Pulga Rodríguez é daqueles personagens que enriquecem o futebol sul-americano. Torna-se natural criar simpatia pelo talentoso camisa 10, que atravessou a carreira quase inteira no Atlético Tucumán, clube do qual é o maior ídolo da história. Poucas foram as aventuras de Pulga longe do Decano. Poucas, mas boas, que incluem até mesmo a seleção argentina e a base da Internazionale. No início do ano, o meia-atacante surpreendeu ao deixar os tucumanos e se juntar ao Colón. Outra vez, protagoniza uma grande história, ao liderar os sabaleros rumo às semifinais da Copa Sul-Americana. E se faz necessário respeitar ao máximo o veterano: mesmo após a morte de seu pai no domingo, Rodríguez decidiu enfrentar o Atlético Mineiro. Pôde homenageá-lo da melhor maneira, com um gol, que definiu a virada dos santafesinos por 2 a 1.

Pedro Rubén Rodríguez tinha o apelido de “Pocholo”. Trabalhava como pedreiro e pintor para sustentar a família humilde, de dez filhos. Foi com seu esforço que Pulga ganhou o par de chuteiras que marcou sua vida, quando estava prestes a completar 11 anos. “Não sei como, porque a família estava economicamente muito mal neste momento, mas meus pais conseguiram comprar aquelas chuteiras. Eu tinha só um par de chuteiras e estavam pequenas, mas sabia que precisava jogar com elas, mesmo que apertassem meus pés. Por isso, às vezes tinha que jogar descalço e fiquei assim por uns cinco meses. A vontade que tinha de ganhar um novo par de chuteiras, mais confortáveis, era impressionante. Não me esqueço disso. Aquilo me marcou tanto que agora, cada vez que compro sapatos, eu me recordo dessa história”, contou Pulga, à revista El Gráfico, em maio de 2016.

Durante o início da adolescência, Pulga Rodríguez jogava nos campeonatos amadores de Tucumán para ganhar um pouco de dinheiro e ajudar a família. Além disso, quando saía das aulas, também trabalhava como ajudante de pedreiro e de pintor ao lado do pai. “Sou um cara muito família. Desde criança, meus pais me acostumaram assim. Inclusive, quando pensava em ser jogador de futebol profissional, era para ajudá-los com as contas. Ainda pequeno, trabalhava com meu pai e com meu cunhado. Tínhamos uma situação complicada, os homens da família ajudavam no trabalho e as mulheres faziam o que podiam. Somos muito unidos. Quando alguém tem problemas, estamos todos para ajudar. E penso que minha renda, hoje, é para assegurar um bom futuro para minha esposa e para meus filhos. Não quero que falte nada a eles. Isso foi o que meus pais semearam em mim desde pequeno”, complementava.

O futebol abriu suas portas a Pulga Rodríguez quando ele tinha 14 anos e recebeu uma oportunidade de ser testado na Internazionale. Porém, o empresário responsável pela negociação não deu o dinheiro prometido aos garotos que levou à Itália e os fez passar necessidades. Quando tinha 17 anos, Pulga quase largou o futebol, depois de mais uma experiência frustrada na Europa. Foi levado à Romênia sem conhecer o idioma, sem dinheiro e sem nada para comer. De volta à Argentina após as penúrias, o adolescente disse que não queria mais jogar futebol, que desejava trabalhar. Os pais, no entanto, o ajudaram a retomar a trajetória. Pulga prometeria à mãe, Bety, que não deixaria Tucumán.

Mesmo sem o sonho de atuar no futebol europeu, Pulga Rodríguez construiu sua carreira próxima às suas raízes. Apesar das limitações e das dificuldades, manteve-se apegado à sua família e à sua identidade. Depois de surgir no Racing de Córdoba, ficou escanteado no clube e mais uma vez pensou em desistir. Então, teve seu passe comprado pelo próprio irmão, retornou à liga tucumana e recobrou seu gosto pelo esporte. Destaque em sua modesta equipe, recebeu uma proposta do Atlético de Tucumán meses depois, em 2005. Aos 20 anos, passou a vestir as cores de seu coração.

