Já se sabe de cor e salteado o tamanho do vexame que a seleção da Holanda protagonizou, ficando fora da Euro 2016. Está sendo tão marcante, no pior dos sentidos, que cada simples tropeço já é suficiente para aumentar a desconfiança de que a Laranja também ficará ausente da Copa de 2018. Foi o que se viu após a derrota para a França, em Amsterdã, na segunda passada – primeiro revés da Oranje em eliminatórias de Copas desde 1º de setembro de 2001 (por sinal, data da derrota para a Irlanda, que praticamente sacramentou a ausência holandesa na Copa de 2002). A impressão de desalento que tomou conta das pessoas após o 1 a 0 dos Bleus deve-se, principalmente, a dois fatores.

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O único veterano destacado na convocação de Danny Blind era Wesley Sneijder – e ele foi cortado logo após o 4 a 1 sobre Belarus, na semana passada, pela lesão na coxa que sofrera no fim de semana retrasado, defendendo o Galatasaray no Campeonato Turco. Resultado: uma equipe que se alternava entre caras mais conhecidas (Maarten Stekelenburg, Daley Blind, Kevin Strootman) e gente que ainda procura entrar na Oranje para não mais sair (Virgil van Dijk, Davy Klaassen, Davy Pröpper, Quincy Promes, Vincent Janssen – e Rick Karsdorp, a surpresa que mais agradou).

Aí entra o primeiro fator: nenhum deles, com nível técnico bom o suficiente para impressionar os espectadores. Nem para contrabalançar a imposição francesa em campo. Não que os visitantes tenham jogado bem na Amsterdam Arena – ao contrário, até decepcionaram, e destaques habituais como Dimitri Payet e Antoine Griezmann foram apagados. Ainda assim, tiveram clara superioridade em campo (sem contar o “auxílio” de Stekelenburg, que assumiu a falha no gol de Paul Pogba).

E grande parte dessa superioridade francesa ocorreu pela crônica incapacidade da seleção holandesa em mostrar alguma compactação, alguma organização tática em campo. Repita-se o que já foi escrito aqui: o problema não é o 4-3-3, esquema usado com sucesso aqui e ali em alguns times, mas a dificuldade do time laranja em manter os jogadores alinhados – e em aproximar as linhas de meio-campo, defesa e ataque. Por isso, a tendência sempre era tentar atacar pelas pontas, com as constantes aparições de Karsdorp, pela direita, e Memphis Depay (substituto do lesionado Promes), pela esquerda. Como se pode prever, bastou a França compreender isso para repelir facilmente as ofensivas da Oranje.

Por outro lado, com atuações apagadas dos meio-campistas e o próprio espaçamento holandês no setor, a bola sempre ficava com um francês no meio: fosse com Pogba, fosse com Payet, fosse até nos desarmes de Moussa Sissoko, sobrava espaço para lançamentos em profundidade ou chutes de fora (como o de Pogba que foi para as redes). A aridez da Holanda na criação de jogadas era tamanha que, a certa altura do segundo tempo, Virgil van Dijk teve de sair para o jogo desde o miolo de zaga…

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Enfim, está constatado que a seleção holandesa é desorganizada taticamente, na atualidade. E que a geração atual para vestir a camiseta laranja é, no máximo, mediana. O que é muito preocupante, porque a Holanda só se sustenta como a “melhor do resto”, entre as seleções que não são campeãs mundiais, por causa da sua contínua revelação de talentos. Nem Portugal, nem Inglaterra, nem Dinamarca, nem Rússia, nem Bélgica tiveram tanto êxito histórico na formação de jogadores – e no desenvolvimento de um estilo tático reconhecível e característico de um país. Por isso, e só por isso, é que a Holanda é respeitada. Por mais que não ombreie com a tradição de Alemanha, Brasil, Itália e Argentina, é uma seleção média com responsabilidades de seleção grande.

E um dado adicional só torna as coisas mais preocupantes. Aí entra outro fator de desalento: a queda cada vez maior da Holanda na base. Pela segunda vez consecutiva, a seleção holandesa sub-21 ficará ausente do Europeu da categoria, no ano que vem, na Polônia. A Jong Oranje (“Laranja Jovem”) até ganhou na rodada final – 4 a 1, no Chipre -, terminando em segundo lugar na sua chave. Mas ficou abaixo dos quatro melhores vices dos grupos das eliminatórias, que disputarão duas vagas na Euro sub-21. Mais um sinal de que, não bastasse a dificuldade da nova geração em decolar, os vindouros tampouco parecem prontos para explodir. Sem contar as equipes sub-19 e sub-17, que até disputaram os Europeus, mas foram facilmente superadas por países em que a transição e a revelação é melhor feita (no sub-19, França; no sub-17, Portugal).

Pior: nesta década, a Holanda só participou de uma Euro sub-21 (2013, quando chegou às semifinais). E a geração que era sub-21 há três anos é… justamente a que peleja agora na seleção adulta. Jeroen Zoet, Stefan de Vrij, Daley Blind, Kevin Strootman, Jordy Clasie, Georginio Wijnaldum, Tonny Vilhena, Luuk de Jong, Memphis Depay; todos eles estavam no grupo de 2013, todos eles foram convocados por Danny Blind para esta rodada recém-encerrada das eliminatórias.

Então o time holandês certamente verá a Copa de 2018 pela tevê, ausente de Euro e Mundial em sequência pela primeira vez desde 1984-1986? Devagar com o andor. Por pior que seja, a Oranje parece ter compreendido algo que não compreendera nas eliminatórias da Euro (e que foi uma das razões do fracasso): é uma equipe de menos qualidade técnica. Não pode jogar o que não sabe. Mas também não perdeu completamente o jeito. Se isso significa assumir inferioridade perante a França em casa, também significa se impor contra adversários menos qualificados – como se viu nos 4 a 1 contra Belarus. E os próximos compromissos das eliminatórias são bem acessíveis: Luxemburgo (13 de novembro, fora de casa) e Bulgária (25 de março, em casa).

A Holanda pode vencer ambas as partidas – e com um França x Suécia no meio, voltar a ocupar a segunda posição no grupo A das eliminatórias europeias para a Copa. Pelo menos para isso, tem capacidade. Para sonhar igualar a curto prazo as boas campanhas nos últimos Mundiais é que ficou difícil. E a culpa não é só de quem joga na Laranja principal. O buraco é mais embaixo, na base da pirâmide.