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Em outubro, o executivo-chefe do Liverpool, Peter Moore, deu uma entrevista ao El País, da qual ele deve estar se arrependendo no momento, dizendo que o departamento de marketing buscou inspiração no socialismo de Bill Shankly – não com cunho político, mas de solidariedade – para determinar o que o clube significava. Que quando o assunto são negócios, “perguntamos: O que Shankly faria?”.

Antes de tudo, parece importante lembrar quem é Bill Shankly. O Liverpool foi fundado em 1892 e refundado quando Shankly, escocês de Ayrshire, uma pequena vila de mineradores na Escócia, chegou do Huddersfield em 1959. Shankly reformou Melwood, centro de treinamentos, reformou Anfield e reformou a alma do clube golpeada por anos na segunda divisão. Shankly foi quem decidiu que o uniforme deveria ser todo vermelho e quem colocou a placa “This is Anfield” nos vestiários para assustar os rivais.

Uma das suas milhares de frases famosas dizia que existe uma Santíssima Trindade no futebol: “Os jogadores, os treinadores e os torcedores. Os diretores não fazem parte dela. Eles existem apenas para assinar cheques”. E durante toda sua carreira, Shankly travou grandes disputas com os diretores que raramente queriam assinar os cheques que ele achava necessários para fazer do Liverpool campeão.

A sua visão de socialismo, dizia, não era política, mas uma maneira de viver: “É humanidade. Acredito que a única maneira de viver e ser realmente bem-sucedido é por meio de esforço coletivo, com todos trabalhando um pelo outro, todos ajudando um ao outro e todos tendo uma parcela das recompensas no fim do dia. Pode ser pedir muito, mas é a maneira como vejo o futebol e a maneira como vejo a vida”.

Embora tenha dito que o futebol “não é uma questão de vida ou morte, é muito mais do que isso”, também disse que não havia pressão em disputar a Copa dos Campeões ou a Copa da Inglaterra. “Essas são as recompensas. Pressão é trabalhar na mina de carvão. Pressão é não ter nenhum emprego”, afirmou o segundo mais novo de dez filhos, que acompanhou o fechamento gradual de minas de carvão em sua cidade, até ele próprio ser dispensado, e que quando criança roubava vegetais e frutas porque não havia comida para todo mundo.

Agora, sim, podemos fazer a pergunta: em uma pandemia, Bill Shankly sobrecarregaria um programa do governo que pretende evitar o desemprego e garantir o sustento de quem ganha até £ 2,5 mil por mês, fazendo uma conversão imaginária provavelmente da faixa salarial em que os mineradores do seu tempo estariam, para que os diretores do seu clube, o sétimo mais rico do mundo, não tivessem que se virar, mesmo com as receitas desaparecendo, para pagar os vencimentos dos seus funcionários mais vulneráveis?

Difícil responder com certeza sem acessar o mundo espiritual, mas todas as evidências apontam que Shankly não diria “opa, sim, senhor, essa é uma grande ideia, vamos fazer isso”.

O Liverpool não foi o único clube da Premier League que anunciou sua intenção de usar o programa de retenção de empregos do governo, não foi o único que fatura milhões de libras e pretendia economizar migalhas às custas dos cofres públicos, mas é o único que afirmou que sua ações passam pelo crivo imaginário do seu pai espiritual, que provavelmente quebraria todas as portas entre a sala de chuteiras, onde se reunia com seus auxiliares, e o escritório da direção quando ficasse sabendo desse plano.

O Liverpool também é o único entre os que tentaram tornar a doação de £ 20 milhões da Premier League ao Serviço Nacional de Saúde inócua, acrescentando ao orçamento público gastos pelo menos equivalentes ao que foi doado por cada integrante, que faz uma campanha de marketing com base em valores “socialistas” – o que por si só é uma contradição – e tem o mote de que “isto significa mais”.

