“Eu sei o que será esperado de mim nesta temporada, mas eu não sou alguém que sente pressão. Eu gosto de um desafio, e o primeiro será tentar jogar todas as semanas pelo Liverpool porque todo mundo aqui é bom jogador. Eu sei que será uma temporada muito grande para mim – muito maior que ano passado -, mas estou ansioso. Eu quero jogar contra Vieira e Keane e me comparar com eles. Um dia, quero ser tão bom quanto eles e, então, melhor. Meu treinador Gerard Houllier está sempre dizendo que eu tenho muito a aprender, que não sou o artigo final. Ele tem razão. Eu sei que posso melhorar”.

Essas palavras confiantes e ao mesmo tempo sensatas foram proferidas, segundo o livro Steven Gerrard: Portrait of A Hero, no começo da temporada 2000/01, por um garoto de 20 anos que começava a escrever a sua lenda com a camisa do Liverpool. Steven Gerrard era jogador do time principal do clube que o formou há pouco mais de uma temporada e meia. Era visível que se tratava de alguém especial, mas ainda tinha muito a melhorar, especialmente na questão física e no poder de decisão. Isso aconteceria, em uma temporada inesquecível dos Reds, com três títulos, e que contou com uma atuação de gala do futuro capitão nas quartas de final da Copa da Uefa, contra o Porto, adversário do Liverpool na Champions League, nesta terça-feira.

Gerrard havia estreado contra o Blackburn, em novembro de 1998. Jogou 13 vezes na sua temporada de estreia. Na seguinte, muito mais: 31 jogos, 29 na Premier League, 28 como titular, e o seu primeiro gol, contra o Sheffield Wednesday, em dezembro de 1999. O problema é que perdeu alguns jogos por uma recorrente lesão na virilha, que limitaria sua participação pela seleção inglesa na Eurocopa a 29 minutos contra a Alemanha, e o continuaria incomodando no começo da nova campanha.

“Minha condição física está muito melhor do que estava durante o verão”, disse. “Eu recebi um programa de alongamento para fazer antes e depois das partidas, mas tenho que aceitar que perderei alguns jogos nesta temporada, quando eles forem em sequência. Eu não tenho uma lesão particular. As minhas costas causam problemas em vários músculos da perna e ao redor da virilha. Os exercícios são para melhorar minhas costas, o que, então, melhorará a questão muscular”.

Os alongamentos não causaram uma melhora imediata. Gerrard perdeu a segunda rodada da Premier League, contra o Arsenal, e a estreia na Copa da Uefa, diante do Rapid Bucareste. Ele seria descansado contra o Sunderland e o Derby County, além do Slovan Liberec, da República Tcheca. Para a sorte de Houllier, o Liverpool havia investido bastante nos últimos mercados e havia opções, como Dietmar Hamann, Vladimir Smicer e o experiente Gary McAllister, a quem Gerrard considerava um técnico dentro de campo.

O segundo problema a ser resolvido por Gerrard naquela temporada era colocar a bola na rede. Aquele gol contra o Sheffield Wednesday ainda era o único da carreira da jovem estrela que se destacaria no futuro com com chutes de fora da área e, no geral, 186 tentos com a camisa vermelha. Era também uma questão de acertar seu posicionamento. Ele ainda era deslocado para as pontas ou para a lateral direita e variava entre primeiro volante, meia central ou meia-atacante. “Desde que seja pelo meio, estou feliz. Eu prefiro meia central a qualquer outro lugar. Se eu jogar em uma posição mais avançada, preciso fazer mais gols, e essa é definitivamente uma parte do meu jogo que estou devendo. Sei que preciso melhorar”, explicou.

E melhorou. Multiplicou por dez o seu número de gols, com precisas cabeçadas e foguetes de média e longa distância. A questão física também melhoraria. Gerrard terminaria a temporada com 50 jogos, 44 desde o começo. Seria a sua quinta campanha com mais partidas disputadas com a camisa do Liverpool, e não muito longe do recorde de 54 duelos em 2002/03. À altura do duelo contra o Porto, conseguiria emendar uma sequência de partidas. Havia jogado contra o Leicester, no sábado, antes de enfrentar o Porto, no Estádio das Antas, pelo jogo de ida.

Foram 90 minutos nos dois jogos. A partida em Portugal terminou 0 a 0, com o goleiro dos Dragões, Sergei Ovchinnikov defendendo uma pedrada de 30 metros de Gerrard que poderia ter mexido no placar. Ao fim de duas partidas em quatro dias, Houllier afirmou que seria “tremendo” se ele conseguisse enfrentar o Tranmere Rovers, pela Copa da Inglaterra, no fim de semana. E lembrou que Gerrard ainda estava crescendo. Literalmente: “Quando eu tinha 15 anos, eu tinha o mesmo tamanho de Michael Owen, mas ele parece um anão perto de mim agora. O crescimento rápido me deu problemas de postura e meus músculos ficam cansados, mas está melhorando. É impossível definir uma data para quando ficará perfeito, mas estou jogando mais partidas nesta temporada do que na passada”.

E Gerrard foi titular contra o Tranmere Rovers, o terceiro time de Liverpool. E foi muito bem, com mais um gol e assistências para Danny Murphy e Michael Owen. Dias depois, estaria novamente em campo desde o início para receber o Porto em Anfield, em seu quinto jogo completo em sequência. Mais uma atuação de gala. Da lateral direita, Gerrard cruzou o gramado inteiro com um passe de primeira para encontrar Murphy pela esquerda da grande área: 1 a 0. A partir do mesmo setor, um segundo cruzamento encontrou a cabeça de Michael Owen para sacramentar a vaga.

Gerrard descansaria no jogo seguinte, contra o Derby, em uma Premier League que o Liverpool chegou a brigar na ponta, mas terminou em terceiro lugar. Nas copas, porém, o time fez história, com três títulos: Copa da Inglaterra, Copa da Liga Inglesa e Copa da Uefa. E Gerrard titular em todas as finais, com direito a um gol contra o Alavés, na decisão do torneio europeu, confirmando seu desenvolvimento e dando início a uma bonita e longa história em Anfield.