Durante a semana, Parma e Sampdoria anunciaram uma iniciativa peculiar. As duas equipes “inverteriam” o desenho de seus uniformes para o jogo deste domingo, no Estádio Ennio Tardini. Para celebrar a amizade entre as duas agremiações, as cores se manteriam, mas cada time preparou uma camisa especial com o desenho tradicional dos adversários. Os anfitriões usariam a faixa central da Samp, com seu amarelo e azul marinho no lugar, em pano azul; enquanto isso, os genoveses atuariam de branco e adotariam a cruz dos parmesões, adornada conforme a moda dos blucerchiati – duas faixas azuis ao lado do branco e do rubro-negro. O projeto chamado “Blucrociati – não apenas cores” ainda contou com o apoio de Joma e Erreà, as responsáveis pelos materiais esportivos. Ao final, o duelo também marcou um festival de gols, com o empate por 3 a 3.

Antes de mais nada, é necessário explicar: por que há uma amizade entre Parma e Sampdoria? Se em várias partes do mundo é comum a aproximação entre as torcidas, no futebol italiano isso tem um nome específico: gemellaggio. Porém, essa união não possui um caráter apenas bélico, de ultras que se juntam com outros ultras para brigar. A relação reflete geralmente proximidades culturais ou políticas, que acabam celebradas com atos conjuntos. Não à toa, é comum ver confraternizações ao redor dos estádios em partidas de torcidas geminadas ou mesmo bandeirões de uma tremulando no meio da galera da outra. No caso de genoveses e parmesões, isso foi adotado pelos próprios clubes.

A amizade específica entre Parma e Sampdoria começou lá no início da década de 1990, quando as duas equipes se tornavam forças nacionais, com um investimento pesado em seu elenco. A Sampdoria, mais tradicional na primeira divisão, ascendeu primeiro ao topo do Calcio. De 1985 a 1994, conquistou quatro títulos da Copa da Itália, um Scudetto e uma Recopa Europeia, além do vice na Champions e na própria Recopa. Tempos abastados sob as ordens do mítico Vujadin Boskov, em que a dupla formada por Roberto Mancini e Gianluca Vialli empilhava gols. Enquanto isso, o Parma protagonizou uma franca ascensão na metade final da década de 1980. O processo iniciado por Arrigo Sacchi garantiu a estreia na Serie A em 1990. E, sob a batuta de Nevio Scala, os gialloblù venceram uma Copa da Itália, uma Recopa Europeia e uma Copa da Uefa até 1995, além de sempre terminarem entre os seis primeiros colocados na elite.

A aproximação aconteceu desde o primeiro encontro, na temporada 1990/91. O primeiro passo foi dado pelas diretorias, que se encontraram naquele jogo. As realidades em expansão eram parecidas e isso facilitou a troca de conhecimentos. Depois, as torcidas também abraçaram a oportunidade. Afinal, antes que o Parma confirmasse o inédito acesso, fazia costumeiras batalhas com o Genoa na Serie B. E sabe aquela história “inimigo do meu inimigo é meu amigo”? Pois bem, tudo confluiu. Não à toa, os torcedores (e não só os ultras) das duas torcidas realizam festas e coreografias em conjunto, bem como já foram às arquibancadas do “clube irmão” se somar e apoiar momentos importantes. Nada melhor, então, do que demarcar esta fraternidade justamente no retorno do duelo ao Ennio Tardini, após as penúrias do Parma nas divisões de acesso.

Assim, neste domingo, a celebração tomou conta do gramado. Marcello Gazzola abriu o placar ao Parma logo aos dois minutos, aproveitando a jogadaça de Gervinho. A Samp, no entanto, virou no primeiro tempo. Fabio Quagliarella anotou de pênalti e Gregoire Defrel deixou o seu. No início da etapa complementar, Quagliarella anotou mais um e disparou na artilharia da Serie A, chegando aos 25 tentos. Por fim, os gialloblù reagiram com dois gols em quatro minutos, entre os 22 e os 26. Juraj Kucka descontou e Alessandro Bastoni garantiu a igualdade. Nos minutos finais, ainda houve tempo a duas expulsões, ambas por duplo amarelo, de Omar Colley e Kucka. Até nisso prevaleceu a igualdade.

Apesar do ânimo inicial, tanto Samp quanto Parma caíram durante o segundo turno e fecham a temporada com campanhas mornas. Os blucerchiati ocupam a nona colocação, com 49 pontos, e se distanciam da luta pelas competições europeias. A artilharia de Quagliarella, de longe na melhor temporada da carreira, deve mesmo ser o ponto alto. Enquanto isso, o Parma sofre com uma ameaça remota do rebaixamento. É o 14°, com 38 pontos, seis acima do Z-3. De qualquer maneira, a quem recentemente encadeou três acessos consecutivos, a permanência já é o objetivo cumprido. Nada melhor do que comemorar com dois uniformes lindos.