Há algumas particularidades na espinha dorsal do Liverpool, por vezes exageradas ao ponto da mística, como a atmosfera de Anfield ou a proximidade com a comunidade local, que permitem ao departamento de marketing propagandeá-lo como um clube diferente. Não tem problema nenhum nisso. O Barcelona faz o mesmo com o “Mais Que Um Clube”, para ficar apenas em um exemplo notório.

O problema começa quando os valores que servem para fazer campanhas de marketing são testados pela realidade e fica muito sério quando as decisões tomadas pela diretoria os contrariam. Há sempre um pouco de ilusão na publicidade, mas se não houver pelo menos um pouco de relação entre o discurso e as ações, se não houver um pouco de lastro nas decisões que o clube de fato toma, chamá-lo de hipócrita é o mínimo que se deve fazer.

Mais rigoroso seria, por exemplo, dizer que os donos do clube estavam no mesmo balaio de Mike Ashley, do Newcastle, proprietário mais odiado da Inglaterra, e haviam sido moralmente superados pelo xeique do Manchester City, que anunciou que não usará o programa governamental.

Em outras palavras, é fácil dizer que seu clube tem valores quando as coisas vão bem, difícil é colocá-los em prática nos momentos em que as coisas vão mal – e, do ponto de vista financeiro, para um clube, não dá para ser pior do que uma pausa completa e indeterminada dos jogos de futebol.

Mesmo que o pessoal de Boston não desse a mínima para os valores que eles permitiram ao clube propagar, e o pessoal de Boston, mais especificamente o dono John Henry, tem dinheiro para caramba, do ponto de vista empresarial a decisão continuaria sendo ruim porque golpearia quase mortalmente a simpatia que o Liverpool sofreu tanto para construir, por diversos motivos: duas décadas de domínio quase absoluto no futebol nacional, a exclusão dos clubes do país do futebol europeu por causa de Heysel, responsabilidade de torcedores dos Reds, e, do ponto de vista social, preconceito da elite inglesa com a cidade e, mais amplamente, com a região.

Essa resistência foi sendo pouco a pouco diluída. Trinta anos de fracassos ajudaram. De clube dominante, o Liverpool virou um gigante adormecido que precisava ser resgatado, narrativa que muitos fãs de futebol adoram. Nesse período, também houve a comprovação das injustiças de Hillsborough e um renascimento relativamente sustentável – Henry tem dinheiro, mas não o injetou indiscriminadamente como se fosse um xeique – , cujo pico chegou por meio de um futebol brilhante e agradável comandado por um treinador que usa agasalho e pula que nem um maluco.

O programa do governo é destinado a pequenos e médios empresários, não a clube milionários, embora tivesse evitado muita confusão se os critérios de participação fossem mais claros e/ou específicos, o que não desculpa a decisão inicial do Liverpool de usá-lo.

E mantê-la arriscaria jogar toda essa recente simpatia fora, contrariaria a imagem que o departamento de marketing tentava construir e, acima de tudo, seria errado. Simplesmente a coisa errada a ser feita, do ponto de vista moral e cidadão.

E se dá pra apontar alguma decisão diferente do usual que o Liverpool tomou nessa história foi, diante da repercussão amplamente negativa, inclusive entre seus torcedores mais influentes, voltar atrás, admitir o erro e pedir desculpas – especialmente pedir desculpas.

“Acreditamos que chegamos à conclusão errada semana passada de anunciar que pretendíamos usar o programa do governo devido à suspensão do calendário da Premier League e pedimos desculpas sinceras por isso”, escreveu Moore em uma carta aos torcedores. “Também queremos usar esta oportunidade para agradecer todos com os quais conversamos de maneira produtiva, ninguém mais do que nossos torcedores, seus representantes, particularmente (o grupo) Spirit of Shankly (…) e muitos outros indivíduos com quem tivemos diálogos valiosos”

Mas fica a lição: na próxima vez, é melhor perguntar o que Bill Shankly faria antes de errar.