Pulga jogou no Decano de maneira praticamente ininterrupta até 2018, exceção feita a um breve hiato entre 2010 e 2011, quando assinou com o Newell’s Old Boys. Pouco antes, em 2009, havia sido convocado por Maradona a um amistoso contra Gana pela seleção argentina. Com o Atlético de Tucumán, o armador conquistou três acessos (dois deles à primeira divisão) e foi vice-campeão da Copa Argentina. Além disso, colocou os albicelestes no mapa da Libertadores pela primeira vez em 2017 e alcançou as quartas de final do torneio em 2018. Superou as 300 partidas e, com 130 gols, é o segundo maior artilheiro da história da agremiação.

Por mais que a grande paixão de Pulga Rodríguez seja o Atlético de Tucumán, o atacante passou a exibir o mesmo talento e profissionalismo com a camisa do Colón. Desde que chegou a Santa Fé, no começo de 2019, o camisa 10 se transformou em uma das principais figuras sabaleras e assumiu a braçadeira de capitão. A contratação de Pablo Lavallén, seu antigo comandante nos tucumanos, também o ajudou. O veterano havia sido decisivo nas fases anteriores da Copa Sul-Americana, com gols contra o Zulia e o Deportivo Municipal. Até que a semana de drama pessoal resultasse no exemplo máximo de sua dedicação aos santafesinos.

Apesar do estado de saúde crítico de seu pai, Pulga Rodríguez optou por continuar cumprindo os seus compromissos com o Colón. No último sábado, ele entrou em campo contra o San Lorenzo pelo Campeonato Argentino. Marcou o primeiro gol e deu a assistência para o segundo na vitória por 2 a 1 no Cemitério de Elefantes. Depois da partida, o camisa 10 desabafou: “Estou passando um momento muito crítico com meu velho. É capaz que outras pessoas preferissem estar com seus irmãos, com sua mãe, esperando que Deus decida o que precisa decidir. Mas eu quis estar aqui e jogar. Quando eu era pequeno, meu pai disse que queria me ver jogar na primeira divisão. Hoje posso fazer isso e não deixarei de fazer, até o dia em que acontecer algo”.

Pocholo não gostava de assistir aos jogos de Pulga. Preferia evitar a ansiedade e saía para caminhar quando o filho entrava em campo. Horas depois da vitória sobre o San Lorenzo, o pai faleceu. Pulga Rodríguez pegou um avião até Tucumán e se dirigiu a Simoca, cidade nas redondezas onde nasceu e cresceu.

Depois de enterrar seu pai e consolar seus familiares, Pulga Rodríguez decidiu retornar à concentração. Não queria perder a primeira partida contra o Atlético Mineiro, a mais importante da história do Colón nas competições internacionais. Estaria em campo no Cemitério de Elefantes e seria titular. Nas arquibancadas, muitos torcedores manifestaram seu apoio ao capitão. Levaram faixas e cartazes com mensagens para confortá-lo. O camisa 10 não fez uma partida tão exuberante contra o Galo, mas foi decisivo. Cobrou o escanteio que resultou no primeiro gol. Já no segundo tento, estava no lugar certo e na hora certa para apenas desviar a bola rumo às redes, definindo a vitória. Pôde dedicar o gol ao seu pai. Durante a comemoração, correu à torcida e apontou aos céus.

“Eu estava em um momento muito complicado da minha vida a nível familiar. Decidi jogar porque era uma partida que marcava a história do clube e qualquer um quer estar presente. Foram dias muito incômodos. No domingo, perdi meu pai, que me deixou muitos ensinamentos. Graças a Deus, meu velho lá em cima nos ajudou a ganhar esta partida”, afirmou Pulga, logo após a vitória, com a voz um tanto embargada e os olhos marejados. “É um gol especial. Hoje decidi estar com meus companheiros e jogar. Meu pai sempre quis que eu jogasse futebol e o melhor tributo que poderia oferecer era ganhar a partida”.

Na saída do Cemitério de Elefantes, Pulga Rodríguez ainda mostrou seu lado como pai. Algo frequente em seus jogos com o Colón, falou com a imprensa carregando nos ombros Bauti, seu filho mais velho, de quatro anos. Nas panturrilhas, o atacante traz o nome do menino e também de Milo, seu caçula. Quando entra em campo, é também para garantir a eles um pouco do que Pocholo o ensinou. Nesta quinta, o ídolo transformou a dor da perda em um momento de tributo e saudade na Copa Sul-Americana. Uma baita lição de como seguir em frente.