A sensação foi estranha para Andy Robertson depois do jogo de ida das semifinais contra o Barcelona. Apesar de ter sido derrotado por 3 a 0, o lateral esquerdo sabia que o Liverpool conseguia competir com o time de Messi. Havia feito uma boa partida, mas todos os momentos decisivos foram contra os ingleses. Em Anfield, a história poderia ser diferente, e foi o técnico Jürgen Klopp quem inseriu nos jogadores a confiança de que o milagre poderia ser alcançado, de acordo com o relato do escocês no Player’s Tribune.

“Apesar de estarmos em Barcelona, Madri não poderia parecer mais longe. E, então, o treinador entrou no vestiário, com o seu tradicional sorriso: ‘Rapazes, rapazes, rapazes! Não somos o melhor time do mundo. Agora, vocês sabem disso. Talvez eles sejam. Quem se importa? Quem se importa?? Nós ainda podemos vencer o melhor time do mundo. Vamos de novo!’ Talvez tenha me levado um segundo, ou talvez o voo inteiro de volta a Liverpool, para acreditar nele, mas, olhando agora, aquele foi o momento que mudou tudo para nós. No futebol, todos falam sobre confiança. Todo time diz que a tinha, depois de uma reviravolta. Mas não é o caso com todos os clubes. Simplesmente não é. O treinador… ele começa tudo. Ele inicia o fogo e, então, Anfield faz o que faz”, disse.

E poucos estádios na Europa conseguem fazer o que Anfield faz. “Se eu fosse alguém compreensivo, eu provavelmente me sentiria mal pelos jogadores adversários em Anfield em noites europeias. O que eles enfrentam é quase injusto. Aquela mistura intoxicante de história, paixão e inabalável confiança é uma grande vantagem, e é por isso que o Liverpool quebrou as expectativas tantas vezes, e é por isso que nossos torcedores comparecem convencidos que o que parece impossível é possível. Eles já viram acontecer antes, então por que não esperar novamente?”, escreveu.

“Sabíamos que teríamos uma chance quando estávamos nos vestiários, esperando para subir ao campo. Sabíamos que o treinador acreditava em nós porque ele nos havia dito. Sabíamos que os torcedores acreditavam em nós porque conseguíamos ouvi-los. Meu Deus, nós conseguíamos ouvi-los. E, provavelmente, mais importante de tudo, sabíamos que nós acreditávamos em nós mesmos e um nos outros”, acrescentou.

“Por isso, quando Divock (Origi) marcou, aos sete minutos, eu não apenas acreditei. Eu sabia. Eu sabia o que viria pela frente, o que Anfield criaria. Eu espero que isso não soe desrespeitoso, porque eu não poderia ter mais respeito pelo Barcelona, mas, naquela noite, não era sobre eles. Era sobre nós. Nós estávamos embalados pelos torcedores e nossa fome estava em outro nível”, disse.

“Eu me lembro do aquecimento. O lugar estava pulando. Parecia que todos estavam em cima de nós, então só Deus sabe como era para os rapazes do Barcelona. Quando Origi marcou tão cedo, você conseguia ver nos olhos deles. Os torcedores ficaram insanos. Eu não conseguia ouvir nada. Eu só me lembro de olhar para Henderson, Milner e Van Dijk – eles mal sorriram. Eles simplesmente balançaram os braços para a torcida, meio que dizendo: ‘Vamos de novo!’”, completou.

Mais especial do que a reviravolta, foi a trajetória que levou Robertson até ela e a duas finais seguidas de Champions League. Ele próprio admite que, se tivesse ouvido as outras pessoas, não estaria em Anfield naquela noite, mas não quer que sua história seja chamada de “conto de fadas”, como costumamos fazer na imprensa esportiva. “

“Não há muitas coisas que me incomodam, mas uma delas é a ideia de que minha história é um conto de fadas do futebol”, disse. “Eu sei que, quando as pessoas dizem que sou uma espécie de Cinderela, elas querem me elogiar. Eu aprecio isso, mas, para ser totalmente honesto, não me sinto assim porque não é verdade”, disse. “Nenhuma varinha mágica foi balançada em minha direção. Eu não ganhei algum tipo de loteria para ter espaço em um dos maiores clubes do mundo. A razão de eu ser um jogador do Liverpool é a mesma razão de eu ser o capitão do meu país. Eu trabalhei para caralho para chegar aonde cheguei e, fazendo isso, eu consegui tirar o máximo de qualquer talento que eu tenha”.

Robertson contou que cresceu indo ao Celtic Park com a mãe, o pai e o irmão. Eram quatro carnês de temporada. As paredes eram adornadas com pôsteres de Henrik Larsson: “Lenda, absoluta lenda”. Ele se juntou à base do Celtic e ganhava duas libras do pai a cada gol marcado. “Eu fiz £ 75 uma temporada, diferente de agora, quando eu provavelmente acabaria devendo dinheiro para ele”, brincou. Um novo diretor técnico chegou ao Celtic e dispensou o jovem Robertson, aos 15 anos. “Eu estava a um ano de assinar contrato profissional. A um ano de ser um jogador de verdade do Celtic. Mas tudo havia acabado, simples assim, e doeu bastante”, contou.

Em 2010, Robertson tentou de novo, no Queens Park, time pequeno de Glasgow. Ganhava £ 6 por noite e precisava trabalhar para completar a renda. “Eu arranjei trabalho como jardineiro, limpava para o time principal e até trabalhei no Hampden Park durante jogos da Escócia. Meus pais me disseram que, se eu não encontrasse meu jogo naquele ano, deveria começar a pensar em opções de faculdades. Então, eu coloquei tudo que tinha em melhorar todos os dias. Isso foi um trabalho de verdade, uma pressão de verdade”, disse.

