Em seus investimentos esportivos, a Red Bull tem um perfil bastante específico. Gosta de contratar protagonistas jovens, que passem uma imagem de ousadia e talento precoce – algo funcional também ao público alvo de seus produtos. Não é coincidência a presença massiva nos esportes radicais ou os prodígios que surgiram em seus bólidos no automobilismo, como Sebastian Vettel. No futebol, o RB Leipzig segue a mesma direção. É um clube que possui como princípio investir em jogadores de pouca idade, que possam se afirmar no clube e levá-lo a outro patamar. Deu certo na meteórica ascensão nas divisões inferiores do Campeonato Alemão e também se reproduz nas boas campanhas na elite. Assim, nada mais natural que os Touros Vermelhos buscassem um técnico que se encaixasse neste perfil. A partir de 2019/20, contarão com Julian Nagelsmann no banco de reservas, em contrato assinado por quatro temporadas.

Nagelsmann se tornou sonho de consumo de boa parte dos clubes alemães – e da Europa. Seu nome foi especulado no Borussia Dortmund, no Bayern de Munique, no Arsenal e em outras equipes com menos força. No entanto, o Hoffenheim não parecia muito disposto a liberar o seu funcionário diante das necessidades imediatas dos clubes e o treinador também indicava sua vontade de disputar a Liga dos Campeões com os alviazuis. Assim, o RB Leipzig se deu bem ao dar um passo à frente.

Os Touros Vermelhos ainda não definiram seu técnico para 2018/19. Ralph Hasenhüttl não chegou a um acordo pela renovação de seu contrato e decidiu romper com a diretoria um ano antes do previsto. De qualquer forma, o clube de Leipzig preferiu garantir a presença de Nagelsmann para daqui um ano. Pagarão cinco milhões ao Hoffenheim, valor determinado na cláusula de rescisão do treinador. Por sua vez, o presidente do Hoffe, Dietmar Hopp, desejava manter o jovem comandante. O processo feito às claras e antecipadamente, porém, não cria qualquer rusga com Nagelsmann – pelo contrário, reforça o profissionalismo do prodígio. Agora os alviazuis terão um ano para buscar o seu substituto, em anúncio que prometem para a pausa de inverno. David Wagner, do Huddersfield, é o nome mais cotado para assumir o posto.

“É importante para mim deixar claro as condições o quanto antes. Agora todos sabem que vou para Leipzig em 2019 e nós podemos focar profissionalmente nos próximos desafios com o Hoffenheim, que são pesados. Todos sabem que eu farei de tudo que puder para alcançar nossos objetivos ambiciosos, até a última hora de meu compromisso com o Hoffenheim”, declarou Nagelsmann. Apesar dos encontros com o Hoffenheim na Bundesliga, isso não parece ser motivo para polêmicas.

Nagelsmann chegou ao Hoffenheim em 2008, treinando inicialmente o sub-17, antes de passar pelo sub-19, com o qual foi campeão alemão da categoria. Concomitantemente, também atuou como assistente do time principal a partir de 2013. Já em 2016, assumiu o time, em aposta um tanto quanto ousada do presidente Dietmar Hopp, que o tornava o técnico mais jovem a dirigir uma equipe da Bundesliga.

Em três temporadas, o trabalho de Nagelsmann no Hoffenheim já é histórico. Seus primeiros seis meses serviram para salvar a equipe do rebaixamento com uma arrancada sensacional. Depois, em 2016/17, pôde desenvolver seus planos ao longo da temporada. Classificou o Hoffe para as preliminares da Liga dos Campeões, apesar da queda precoce ante o Liverpool. Já em 2017/18, o começo na Bundesliga não foi bom, até pela perda de jogadores importantes. Contudo, a equipe recuperou os rumos e fez um segundo turno excelente, com sete vitórias nas últimas dez rodadas. Acabou indo além do que se viu no ano anterior, com a terceira colocação e a vaga direta na fase de grupos da Champions. Será o ápice e Nagelsmann deseja vivê-lo.

Às vésperas de completar 31 anos, além do mais, Nagelsmann apresenta desde cedo características louváveis a um treinador. É um cara muito ligado à inovação e às novas tecnologias, desenvolvendo o Hoffenheim também neste aspecto. Possui diferentes planos de jogo e adapta o time às necessidades da partida. Mesmo sendo mais jovem que os jogadores, não teve problemas por transmitir suas ideias e proporcionar a evolução de algumas promessas. Além disso, soube lidar muito bem com os percalços neste caminho e elevar o Hoffenheim a um patamar que nem quando o investimento era maior, o clube tinha alcançado. As partidas ofensivas e sem medo de buscar o resultado são o melhor exemplo destes predicados.

No RB Leipzig, Nagelsmann terá o ambiente favorável não apenas para lapidar os mais jovens, como também para praticar a ideia de futebol ofensivo e adaptável. Em um clube que possui uma estrutura de bastidores muito forte, conseguirá se concentrar em seu trabalho à beira do campo. E se reencontrará com Ralf Rangnick, atual diretor esportivo dos Touros Vermelhos, com quem atuou no Hoffenheim. O veterano, aliás, é o favorito para assumir o Leipzig interinamente nesta temporada e, por isso mesmo, pode ser um incentivo à continuidade de jogadores especulados por outros times. Timo Werner e Emil Forsberg trabalharam com ele anteriormente, levando-o bastante em consideração na evolução de suas carreiras.

A Nagelsmann, parece um ótimo lugar para crescer como técnico e também fazer o clube crescer, antes de tentar passos maiores da carreira e, aí sim, treinar potências europeias. Será um casamento no mínimo interessante de se acompanhar. Mas, antes disso, ainda há uma história para se terminar de escrever com o Hoffenheim, e a Liga dos Campeões representará uma missão cumprida.


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