Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Os cerca de 120 mil torcedores presentes ao Maracanã naquela noite de sábado, 19 de janeiro de 1957, há exatos 60 anos, assistiram a algo semelhante a uma passagem simbólica de bastão. De um lado, a lendária equipe húngara do Honvéd, com Ferenc Puskás à frente, recém-chegada ao Rio de Janeiro, onde procurava esquecer as dores do conflito encerrado pouco antes em seu país mostrando ao público o que fazia de melhor: encantar com seu jogo muito simples e inteligente, mas de refinamento técnico, toques envolventes e arremates fortes e precisos ao gol.

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Do outro havia o Flamengo, do craque Evaristo de Macedo e treinado pelo paraguaio Fleitas Solich, que buscava uma concepção de futebol mais atualizada dentro do panorama tático nacional. O clube ainda promoveu a excursão, que quase deflagrara um conflito diplomático internacional, mas que, ao final de seus quase 30 dias, provocaria profundas reflexões a respeito dos métodos e do estilo de jogo em um país às vésperas de dar seu grande salto de patamar como nação futebolística. Depois daquela visita dos magiares, nada mais seria como antes.

O campeão andarilho

Cinco vezes campeão húngaro entre 1949 e 1955, o Honvéd só disputaria sua primeira competição oficial contra os melhores times da Europa em 1956. Obviamente, a principal base da seleção húngara já tinha medido forças com clubes de diversos cantos do continente antes disso. Em novembro de 1954, seu amistoso contra o Wolverhampton foi decisivo para que a ideia de um torneio continental realmente saísse do papel. Entretanto, o time das forças armadas recusou o convite para a primeira edição da Copa dos Campeões, em 1955-56. Apenas na segunda é que a potência húngara entrou no certame, a partir das oitavas de final.

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A estreia do Honvéd na competição, todavia, acabou cercada pelo caos, fruto da delicada situação política vivida na Hungria. Em abril de 1955, o primeiro-ministro Imre Nagy foi destituído do poder, após traçar uma série de reformas democráticas e independentes da União Soviética – seria restituído ao cargo em outubro do ano seguinte, antes de ser deposto novamente. No entanto, mesmo diante da reaproximação entre o poder político húngaro e o soviético, a semente plantada pelo estadista florescia em meio à população, com os anseios por reabertura e neutralidade.

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Em outubro de 1956, os estudantes húngaros saíram às ruas pedindo reformas, como já havia acontecido na Polônia, com sucesso. No dia 23, o barril de pólvora estourou. Cerca de 20 mil protestantes se reuniram para o lançamento de um manifesto. Os revoltosos tentaram invadir a Rádio Budapeste, em ação que acabou reprimida violentamente pela ÁVH – a polícia estatal húngara. Outros setores da população tomaram as ruas para apoiar a revolução. Já no dia seguinte, tanques soviéticos entraram em Budapeste. A luta em frente ao parlamento provocou a fuga do primeiro-ministro András Hegedüs para a URSS, enquanto Imre Nagy teve seu cargo restituído. Os confrontos se mantiveram intensos até 28 de novembro, quando um cessar-fogo foi assinado, com a retirada das tropas soviéticas.

O Honvéd permaneceu no meio deste fogo cruzado. Durante os dias mais violentos, surgiu mesmo a notícia de que Ferenc Puskás havia morrido, o que não passava de um rumor. Com a situação momentaneamente controlada, a equipe pôde sair a salvo do país. Em 1º de novembro, o primeiro-ministro Imre Nagy, o vice-ministro dos esportes Gustav Sebes e a federação magiar concederam permissão oficial para que a equipe excursionasse pelo exterior até o dia 31 de março do ano seguinte. Sob segurança do Ministério da Defesa, o elenco viajou a Viena, onde se prepararia para o duelo contra o Athletic Bilbao pela Copa dos Campeões.

Quatro dias depois, em 4 de novembro, o cessar-fogo foi rompido e o exército soviético invadiu a Hungria para impor sua força. Cerca de três mil pessoas morreram e 20 mil ficaram feridas, diante da violenta repressão dos invasores. Em 10 de novembro, a Revolução Húngara teve seu ponto final. Como resultado, ainda, 22 mil pessoas foram presas, 229 executadas e os refugiados superaram os 200 mil. E, apesar de toda a dor vivida em seu país, o Honvéd entrou em campo pela Copa dos Campeões em 22 de novembro para enfrentar o Athletic, campeão espanhol, em San Mamés. Desconcentrados e abatidos, os magiares perderam por 3 a 2. Naquele mesmo dia, Imre Nagy foi preso pelo novo governo húngaro.