“As pessoas sempre me perguntam sobre a pressão de jogar pelo Liverpool. E ela existe, acredite em mim, eu a sinto. Mas há essa pressão e há a pressão de jogar pela sua vida, sabendo que, se você não der um jeito, terá que abrir mão de tudo que ama. Essa é a pressão mais dura que já senti. E, naquela situação, eu comecei a acreditar em mim, talvez pela primeira vez na vida. Eu simplesmente não tinha outra opção”, acrescentou. “O Dundee United me abordou alguns anos depois, e isso me permitiu treinar todos os dias ganhando dinheiro suficiente para não precisar de outros trabalhos. Mas acho que no fim isso foi bom para mim, ver com o que as pessoas precisam lidar no dia a dia, fora da bolha do futebol”.

Apareceu a chance de jogar na Premier League pelo Hull City, o que Robertson nunca imaginava que aconteceria. Sua ambição era ser um jogador sólido da primeira divisão escocesa. “Quando eu estava fazendo jardinagem ou esvaziando latas de lixo, nunca pensei que jogaria a Champions League, especialmente pelo Liverpool. É engraçado porque alguns clubes me ligaram quando eu estava na pré-temporada pelo Hull, em 2017, mas eu não estava realmente interessado. Minha esposa estava grávida e estávamos no processo de deixar tudo pronto para nosso filho, essa era a nossa principal prioridade. E, então, eu ouvi que o Liverpool me queria. O Liverpool”, relatou.

Robertson assinou o contrato o mais rápido que pode e, logo no primeiro trabalho em Melwood, centro de treinamentos do Liverpool, sofreu um choque de realidade. “O exame médico durou dois dias e foi brutal. Minha dieta era estranha porque a equipe médica teve que fazer vários testes para ter certeza que eu estava em forma e continuaria em forma. Eu estava correndo com Danny Ings e, depois de algumas voltas no gramado em Melwood, eu senti algo estranho no meu estômago. Eu sabia que daria errado, mas o que poderia fazer? Continuei correndo. Alguns minutos depois, estava de joelhos, vomitando no gramado de Melwood”, disse.

“Aquele gramado sagrado. O lugar onde todas as lendas treinaram. King Kenny, Ian Rush, Steven Gerrard, e aqui estava eu, um rapaz de Glasgow, soltando minhas tripas na frente da equipe médica do Liverpool. Se a primeira impressão conta, só Deus sabe o que eles pensaram de mim”, contou. E ainda faltava conhecer o técnico. “No dia seguinte, eu fui conhecer o técnico e ouvi sua risada a quilômetros de distância. Ele obviamente havia ouvido falar do meu exame. Eu me virei e ele estava andando na minha direção, esfregando a barriga e apontando para mim. Todo mundo atrás dele estava rindo também. E, então, ele me deu um grande abraço. Depois disso, eu consegui relaxar um pouco”, contou.

Logo na primeira temporada, Robertson fez parte do time que chegou à final da Champions League e foi derrotado pelo Real Madrid. Um revés doloroso, mas, novamente, Klopp operou sua mágica. “Voltamos a Melwood às quatro da manhã e o treinador nos deu um abraço e disse que estava orgulhoso do nosso time. Ele também nos disse que voltaríamos. De alguma maneira, depois de uma longa estrada, depois de estar perdendo por 3 a 0 para o Barcelona, ele estava certo. Estamos de volta”, afirmou.

“Uma das melhores coisas sobre futebol é que há muitas pessoas como meu. A maioria dos jogadores chegam ao topo porque são muito determinados. O time do Liverpool do qual faço parte tem muitos desses jogadores. Virgil Van Dijk, por exemplo, o melhor zagueiro do mundo. Quantas vezes treinadores e olheiros olharam para ele e pensaram que ele não estava destinado ao topo? Ele mesmo lhe dirá que muitas vezes. Mo Salah, um dos melhores finalizadores do futebol, foi descartado porque não era bom o bastante para a Premier League. Jordan Henderson deve ter contado quantas vezes teve sua habilidade questionada e agora está prestes a ser o capitão do Liverpool em uma segunda final consecutiva de Champions League”, contou.

“Eu poderia citar outros. Eu realmente poderia. Eles não são contos de fada. Eles são exemplos de trabalho duro e compromisso fazendo a diferença. Eu nunca quis ser símbolo de nada, mas, se for ser de alguma coisa, deveria ser disso: se você não desistir, e continuar acreditando em si, mesmo quando os outros estão duvidando, você consegue chegar lá. Você consegue mostrar que é bom o bastante. Agora tenho duas crianças, e essa mensagem é mais importante do que nunca. Eu não quero que elas pensem que o pai delas deu sorte. Eu preciso que elas entendam que qualquer potencial que elas tenham só pode ser concretizado se elas forem determinadas. Conto de fadas? Isso é história para boi dormir”, acrescentou.

“O que importa mais do que tudo é que nosso destino está em nossas mãos. Sabemos disso. E, se há uma coisa que eu posso garantir sobre nosso time, sobre nosso grupo de jogadores, é que não vamos parar até fazermos o sonho dos nossos torcedores se realizar. Se acontecer, não será um conto de fadas. Será porque merecemos”, encerrou.