As divisões de acesso possuem um charme especial. A um clube que milita para chegar à elite e ter o gosto de se sentir grande, a promoção costuma ser mais comemorada que um título dos poderosos na primeira divisão. É a explosão por um sentimento de fortalecimento e, que muitas vezes, contrasta com os dramas particulares de cada agremiação. Basta ver a emoção desencadeada pela façanha do Luton Town, por exemplo. Porém, há ainda outro lado. O lado de quem luta para não ser rebaixado. Afinal, o retrocesso não significa apenas descer um degrau na pirâmide, tornando mais distante o sonho de alcançar a primeira divisão. Muitas vezes, esta queda joga o time em uma espiral, por vezes encadeando outros descensos.

Assim, a temporada na Football League teve histórias vitoriosas de clubes que conquistaram o acesso, mas também daqueles que fugiram do rebaixamento. E duas, em especial, chamam a atenção. Macclesfield Town e Wimbledon foram capazes de fugas épicas, confirmando a permanência somente na última rodada. A escalada de ambos fala por si.

O AFC Wimbledon já seria um caso à parte por toda a sua história. O clube fundado pelos torcedores, após a transformação do antigo Wimbledon FC em MK Dons, protagoniza uma das ascensões mais fascinantes do Campeonato Inglês. Começou sua trajetória na base da pirâmide e conquistou seis acessos desde 2004, sem nenhum descenso, até alcançar a League One em 2016. As duas primeiras temporadas do novo Wimbledon na Terceirona foram modestas, terminando na metade inferior da tabela, com um punhado de pontos acima do Z-3. Além do mais, 2017/18 foi particularmente especial por guardar o próprio descenso do MK Dons à quarta divisão. Ainda assim, o maior desafio aos auriazuis aconteceu na atual campanha.

Durante boa parte da League One, o Wimbledon teve um péssimo desempenho. De agosto a novembro, conquistou apenas quatro vitórias em 20 rodadas. Entrou na zona de rebaixamento e não sairia mais de lá. Dezembro até ofereceu alguns sinais de recuperação, mas a seca de janeiro voltou a afundar a equipe. O sol só voltou a brilhar em fevereiro. Desde então, foram duas derrotas em 14 rodadas. Que o excesso de empates tenha tirado a aceleração da arrancada, a esperança pela permanência ressurgiu em abril.

Mesmo assim, a torcida do Wimbledon precisou aguardar até a penúltima rodada para que o time saísse do Z-3. Já neste sábado, a confirmação da permanência aconteceu com drama, é claro. O empate por 0 a 0 com o já rebaixado Bradford City permitiu que o Plymouth Argyle igualasse a pontuação dos Dons, ao vencer o Scunthorpe United. Mas, graças a uma diferença de três gols no saldo, o Wimbledon permanecerá na Terceirona. Na próxima temporada, poderá fazer o “clássico” com o MK Dons, após o acesso dos usurpadores na League Two. O mentor da arrancada é o técnico Wally Downes, que fez parte da famosa “Crazy Gang” do clube nos anos 1980 e agora lidera o novo momento, quem sabe para dar um passo rumo à Championship em breve.

Uma divisão abaixo, o Macclesfield Town não possui um passado tão marcante, embora seja figurante costumeiro entre os pequenos do país. Vagou nas divisões menores da Football League a partir de 1997, caiu à Conference em 2012 e reconquistou o acesso à League Two na temporada passada. É uma equipe modesta e naturalmente candidata a ser rebaixada à quinta divisão. Contudo, apostou em um personagem: Sol Campbell. E se o ex-zagueiro já tinha vindo a público se manifestar sobre a falta de oportunidades como treinador, sobretudo pela falta de espaço aos técnicos negros, ele provou o seu talento logo no primeiro trabalho. Comandou a épica salvação dos Silkmen.

Campbell sabia que sua missão seria difícil. O veterano assumiu o time no final de novembro, ocupando a lanterna da League Two e com apenas sete pontos conquistados após 16 rodadas. O novo treinador somos 13 pontos nos oito compromissos seguintes e tirou a equipe da última colocação no Boxing Day. Até meados de janeiro, a salvação parecia palpável e o time ficou a um ponto de deixar o Z-2. O problema veio com uma nova sequência negativa que durou até março. Restando dez rodadas para o fim da campanha, o Macclesfield estava a seis pontos de fugir da degola. Pegou embalo. Só sofreu duas derrotas nesta reta final e o bom desempenho ratificou a salvação. Ainda em março o time já respirava na zona de salvação. E a festa definitiva aconteceu no sábado, com o empate por 0 a 0 contra o Cambridge United. Seguirão na quarta divisão.

“Por vezes, tivemos que escalar montanhas. Aconteceram situações frustrantes fora de campo, mas superamos. Os rapazes tentaram jogar futebol, mostraram tenacidade sob pressão, tiveram um desejo de vencer e provaram um grande caráter”, declarou Campbell, à BBC. “Quero começar a próxima temporada aqui e ter algum tipo de orçamento. Não tive orçamento nestes últimos meses. Precisei implorar, pedir emprestado e utilizar meus contatos. É brilhante não termos sido rebaixados, porque ficamos ameaçados por um longo tempo. Como técnico, foi um batismo de fogo. É ótimo passar por isso, porque todo mundo estava perdendo suas cabeças, mas seguindo o plano. Havia muita pressão sobre mim, também. Achei que ninguém quisesse o cargo quando assumi, mas coloquei meu máximo nele – meu coração, minha alma e meu espírito. Eu me comprometi, porque é isso que você precisa fazer no futebol. Amo o esporte e tudo ao seu redor, é minha vida”.

Com Sol Campbell, o Macclesfield Town acumulou 34 pontos em 27 partidas. Se não é o aproveitamento mais impressionante, ele vale demais a um clube de pretensões modestas. E o ex-zagueiro terá uma chance de realizar um trabalho mais sólido a partir da próxima temporada. Quem sabe, para ressaltar ainda mais sua capacidade na casamata. O lado triste da história fica para o rebaixamento do histórico Notts County, até então o clube profissional mais antigo do país, surgido em 1862. Fundadora do Campeonato Inglês, a agremiação possui 30 participações na elite, embora não aparecesse no primeiro nível desde 1992. De qualquer maneira, nunca havia deixado a Football League e se inserido em níveis semiprofissionais. Terá que se reconstruir na Conference.

* A história do Notts County, com mais detalhes, será lembrada em um post do It’s A Goal nas próximas horas.