Diante da permissão especial, mesmo com as transformações no poder, o Honvéd continuou excursionando pela Europa. A equipe manteve a forma com uma série de amistosos na Espanha, na Itália e em Portugal. Venceu Milan e Barcelona, além de empatar por 5 a 5 em um épico contra um combinado de Madri formado por jogadores de Real e Atlético. Já a partida de volta contra o Athletic aconteceu em 20 de dezembro, no estádio neutro de Heysel, em Bruxelas. Os magiares, porém, não foram além do empate por 3 a 3. Puskás fechou o placar, naquele que seria seu último gol oficial pelo clube. Eliminada da Copa dos Campeões, a potência húngara tinha futuro incerto.

A negociação da vinda

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A ideia do Flamengo de trazer o Honvéd ao Brasil começou a ser desenhada no fim de 1956, quando do planejamento da pré-temporada seguinte. O clube havia convidado o AIK da Suécia para um amistoso no Maracanã abrindo a temporada internacional do estádio. Para aumentar o potencial de renda, pensou em organizar um torneio com outros clubes do exterior, até que surgiu, por meio dos mesmos agentes que trariam os suecos, a possibilidade de receber o famoso time do Honvéd para partidas no Rio de Janeiro.

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O primeiro contato foi feito em Bruxelas entre o agente Osvaldo Corckus e Emil Osterreicher, secretário-geral do clube húngaro. Emil trocou vários telegramas com o presidente do Flamengo, José Alves de Morais e, com tudo acertado, o contrato para a excursão brasileira do Honvéd foi assinado em Amsterdã no dia 29 de dezembro. O clube carioca havia declinado a uma oferta de excursionar pela América do Sul para trazer os magiares ao Brasil e não poupou esforços financeiros na divulgação da temporada e no pagamento de passagens Rio-Milão-Rio.

Até ali, havia apenas um impasse: a data do primeiro jogo. O Flamengo queria fazer a primeira partida no Maracanã no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da capital carioca – e na época, ainda a do país, sede do Distrito Federal. A Confederação Brasileira de Futebol (CBD), no entanto, já havia marcado para a mesma data e local a partida entre as seleções carioca e paraense, pelo Campeonato Brasileiro, e não abria mão da data. O calendário estipulou inicialmente que o Honvéd enfrentaria a seleção carioca no dia 16, e em seguida o Flamengo no dia 23 e o Vasco no dia 27.

Enquanto isso, na Hungria

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O novo governo da Hungria só veio a interferir na vida do Honvéd dez dias depois da desclassificação na Copa dos Campeões. Afinal, não foi só o poder central que passou por mudanças naquelas semanas, com a posse de János Kádar como primeiro-ministro. A chefia da Federação também foi inteiramente destituída, passada ao comando de novos dirigentes interinos. Foram eles que, em 30 de dezembro de 1956, decidiram em reunião extraordinária proibir todos os jogos do Honvéd em outros países.

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Os jogadores, que se encontravam em Casablanca (Marrocos), vindos de Paris, fecharam questão em não acatar a ordem do novo comando da Federação e prosseguir com sua excursão – ainda que alguns integrantes manifestassem a intenção de retornar ao país ao fim da viagem. Emil Osterreicher, por sua vez, afirmou que a Federação não tinha o direito de cancelar os jogos, já que os contratos haviam sido assinados e ratificados. E confirmou que a próxima parada seria na Itália, onde os jogadores descansariam, encontrariam suas famílias e jogariam mais algumas partidas, antes de cruzar o Atlântico rumo à América do Sul.

A Federação Húngara logo enviou telegrama à Fifa, lembrando sua nova orientação de proibir o Honvéd de disputar partidas no exterior. O motivo alegado foi o “cansaço” dos jogadores após os jogos que já haviam feito. Mas tratava-se de uma tentativa de impedir que se concretizasse a intenção de parte da delegação de não retornar mais ao país. A entidade maior do futebol não declarava posição. Apenas transmitia a suas filiadas a decisão da Federação Húngara. O Artigo 9º do Regulamento da Fifa previa a suspensão de três meses a um ano para o clube que disputasse partidas internacionais sem permissão das federações nacionais.

