Quando o equatoriano Independiente Del Valle e o colombiano Atlético Nacional perfilarem no estádio Atahualpa, para discutirem quem leva a Taça Libertadores para casa, terão começado a primeira final da principal competição sul-americana em que apenas equipes do chamado Merconorte estão envolvidas. Será, também, uma rara decisão sem nenhuma equipe das potências continentais: Argentina, Brasil e Uruguai.

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Entre 1998 e 2001, a Conmebol organizou duas competições secundárias de clubes. A Copa Mercosul reuniu times desses três países, mais Chile e Paraguai. Paralelamente, a Copa Merconorte recebeu equipes de Colômbia, Equador, Peru e Bolívia – nas últimas edições, costarriquenhos, mexicanos e até americanos foram convidados. Posteriormente, a entidade sul-americana fundiu os dois torneios na Copa Sul-Americana, que é disputada até hoje.

Como era, e continua sendo, o futebol mais desenvolvido da região, a Colômbia dominou o torneio, com quatro títulos e três vices. Apenas o Emelec, do Equador, conseguiu quebrar um pouco essa hegemonia, perdendo do Millonarios, na decisão de 2001. E vem desses dois países as equipes que farão a primeira decisão de Libertadores exclusivamente com times do Merconorte. Mais significativo do que isso, porém, será uma rara ocasião em que não teremos nenhum brasileiro, argentino ou uruguaio.

Em 56 edições da Libertadores, apenas três decisões excluíram essas equipes: 1989, 1990 e 1991. E, ao percebermos que em cada um desses três anos, um dos finalistas era o Olimpia, com três títulos e quatro vices na bagagem, o ineditismo de Independiente Del Valle x Atlético Nacional fica ainda mais forte.

Não foi um momento muito glorioso para o futebol brasileiro, envolvido na bagunça da Copa União, da criação do Clube dos 13 e de uma Seleção enfraquecida e comandada por Sebastião Lazaroni. Os campeões nacionais desse período foram Bahia, Vasco e Corinthians, com méritos, mas sem desempenhar um futebol brilhante. Um dado curioso: os artilheiros do Brasileirão em 1989 e 1990, Túlio e Charles, respectivamente, fizeram apenas 11 gols cada. Essa marca só supera a de Müller (10), em 1987, na era moderna do campeonato nacional.

Com o mercado europeu aquecido, muitos craques atuavam fora do país, no caso do Brasil, na Itália e em Portugal. Acontecia o mesmo com a Argentina e, em menor medida, com o Uruguai. Dos 22 convocados para a Copa do Mundo de 1990, apenas sete uruguaios defendiam Nacional ou Peñarol, historicamente os únicos do país que brilham na Libertadores.

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Enquanto isso, a seleção paraguaia aproveitava o entrosamento do Olimpia, que teve oito jogadores diferentes convocados para as edições de 1989 e 1991 da Copa América: Silvio Suárez, Vidal Sanabria, Carlos Guirland, Luis Alberto Monzón, Gabriel González, Jorge Guasch, Alfredo Mendoza e Gustavo Neffa. Todos disputaram pelo menos uma decisão de Libertadores.

A Colômbia tinha uma boa geração naquela época e conseguiu classificação para a Copa do Mundo de 1990, após seis edições afastada. Graças ao dinheiro do narcotráfico, do cartel de Pablo Escobar, o Atlético Nacional tinha muitos desses jogadores em seu time. Dez atletas que foram à Itália estavam no clube na época do título contra o Olimpia, sendo importantes para a campanha ou ainda surgindo para o futebol: René Higuita, Andres Escobar, Gildardo Gómez, Luis Fernando Herrera, León Villa, José Ricardo Pérez, Leonel Álvarez, Luis Carlos Perea, Geovanis Cassiani e Luis Fajardo. E o técnico Francisco Maturana, claro, que comandou as duas equipes.

O Colo-Colo colocou oito jogadores na seleção chilena que disputou a Copa América de 1991. Sete deles estavam em campo na conquista do título da Libertadores naquele mesmo ano contra o Olimpia. Inclusive a linha defensiva titular inteira do clube, formada por Lizardo Garrido, Miguel Ramírez, Javier Margas e Eduardo Vilches. O Barcelona de Guayaquil, vice de 1990, emplacou seis na seleção equatoriana em 1989 e cinco em 1991.

1989 – Atlético Nacional (5) 2 x 2 (4) Olimpia

Depois de ver o América de Cali chegar três vezes seguidas à final da Libertadores – e perder as três -, o Atlético Nacional conseguiu a chance de decidir o principal torneio sul-americano. Passou pelo Racing, nas oitavas, e pelo Danubio, nas semifinais. Também eliminou o compatriota Millonarios. Enfrentaria o Olimpia, que deixou o Boca Juniors e o Internacional para trás.

Os paraguaios venceram o primeiro jogo por 2 a 0 e viajaram para decidir na Colômbia, dominada por Pablo Escobar e seu cartel. As lendas são muitas, e incluem que ele teria dito que “ou o Nacional vence ou todos morrem”. O que aconteceu, com certeza, foi que o Atlético Nacional devolveu a vitória por 2 a 0 e foi campeão nos pênaltis. Para o alívio de muitos. “Acredito que se ganhássemos não sairíamos vivos da Colômbia”, disse Gabriel “Loco” González, que defendeu o Olimpia naquela final, ao site paraguaio Hoy.

1990 – Olimpia 3 x 1 Barcelona

A vingança do Olimpia não demorou muito. Na semifinal da Libertadores de 1990, o time paraguaio eliminou o Atlético Nacional – sem ter que viajar para a Colômbia, já que o adversário perdeu mando de campo por denúncias de ameaças contra o árbitro Daniel Cordelino, na vitória por 2 a 0 sobre o Vasco, pelas quartas de final. Com a pressão de Eurico Miranda, o jogo foi anulado e refeito, agora em Santiago, com novo triunfo dos colombianos.

Desta vez, o rival do Olimpia na decisão seria o Barcelona de Guayaquil, que havia eliminado o River Plate nas semifinais. Com vitória por 2 a 0, em Assunção, e um empate por 1 a 0, no Equador, os paraguaios conquistaram seu segundo título sul-americano.

1991 – Colo-Colo 3 x 0 Olimpia

Outra semifinal de Libertadores, outro encontro com o Atlético Nacional, outra vitória do Olimpia, agora pelo placar mínimo. Um gol solitário de Samaniego valeu a classificação para a terceira decisão seguida. O Colo-Colo teve mais trabalho para chegar à final. Teve que passar por Nacional e Boca Juniors nas fases anteriores.

E, depois de um empate sem gols em casa, o Olimpia não foi páreo para o atacante Luis Pérez, autor de dois gols na vitória por 3 a 0 do Colo-Colo, em Santiago.

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