Pouca gente dava bola para o Leicester City até a conquista da Premier League 2015/16. Assim, nem todo mundo conhece da maneira devida o histórico copeiro das Raposas. Embora costumasse ser um mero figurante na elite do Campeonato Inglês, o clube possui seu currículo respeitável nos mata-matas locais. Faltou um pouco de sorte na Copa da Inglaterra, com quatro vices – o clube com mais decisões que nunca levou a taça. Já na Copa da Liga, são três títulos e dois vices. E a última vez que o Leicester avançou a uma final em Wembley foi depois de vencer justamente o Aston Villa, mesmo adversário nas semifinais de 2019/20.

O primeiro grande momento copeiro do Leicester aconteceu na década de 1960. Acostumado a boas campanhas no Campeonato Inglês, o clube chegou a mirar o título da liga em 1962/63, na famosa campanha que rendeu o apelido de “Reis do Gelo”. Enquanto isso, as Raposas também mantinham sua reputação em copas. Foram três finais de Copa da Inglaterra entre 1961 e 1969, com derrotas para timaços de Tottenham, Manchester United e Manchester City. Já na Copa da Liga, um pouco mais de alegria. A equipe de Gordon Banks e Ken Keyworth derrotou o Stoke City para erguer a taça em 1964, antes de ser derrotada pelo Chelsea um ano depois.

Já na virada do século, mais um momento no qual o Leicester pintava com força. O clube vinha de uma estadia razoável na Premier League, emendando seis participações consecutivas entre 1996 e 2002. Todavia, era na Copa da Liga que as Raposas realmente sonhavam alto. Se o torneio era deixado de lado pelos principais clubes, isso não parecia um problema aos alviazuis. O título de 1997, sobre um Middlesbrough de estrelas internacionais, levou o Leicester à Copa da Uefa. Foi apenas a segunda participação do clube nas competições continentais, após mais de 30 anos. Já em 1999, o vice diante do Tottenham.

Por fim, o Leicester realizou sua última aparição em Wembley durante a temporada 1999/00. A campanha marca o fim da passagem de Martin O’Neill pela casamata em Filbert Street. Antigo ídolo do Nottingham Forest, o treinador conquistou o acesso à Premier League em 1996 e conduziu os sucessos das Raposas ao longo daquele período. Era tão adorado que, ante os rumores sobre sua saída ao Leeds United, os torcedores realizaram um enorme ato pedindo para que o norte-irlandês ficasse. Ele atendeu as vozes e seria campeão pela última vez em 2000.

Já dentro de campo, o Leicester contava com uma equipe longe do brilhantismo, mas muito combativa e de nomes célebres. O goleiro era Tim Flowers, frequente na seleção inglesa, que deixara o Blackburn para substituir o americano Kasey Keller. A defesa era liderada pelo zagueiro escocês Matt Elliott, símbolo do clube naquele período, que também pintava na seleção de seu país. O trio de zaga se completava com Frank Sinclair, defensor da seleção jamaicana trazido do Chelsea, e Gerry Taggart, nome rodado na seleção norte-irlandesa. Steve Guppy, lateral que até chegou à seleção inglesa, caía pela esquerda. Já na direita, o hoje comentarista Robbie Savage era um ala genioso e experimentado na seleção galesa.

No meio-campo, a idolatria começava com Muzzy Izzet, londrino de origem turca que se transformou em ícone em Filbert Street, presente na campanha até as semifinais da Copa do Mundo de 2002. Era o cérebro da equipe. Na cabeça de área, Neil Lennon ampliava o espírito de luta, outro a fazer parte da equipe nacional norte-irlandesa. Já Stefan Oakes era um prata da casa que despontava bem. Outra cria local, um pouco mais experiente, Emile Heskey servia de referência ofensiva e já se colocava entre os principais centroavantes do futebol inglês. Tony Cottee, veterano com histórias por West Ham e Everton, o acompanhava no ataque.

Era um time tarimbado do Leicester, que encerrou a Premier League com uma honrosa oitava colocação – o melhor desempenho do clube na elite desde os anos 1970. Na Copa da Inglaterra, as Raposas eliminaram o Arsenal nos pênaltis, antes de sucumbirem ao Chelsea nas oitavas de final. Mas nada comparado ao sucesso registrado na Copa da Liga. O resultado de maior peso aconteceu nas oitavas, quando o Leicester despachou o Leeds United nos pênaltis. Depois, superaria o Fulham, antes de encarar o Aston Villa nas semifinais.

Apesar do copeirismo atrelado ao time de Martin O’Neill, o Aston Villa também atravessava um momento respaldado de sua história. O clube de Birmingham vinha de boas campanhas na parte de cima da tabela na Premier League e havia faturado a Copa da Liga duas vezes em meados daquela década. Além disso, também chegaria à final da Copa da Inglaterra em 2000. David James, Gareth Southgate, Ugo Ehiogu, George Boateng, Gareth Barry e Paul Merson estavam entre as figuras dos Villans naquele período. Eram treinados por John Gregory.

A primeira partida, no Villa Park, esteve longe de contentar os torcedores. O empate por 0 a 0 foi classificado como “decepcionante” pela BBC. E o Leicester, sem atacantes disponíveis, precisou improvisar o zagueiro Matt Elliott ao lado de Heskey na linha de frente. A estratégia se repetiria no jogo de volta, em Filbert Street. Pois o herói seria justamente Elliott. Após ser ridicularizado por John Gregory por suas táticas defensivas, o time de Martin O’Neill saiu para o ataque e bombardeou a meta de David James, criando uma penca de chances. O gol da vitória por 1 a 0 veio pouco antes do intervalo, em cruzamento perfeito de Savage, no qual o capitão sequer precisou saltar para cabecear às redes. Voltando de lesão, Izzet e Lennon foram bastante elogiados, assim como Heskey em seu esforço na linha de frente.

Na decisão, o Leicester encarou o surpreendente Tranmere Rovers, da terceira divisão. E, com 74 mil presentes nas arquibancadas, a torcida azul pôde fazer a festa em Wembley, graças a Elliott. De volta ao miolo de zaga, o capitão outra vez brilhou quando foi à frente. Os dois tentos na vitória por 2 a 1 foram anotados pelo defensor, em desvios após cobranças de escanteio. Todavia, apesar de toda a festa pela conquista, não demoraria para que aquele time das Raposas se desmanchasse.

Heskey acertou com o Liverpool logo após a final da Copa da Liga (em tempos nos quais a janela de transferências não existia) e Martin O’Neill, sem renovar seu contrato, se mudou ao Celtic na temporada seguinte. A desmontagem se tornou mais acentuada após o rebaixamento na Premier League, em 2001/02. E as memórias copeiras do Leicester acabam reavivadas 20 anos depois, agora no renovado Estádio King Power. As chances se renovam à equipe de Brendan Rodgers, contra o mesmo Aston Villa nas semifinais.