A reação no Brasil

No Brasil, a CBD, presidida por Sílvio Pacheco, embora considerasse louváveis a intenção e o esforço do Flamengo, tinha dois temores: que uma eventual punição da Fifa aos clubes envolvidos respingasse em outros e até na Seleção Brasileira, podendo resultar na expulsão do Brasil das Eliminatórias para a Copa do Mundo da Suécia, e que a vinda dos húngaros ofuscasse o Campeonato Brasileiro de Seleções, que começaria a ser realizado naquele mês. Mesmo assim, enviou à Fifa um pedido do Flamengo para que a Federação Húngara reconsiderasse a decisão, o que foi negado pela entidade magiar.

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Vasco e Santos, que inicialmente manifestaram interesse em enfrentar os húngaros, acabaram demovidos de suas intenções pelas respectivas federações. Havia também, de ambas as partes, o temor de punições por parte da Fifa. Por outro lado, o clube cruzmaltino também divulgou nota expressando simpatia à causa defendida pelo Flamengo, que no dia 7 de janeiro enviou à delegação húngara as passagens para o Rio, confirmando o desejo de receber o Honvéd.

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A Federação Paulista, que previa pena de suspensão de 100 a 365 dias aos seus filiados, caso descumprissem sua ordem, chegou a enviar circular, assinada por seu presidente Mendonça Falcão, na qual proibia qualquer exibição do Honvéd na capital ou no estado de São Paulo.

Na verdade, até a Fifa temia: bastante impopular no continente americano, evitava um envolvimento mais profundo e taxativo no caso com receio de que essa atitude motivasse uma insurreição liderada não só pelos brasileiros, como também por argentinos, uruguaios e colombianos – todos partidários do Flamengo e interessados na vinda do Honvéd – que poderia rachar a entidade. Assim, agia apenas como um garoto de recados, apenas transmitindo de uma parte a outra as decisões tomadas.

A imprensa brasileira (em sua maior parte favorável à vinda do Honvéd, ao qual se referiu como “o time proibido”) acompanhou atentamente o andamento do caso. Alguns cronistas chegaram a contestar a legitimidade da nova diretoria da Federação Húngara, colocada no poder após a destituição da anterior pelo regime de Kádár, para tomar a atitude de proibir a excursão dos craques magiares. Em sua coluna no Jornal do Brasil, o poeta Manuel Bandeira, pernambucano radicado no Rio e um dos maiores nomes da literatura brasileira em todos os tempos, escrevia cerrando fileiras com o Flamengo.

Enfim, o desenlace

A questão passou então ao Conselho Nacional do Desporto (CND), que se eximiu de analisá-la por não julgar ser de sua alçada. Entrou em cena a primeira-dama Sarah Kubitschek, que intercedeu junto ao Ministério das Relações Exteriores, o qual autorizou o consulado brasileiro em Milão a conceder o visto de entrada no Brasil à delegação do Honvéd. Os húngaros viriam mesmo.

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Sem ter meios de fazer valer seu veto à excursão, restou à Federação Húngara uma medida um tanto extremada: decidiu pela eliminação de todos os integrantes da delegação e os proibiu de usar o nome “Honvéd” nas partidas que disputasse, ao que Emil Osterreicher rebateu: “Não reconhecemos a Federação Húngara de Futebol se esta, por sua vez, não nos reconhecer como o clube Honvéd. Rechaçamos totalmente a decisão parcial determinada por motivos políticos”.

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A delegação húngara – os jogadores, o secretário Emil Osterreicher e os treinadores János Kalmár e Béla Guttmann (ex-treinador do clube, convidado para participar da viagem depois de se encontrar com os jogadores em Viena, cidade onde fez carreira como atleta e viva na época), além de um diretor – desembarcou no Galeão no dia 14 de janeiro e teve recepção digna de astros internacionais, diante da multidão que a aguardava.

