O Paris Saint-Germain tem trabalho coletivo. Todo time tem um (quase todo time tem um), e o de Tuchel é melhor que o de seus antecessores. Acontece que o nível de exigência para o patamar em que o clube francês se colocou e para os objetivos que almeja é enorme. Não adianta apenas ter um trabalho coletivo. Ele precisa ser excelente e as evidências de que ainda não é se acentuaram na final contra um Bayern de Munique entrosado e embalado, organizado e extremamente ciente do que deveria fazer. E nos momentos decisivos da partida, as individualidades que tanta diferença fazem para o PSG não apareceram.

Tuchel é um grande treinador e também tem suas falhas. Sofre com um elenco desequilibrado do Paris Saint-Germain, que investiu muito em alguns poucos jogadores, mas soube manejar as peças ao longo da temporada. Colocou zagueiros nas laterais, Marquinhos de volante e armou o meio-campo de maneiras distintas. Após levar um baile coletivo da Atalanta no primeiro tempo das quartas de final, introduziu Paredes àquele setor, melhorou a qualidade da saída de bola para escapar da pressão alemã e o seu próprio esquema de pressão gerou resultados concretos.

O plano que armou para o primeiro tempo foi correto. Observou que o Bayern de Munique sofreu com a sua linha de marcação alta contra o Barcelona, enquanto aquilo ainda era um jogo de futebol, e principalmente diante do Lyon. Também sabia que não conseguiria brigar pelo controle da bola com os alemães – e essa certeza, embora correta, acaba sendo uma das raízes do problema. Buscou a ligação direta para Neymar e Mbappé, tentou roubar algumas bolas no campo de ataque para acelerar os procedimentos, e isso criou boas oportunidades. No entanto, Neuer fez grandes defesas, Di María mandou uma por cima e Mbappé teve um par de chutes bloqueados. No outro lado, Navas fez uma boa defesa e Lewandowski acertou a trave, evidenciando o equilíbrio da etapa inicial.

O problema de um plano baseado em reação, de depender de espaços deixados pelo adversário é que… bom, você depende do que seu adversário permite e, quando o Bayern de Munique apertou o seu controle à partida, com uma pressão incessante e um maravilhoso Thiago puxando as cordinhas no meio-campo, a produção do PSG diminuiu. E o que lhes restou? Esperar que a abundância de craques à disposição gerasse alguma situação e isso não ocorreu, nem com Neymar, que vinha sendo o grande destaque individual desta fase final em Portugal, nem com Mbappé, em uma noite muito abaixo da sua capacidade, nem com Di María. Mauro Icardi aparentemente ficou preso na alfândega. Não foi visto em Portugal. Tuchel preferiu Choupo-Moting, talvez apostando um pouco na mística após ele decidir contra a Atalanta.

E aí, você encontra o contraste no outro lado. Alguns jogadores do Bayern, como Gnabry, não estavam em um dia especialmente iluminado. Lewandowski se frustrava com Navas e a trave. Mas todos estiveram aptos a fazer a sua parte dentro do coletivo, e o gol de Coman é o melhor exemplo. O Bayern trocou passes na defesa para superar a pressão e Thiago esticou para Kimmich. Gnabry não precisou driblar cinco e bater por cobertura. Apenas abrir pela ponta e cruzar. Müller atacou o espaço, puxou três marcadores e fez o pivô para Kimmich. O cruzamento do lateral direito, centralizando pelo meio, foi perfeito. Coman fechou no outro lado e cabeceou com precisão. Os passes de Thiago e Kimmich foram a parte brilhante da jogada, mas todos os outros souberam executar suas funções, com movimentos mais mecânicos e treinados, perfeitamente capazes de serem realizados em um dia menos inspirado.

 

Essa é a principal diferença entre um time que tem um coletivo forte e outro que ainda está no meio do caminho: quando as individualidades não encaixam, quando o goleiro adversário faz grandes defesas, quando o jogo aperta, há mecanismos enraizados na memória muscular dos jogadores para criar situações. O PSG não conseguiu exercer uma pressão sustentada em nenhum momento, nunca assumiu o controle da partida, nem na base do abafa, em parte porque os bávaros não diminuíram a intensidade em nenhum momento. Ainda restou certa esperança porque, estranhamente, o Bayern não conseguiu ficar com a bola para cozinhar os minutos finais, e houve um certo caos que um time que tem Neymar e Mbappé sempre pode aproveitar.

Mas um time que tem Neymar e Mbappé não pode apenas esperar que situações apareçam para eles aproveitarem, nem que eles as criem sozinhos. Não é tão improvável que ambos e outros coadjuvantes importantes estejam em um dia ruim ao mesmo tempo, especialmente contra um adversário com capacidade de limitá-los. Quando isso acontecer, precisa ser capaz de criá-las com mais do que dribles, arrancadas ou um único passe espetacular. E por mais que haja pontos positivos no trabalho de Tuchel, quem conseguiu fazer isso no Estádio da Luz foi o Bayern de Munique e, não por acaso, acabou ficando com a taça.

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