia um contrato no meu e-mail, apenas 20 horas depois de conversarmos e isso não é normal. Muitos clubes me ligavam dizendo talvez, mas não houve talvez com o Leipzig. Sou um treinador jovem e me atraiu trabalhar em um clube em que a estrutura é clara, no qual não há 20 caras com opiniões que te levam a direções diferentes”, disse.

“Aqui, eu consigo tomar a decisão e as coisas acontecem rapidamente porque a visão é a mesma ao redor do clube. Também é interessante para mim trabalhar com um time jovem. Eles querem se desenvolver, aumentar suas capacidades e melhorar todos os dias. Eu quero me desenvolver, aumentar minha capacidade e melhorar todos os dias, então estamos todos no mesmo caminho”.

“O engraçado sobre isso é que eu assinei contrato e, dez minutos depois, todos os clubes estavam interessados. É que nem quando você vai para uma discoteca, está solteiro e nunca encontra uma garota. Mas se você for com sua namorada, várias querem ficar com você”, completou.

Baby Mourinho versus o verdadeiro Mourinho

A filosofia de Nagelsmann difere bastante da de José Mourinho, mas, quando era ainda mais jovem, sem idade para ter filosofias, e trabalhava no sub-17 do Hoffenheim, recebeu do ex-goleiro Tim Wiese o apelido de Baby Mourinho, provavelmente porque, como o português, não havia tido uma carreira relevante como jogador, começara a carreira como olheiro e era muito estudioso.

E quis o destino (no caso, as bolinhas e a demissão de Mauricio Pochettino) que o primeiro jogo de mata-mata de Champions League da carreira de Nagelsmann, com exceção das preliminares, fosse exatamente contra o treinador que lhe rendeu o apelido.

“Não temos a mesma filosofia, mas acho que não é a pior coisa do mundo ter um apelido associado a José Mourinho. Ele ganhou 25 títulos e é um dos maiores nomes do futebol. Estou feliz que temos o desafio de jogar contra um time treinado por ele”, afirmou.

“José tem experiência em todos os tipos de situação. Ele treinou tantas partiadas de mata-mata que sabe o que fazer o seu time ficar à frente, se estiver atrás, se sofrer um gol cedo, se precisar de um gol no fim. Eu tive jogos eliminatórios apenas na Copa da Alemanha, não no futebol europeu, com exceção daquela preliminar contra o Liverpool”.

“É totalmente novo para mim e totalmente diferente a treinar em jogos de Bundesliga. Como técnico, especialmente um jovem, você quer esse tipo de teste. Eu nunca o encontrei antes, então será bom fazê-lo pela primeira vez. Eu amo suas entrevistas coletivas. Lembro da primeira quando chegou ao Tottenham e o jornalista perguntou: ‘O desempenho do time não tem sido bom porque ele perdeu a final da Champions League?’. E ele respondeu: ‘Eu não sei, eu nunca perdi uma final de Champions League’. Ele é sempre legal de ver”, completou.

A primeira experiência de Nagelsmann na Europa foi esse playoff contra o Liverpool, em 2017/18, quando perdeu as duas partidas, por 2 a 1 e 4 a 2. Foi à Liga Europa e ficou na lanterna do seu grupo. Na temporada seguinte, classificou-se direto à fase de grupos, mas ficou novamente na última posição, atrás de Shakhtar Donetsk, Lyon e Manchester City. Precisou ir pouco a pouco aprendendo com a experiência e ajustando suas abordagens.

“Durante a primeira temporada de futebol europeu pelo Hoffenheim, depois que perdemos a Champions League para o Liverpool, eu mudei muitos jogadores entre partidas da Bundesliga e da Liga Europa. Eu aprendi que precisamos de mais estabilidade. Você tem que manter cinco ou seis para ter estrutura, para ser sua espinha dorsal. Isso é muito importante”.

“A outra diferença é mudança tática e mental entre as duas competições. Nós tínhamos muitos jogadores ofensivos para jogos europeus e os adversários puniam nossa falta de proteção. Na Bundesliga, você pode ter talvez seis ou sete jogadores que são mais ofensivos, mas nunca na Europa”, explicou.

Enquanto tenta avançar na Champions League, Nagelsmann também comanda uma candidatura ao título do RB Leipzig, em segundo lugar, a um ponto do Bayern de Munique – o Dortmund, em terceiro, joga nesta sexta-feira. Embora evidentemente queira ser campeão, o treinador está bem ciente que o processo de desenvolver a jovem equipe do Leipzig é mais importante do que ganhar a qualquer custo.

“É normal pensar em ser campeão da Alemanha, mas, se você tiver um bom entendimento, sabe que o desempenho de um jovem time nunca avança em linha reta. Há altos e baixos, à medida em que se desenvolvem. Eles não são perfeitos todos os jogos. Ainda temos chances de alcançar nossos objetivos. Para nós, sucesso não é apenas virar campeões da Alemanha. Nosso processo é importante, não apenas o resultado. É totalmente ok se nos classificarmos para a Champions League novamente. Vamos dar nosso melhor e ver o que acontece”, disse.

Inspiração na Premier League

Muitos dos candidatos preteridos pelo RB Leipzig eram da Inglaterra, cuja liga serve muito de inspiração para Nagelsmann, especialmente os dois times mais fortes.

“Eu vejo muito o Liverpool e o Manchester City. Na temporada passada, o City tinha uma grande flexibilidade, tantas maneiras de abrir o jogo e posições interessantes com a posse de bola. É sempre fascinante ver os times de Pep Guardiola. O Liverpool se desenvolveu tão bem, especialmente com a posse de bola e tendo variações. Nas primeiras duas temporadas com Jürgen Klopp, era mais sobre contra-ataque e criar momentos de ataque. É o mesmo processo pelo qual estamos passando no Leipzig, expandindo para não dependermos apenas de pressão e contra-ataques”, disse.

Se você quiser ser um bom treinador, tem que ver os jogos do Liverpool. O que eles estão fazendo é incrível. São desempenhos com os quais você consegue aprender, mas mais importante ainda, é o que você tira da mentalidade. É totalmente maluco, quando você é tão bem sucedido, quando tem 22 pontos à frente do segundo colocado na liga, e faz mais e mais para vencer jogos. É uma grande mensagem para passar aos jogadores, especialmente aos jovens. Eles têm que aprender com o Liverpool a sempre ter fome, ser melhor. Não importa se são quase os campeões. Você ainda tem que vencer, vencer e vencer”, completou.

E quando Nagelsmann vai para a Premier League? “Minha ideia é ficar no Leipzig por quatro anos, mas, no futebol, nunca se sabe o que pode acontecer. A Premier League me interessa, assim como outros clubes da Bundesliga e La Liga, mas eu preciso melhorar meu espanhol primeiro. Eu sei que é muito difícil na Inglaterra. Eu tenho lido entrevistas com Klopp e Guardiola sobre o intenso calendário e as exigências para jogadores e comissões técnicas”.

“Tenho muitos interesses fora do futebol, como motocross, esqui e aproveitar experiências com a minha família. Na Premier League, não ha tempo para mais nada. Futebol, futebol, futebol. Mas há alguns clubes que eu olho de perto e a Premier League é um objetivo para qualquer treinador”, encerrou.