De lá, partiram para o Hotel Glória, na época um dos mais luxuosos e de maior prestígio do Rio, onde ficariam hospedados. Durante a estadia no Rio, Puskás, Kocsis, Sándor e Budai ainda seriam entrevistados pelo jornalista Luiz Mendes (o lendário “comentarista da palavra fácil”) e o ex-craque Ademir de Menezes para um programa esportivo da TV Rio. E vários jogadores do elenco participariam de animadas peladas na praia de Copacabana.

Da seleção húngara de 1954, entre os que defendiam o Honvéd, vieram o goleiro Gyula Grosics (que na época já havia trocado o clube pelo Tatabanya), o centromédio József Bozsik, e o quarteto de atacantes formado por László Budai, Sándor Kocsis, Ferenc Puskás e Zoltán Czibor. Outros jogadores do Honved que viajaram foram os goleiros Faragó e Garamvolgyi, os zagueiros Rakoczi, Dudas, Banyai e Bagoly e o médio Antal Kotász.

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O elenco foi ainda reforçado por jogadores de outros clubes, que resolveram se juntar aos dissidentes. Além de Grosics, também viajaram o lateral Mihály Lantos (outro presente na Copa de 1954), o ponteiro Károly Sándor, o meia-esquerda Szolnok (todos do Vörös Lobogó, o nome do MTK na época), além de atletas mais jovens, surgidos após o Mundial suíço, como o médio Szabo (do Kinizsi, como era chamado o Ferencváros) e o médio-direito Toroczik. Por fim, também fez parte do grupo o veterano atacante Ferenc Szusza (do Újpest), um dos maiores jogadores surgido no país antes da geração de ouro.

Durante os treinos no estádio da Gávea, novamente acompanhados por uma multidão, os húngaros impressionaram não só pela qualidade técnica como pela potência e precisão de seus chutes – apenas cerca de 25% não atingiam a direção do gol. O calor do verão carioca era forte, mas havia a expectativa de que a aclimatação fosse feita nos dias que antecediam o primeiro jogo, contra o Flamengo.

A estreia

Se a temperatura era um problema para os húngaros, o Flamengo, dirigido pelo paraguaio Fleitas Solich, também tinha os seus. Nada menos que quatro titulares desfalcariam a equipe por servirem à seleção carioca naquele mesmo instante: o centromédio Dequinha, os pontas Joel e Zagallo e o centroavante Índio estavam de fora do grande confronto com os húngaros. Além deles, por problemas físicos, o zagueiro Jadir (este afastado há vários meses) e o lateral-esquerdo Jordan também preocupavam. E o ponta-de-lança Dida era dúvida, mas tinha maiores chances de participar.

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Solich foi buscar na base alguns dos substitutos: Milton Copolilo entraria na quarta-zaga ao lado de Pavão e Luís Roberto seria o médio-volante. O ex-banguense Édson ocuparia a lateral-esquerda. No ataque, com o deslocamento de Paulinho da meia para a ponta-direita no lugar de Joel, outro garoto dos aspirantes, Moacir, vestiria a camisa 8. Evaristo seria o centroavante, curiosamente jogando à húngara, recuando até o meio-campo para buscar jogo e abrindo espaço no ataque para as infiltrações de outro jovem, o centroavante Henrique, escalado na ponta-de-lança. Na ponta canhota, no lugar de Zagallo, estava confirmado o miúdo Babá.

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A juventude do time rubro-negro, no entanto, acabou ajudando: se a equipe já praticava um futebol de velocidade e intensidade com seus titulares, a disposição e o fôlego dos garotos que entraram foram de grande valia no primeiro confronto. No dia 19 de janeiro, com o presidente Juscelino Kubitschek nas tribunas do Maracanã e quase 120 mil pagantes no estádio, Flamengo e Honvéd pisaram o gramado para abrir a temporada brasileira de Puskás e cia. O árbitro seria Mário Vianna. E o Ponto Frio, cadeia de lojas de eletrodomésticos, ofereceu uma taça ao vencedor da partida.

O começo do time carioca foi arrasador: aos 24 minutos Paulinho bate falta na trave e Moacir apanha o rebote para abrir o placar. Quatro minutos depois, Evaristo recebe de Moacir e serve de primeira para Henrique, descendo pelo lado direito, bater cruzado e rasteiro. Mais quatro minutos e vem o terceiro gol: Kotasz bate lateral para Lantos, que tenta driblar Evaristo e perde a bola. O camisa 9 rubro-negro invade a área e enche o pé. No fim do primeiro tempo o Honvéd desconta com Kocsis, recebendo cobrança de falta rápida de Puskás, limpando a jogada e tirando do goleiro Ari.

O Flamengo voltou com Dida no lugar de Henrique, mas o ritmo intenso não caiu: logo aos nove minutos o garoto alagoano sofre pênalti do goleiro Faragó (substituto de Grosics no intervalo). Paulinho cobra e amplia. Aos 25, em nova falha de Lantos, Evaristo toma a bola e passa de calcanhar a Dida, que avança e bate para marcar o quinto. O Honvéd desconta logo na saída de bola, com Budai se aproveitando da indecisão entre Milton e Ari. Mas Evaristo volta a ampliar (6 a 2) dois minutos mais tarde em jogada individual, descendo pela ponta direita, invadindo a área e disparando um petardo que explode na trave de Faragó e entra.

O Honvéd ainda diminuiria mais duas vezes. A primeira logo no minuto seguinte – o jogo era lá e cá – depois que Bozsik lançou Kocsis, este tabela com Puskás e vê o “Major Galopante” chutar forte. O último gol da tarde sai de pênalti, após falta de Pavão sobre a linha da área, que Puskás converte. Placar final, 6  a 4. Nos vestiários, os húngaros aceitaram o resultado e se recusaram a minimizar a derrota: “Não temos justificativas. Perdemos porque o adversário foi sempre melhor. Jogou com alma, com técnica e com objetividade. O Flamengo foi monstruoso e nós, sinceramente, só temos a admirar sua bela vitória. Um triunfo insofismável”, disse o chefe da delegação, Emil Osterreicher.

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Na noite de quarta-feira, dia 23, veio a partida contra o Botafogo – aliado de última hora do Flamengo, pouco depois da chegada dos húngaros. Ao contrário dos rubro-negros, os botafoguenses fizeram questão de trazer seus jogadores da seleção carioca, o que inclusive gerou atrito com a Federação Metropolitana de Futebol (que comandava o futebol do Rio na época). Assim, Pampolini, Didi, Nilton Santos e Garrincha estavam em campo naquela noite no Maracanã. O Mané seria escalado numa posição pouco familiar, a meia-esquerda, passando à ponta-direita durante o jogo com a entrada de João Carlos no lugar de Neivaldo.

Assim, o Alvinegro saiu para o jogo escalado com Amaury no gol; Bob, Orlando Maia e Nilton Santos como os três defensores; Bauer e Pampolini na linha média; e Neivaldo, Didi, Paulinho Valentim, Garrincha e o paraguaio Cañete no ataque. O Honvéd também promoveu alterações à sua equipe, entrando Dudas no lugar de Lantos na lateral-esquerda e Sandor na ponta-direita com a saída do centroavante Szusza (Budai foi deslocado para o centro do ataque).

Encontrando no Botafogo um adversário ligeiramente mais técnico, porém praticando um futebol mais lento, cadenciado e menos direto e objetivo que o do Flamengo, o Honvéd teve menos problemas neste segundo jogo para mostrar o futebol que os torcedores brasileiros aguardavam. Logo aos 10 minutos, Kocsis recebeu lançamento de Puskás e abriu o placar. Garrincha empatou em jogada individual aos 23. E Puskás, cobrando pênalti, colocou novamente os magiares em vantagem ao fim do primeiro tempo. Na etapa final, Paulinho Valentim empatou aos 15 em jogada de Garrincha, mas Kocsis marcaria mais duas vezes, aos 40 e aos 42 minutos, para decretar a primeira vitória dos visitantes húngaros no Maracanã, por 4 a 2.

Os húngaros em São Paulo

O terceiro jogo seria a revanche do Honvéd contra o Flamengo, marcada para o sábado à noite no Pacaembu. Apesar da proibição da Federação Paulista de Futebol de que a equipe húngara atuasse na capital paulista, os dirigentes do Flamengo pensaram numa estratégia bastante engenhosa para levar o time de Puskás ao público de São Paulo: trataram do caso diretamente com o prefeito Wladimir de Toledo Piza e pediram a cessão do estádio municipal, concedida sem maiores problemas. Para não envolver a FPF, não haveria cobrança de ingressos: o jogo seria realizado com portões abertos.

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Disposto a desfazer a má impressão da derrota no primeiro confronto, o Honvéd teve grande atuação. Puskás abriu o placar cobrando pênalti aos 13 minutos. Moacir empatou para o Fla no minuto seguinte e de novo Puskás em nova penalidade recolocou os húngaros na frente aos 40. Na etapa final, logo de início, o Honvéd marcou quatro vezes em dez minutos: Budai aos 3, Puskás aos 9 e 10 e Sandor aos 13. O Fla reagiu no final para diminuir o placar e evitar a goleada, marcando com Evaristo aos 24, Dida aos 36 e novamente Evaristo aos 44. Estavam devolvidos os 6 a 4 do Maracanã.

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No quarto jogo da excursão – terceiro contra o Flamengo – os húngaros voltariam a vencer, num resultado que surpreendeu até o próprio Puskás, dado o amplo domínio das ações por parte dos rubro-negros. A maior precisão nas finalizações, no entanto, deu a vitória ao Honvéd por 3 a 2: Budai e Sándor abriram dois gols de vantagem no início do primeiro tempo, Henrique e Evaristo empataram antes do intervalo, mas Szusza, cobrando falta, marcaria o terceiro para os magiares na etapa final.

No dia seguinte ao confronto, um fato curioso chegou ao noticiário: os jogadores do Honvéd comemoraram a vitória até altas horas em uma festa no apartamento de um húngaro naturalizado brasileiro na rua Hilário de Gouveia, em Copacabana, ao som do rock ‘n’ roll.

Combinado Bota-Fla lava a alma

No dia 7 de fevereiro, o último jogo dos húngaros no Brasil, diante de um combinado Flamengo-Botafogo. Como os jogadores do Fla a serviço da seleção carioca ainda estavam de fora, a defesa do time foi formada em sua maioria por atletas alvinegros: o goleiro Amaury, os laterais Bob e Nilton Santos e os médios Bauer e Pampolini. O rubro-negro Pavão era o zagueiro central, e o lateral Tomires entraria durante o jogo no lugar de Bob.

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No ataque, porém, a presença de rubro-negros era maior: Paulinho na ponta-direita, Evaristo como centroavante e Dida na ponta-de-lança, com Didi na meia-direita e Garrincha na ponta-esquerda completando o time inicial. Durante o jogo, Dida seria substituído por Moacir e Paulinho daria lugar ao botafoguense Cañete, com Garrincha retornando à direita.

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Na despedida dos húngaros, a exibição dos brasileiros – assim como tinha sido a do Flamengo no primeiro jogo – foi de lavar a alma. O primeiro gol, aos 22 minutos, começou em jogada de Paulinho, passando a Evaristo, que cruzou. A bola chegou a Garrincha na esquerda, e o ponta, na linha de fundo, cortou para dentro e bateu entre o goleiro e dois zagueiros. O empate do Honvéd, aos 35, também veio em jogada fabulosa: Budai lançou Puskás e este passou rasteiro a Kocsis. O centroavante entrou na área, deu um drible desconcertante em Nilton Santos e chutou forte vencendo Amaury.

Três minutos depois, Dida recebeu lançamento de Paulinho e soltou um petardo da entrada da área para recolocar o Combinado em vantagem. Houve ainda na primeira etapa a chance de ampliar o marcador numa penalidade, desperdiçada por Didi. Mas o meia se reabilitaria logo no primeiro minuto da etapa final com um lançamento para Evaristo, que acabou encobrindo o goleiro Faragó, numa saída errada. O centroavante acompanhou a trajetória da bola até a linha de fundo, viu o goleiro voltar e driblou-o, caminhando com a bola até o gol vazio.

Aos 16, após escanteio cobrado com efeito, à meia altura, por Didi, dois zagueiros do Honvéd furam a cabeçada e a bola sobra para Dida escorar. É o quarto gol. O Honvéd desconta com Puskás cobrando pênalti de Amaury em Budai aos 30. Mas um novo pênalti, desta vez a favor do Combinado, vem após toque de mão de Kotasz em jogada individual de Dida. A cobrança de Didi é perfeita, 5 a 2. O sexto e último gol vem já nos descontos, numa linha de passe: Garrincha para Didi, Didi para Moacir, Moacir para Evaristo, que invade a área, passa por dois zagueiros e pelo goleiro Faragó e toca para as redes diante de um Maracanã em êxtase.

Os húngaros não pouparam os elogios: “Foi excelente a exibição do combinado”, disse Puskás após o jogo. Emil Osterreicher, por sua vez, declarou-se surpreso com o alto nível técnico da partida: “Sempre soube, por informação e por ter visto na Europa, ser (o brasileiro) um grande futebol. Mas nunca pensei que fosse tão bom assim como mostrou hoje esse combinado Botafogo-Flamengo”, afirmou ao jornal carioca Última Hora, antes de definir o balanço da temporada no Brasil como “ótimo, melhor do que se previa”.

Após a visita

Na noite de 12 de fevereiro os húngaros embarcavam no Galeão, deixando o Rio rumo a Caracas, na Venezuela, onde fariam mais dois amistosos contra o Flamengo. No primeiro jogo, dia 16, vitória rubro-negra por 5 a 3: Moacir abriu o placar, Puskás empatou, o Fla marcou mais três vezes com Evaristo (dois) e Dida, antes de Budai descontar. Evaristo voltou a ampliar o placar e novamente Budai deu números finais ao jogo. No segundo, dia 19, empate em 1 a 1, com nada menos que cinco bolas rubro-negras acertando a trave húngara. Marcaram Puskás para o Honvéd e Evaristo para o Flamengo. No balanço final dos cinco jogos entre o time carioca e os magiares, duas vitórias para cada lado e um empate. Puskás balançou as redes oito vezes. Evaristo, nove.

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Depois desses jogos, O Honvéd partiria para Viena, onde se dissolveria. Alguns jogadores retornaram a Budapeste, mas vários dos principais astros da equipe aceitaram propostas de clubes da Europa Ocidental – mesmo que tivessem de cumprir uma suspensão de um ano, de acordo com a legislação da Fifa. Kocsis e Czibor logo acertaram com o Barcelona (onde reencontrariam o brasileiro Evaristo, negociado pelo Flamengo com o clube catalão após o meia-atacante se destacar também na Seleção durante as Eliminatórias para a Copa da Suécia). Puskás, depois de flertar com a Inter de Milão, teve como destino o Real Madrid.

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Da comissão técnica húngara, Béla Guttmann logo aceitaria proposta do São Paulo, permanecendo no Brasil e trabalhando ao lado do futuro técnico da Seleção Brasileira Vicente Feola. O treinador János Kálmár seria sondado pelo America do Rio, mas preferiria migrar para a Áustria, onde dirigiria o Wacker de Viena – ainda naquele ano, entretanto, os rubros contratariam outro técnico húngaro, Gyula Mandi. Emil Osterreicher, por sua vez, seria convidado pelo presidente do Real Madrid, Santiago Bernabéu, para exercer no clube merengue o posto de secretário-geral, o qual aceitaria.

No começo de maio, para dar uma satisfação à Fifa, a CBD puniu Flamengo e Botafogo de maneira protocolar: suspendeu ambos por 45 dias no âmbito internacional, após o fim do Torneio Rio-São Paulo (ou seja, ficariam proibidos de excursionar ao exterior neste período). A punição não durou muito. No dia 8 daquele mês, a entidade nacional recebeu um ofício da Federação Húngara endereçado ao presidente da Federação Metropolitana de Futebol no qual se lia:

“Os membros da equipe que fizeram uma excursão pela América do Sul retornaram à Hungria. Nossos jogadores foram punidos e não poderão jogar até uma determinada data. Da nossa parte, o assunto está encerrado. (…) Agradecemos vosso empenho e zelo, e temos a certeza que de vossa parte tudo foi feito para impedir a temporada. Rogamos esquecer esse caso e ficamos satisfeitos que nem o Botafogo e nem o Flamengo sejam punidos por essa razão”.

A CBD se decidiu então pelo indulto aos clubes. Todos notariam mais tarde que a visita dos húngaros causaria impacto decisivo na evolução do jogo por aqui. Se ali, naqueles dias no Maracanã (e no Pacaembu), uma tradicional escola de futebol se despedia de sua geração de ouro, por outro lado o futebol brasileiro ganhava o grande impulso necessário para se tornar potência mundial dentro de pouco mais de um ano.