A Copa da AFC, segundo torneio mais importante do futebol de clubes asiático, definiu o seu campeão nesta segunda-feira. E a decisão realizada em Kuala Lumpur, diante de apenas 500 testemunhas nas arquibancadas malaias, foi deveras peculiar. Clube do exército da Coreia do Norte, o 25 de Abril se tornou o segundo representante da história de seu país em uma final continental. Teria um adversário não menos controverso: os libaneses do Al-Ahed, de estreitas ligações com o Hezbollah. Ao final, a inédita conquista foi para Beirute. Com um jogador a mais desde o primeiro tempo, os árabes conquistaram a vitória por 1 a 0 e se tornaram o primeiro time de seu país com um título continental.

Criada em 2004, a Copa da AFC reúne o segundo escalão do futebol asiático e acontece paralelamente à Liga dos Campeões da Ásia. Diferentemente do que ocorre na Copa Sul-Americana ou na Liga Europa, os clubes que participam da “segunda divisão continental” não vêm de posições intermediárias em suas ligas nacionais. Enquanto a Champions Asiática se restringe às federações mais bem ranqueadas da região, a Copa da AFC inclui os países restantes. Assim, os concorrentes pelo troféu secundário não serão japoneses ou sauditas, e sim os campeões de nações como a Síria, o Vietnã, o Tajiquistão ou a Índia. Embora não seja a principal competição, a Copa da AFC é a mais plural.

Para facilitar a logística da Copa da AFC, os times se dividem conforme as organizações regionais da confederação asiática. Cada equipe nos mata-matas precisou se colocar entre os melhores de sua zona regional. Assim foi o caminho de Al-Ahed e 25 de Abril até a decisão. Os atuais campeões libaneses se impuseram contra adversários do Oriente Médio. Enfrentaram times de Bahrein, Kuwait, Omã e Jordânia para alcançar a final. Os norte-coreanos, por outro lado, pegaram um caminho que envolvia não apenas os representantes do Extremo Oriente, mas também da Ásia Central (antigas repúblicas soviéticas), do Sudeste Asiático (região tropical do Pacífico) e do Sul Asiático (ao redor do subcontinente indiano). A classificação incluiu vitórias sobre oponentes de Hong Kong, Taiwan, Bangladesh e Vietnã.

A decisão da Copa da AFC costuma ser dominada por clubes de países mais estabelecidos no futebol continental, sobretudo do Oriente Médio. Kuwait, Iraque, Jordânia e Síria são as únicas nações com mais de um título no torneio ao longo dos últimos 15 anos. Já o Líbano, nas únicas duas vezes em que havia chegado à final, fora derrotado. Nejmeh e Safa fracassaram na missão na década passada, em tempos nos quais a Copa da AFC ainda não tinha sua fase final regionalizada.

A Coreia do Norte, por sua vez, nunca tinha chegado tão longe no certame. A única final continental do país havia acontecido em 2014, na última edição da extinta Copa do Presidente, quando o Rimyongsu perdeu a decisão para os turcomenos do Asgabat. O torneio servia como uma espécie de “terceira divisão continental”, com clubes de federações do último escalão asiático. A partir de 2015, a competição seria absorvida pela própria Copa da AFC.

Desde 2009, a final da Copa da AFC passou a ser realizada em jogo único. A partir de 2015, com a atual fórmula do torneio, a decisão se reveza entre o campo do representante da Ásia Oriental e do representante do Oriente Médio. Desta vez, em teoria, o 25 de Abril teria o direito de definir o troféu em Pyongyang, no Estádio Kim Il-Sung – onde 5,5 mil pessoas viram a vitória na semifinal sobre o Hanói FC. A teoria, entretanto, logo caiu por terra. Após a confusão ocorrida no Coreia do Norte x Coreia do Sul pelas Eliminatórias da Copa, a AFC resolveu não cometer o mesmo erro. A entidade declarou sua preocupação em relação ao “televisionamento da partida e aos acordos comerciais”. Assim, em 22 de outubro, 20 dias após a classificação dos norte-coreanos, ficou decidido que o jogo não aconteceria em Pyongyang.

O novo palco da partida deveria ser Xangai. Deveria, porque de novo a AFC mudou de ideia, mas sem dar muitas explicações. Em 25 de outubro, veio o anúncio definitivo da realização do jogo em Kuala Lumpur, na Malásia – cidade onde também fica a sede da confederação. Além da mudança do local, a partida seria transferida de 2 de novembro, um sábado, para a segunda-feira seguinte. Neste momento, já estava claro que a entidade não estava tão interessada no sucesso comercial ou nas arquibancadas cheias, e sim no problema resolvido. Uma eventual transferência ao Líbano também se tornava inviável, diante dos massivos protestos nas ruas do país. As manifestações iniciadas em 17 de outubro, contra impostos planejados pelo governo, culminaram na queda do primeiro ministro.

Dentro ou fora de seu território, o 25 de Abril seria o fiel representante do governo da Coreia do Norte. Assim como em outros países comunistas, o esporte local baseia a sua estrutura nas organizações públicas. E a principal potência é fomentada pelo exército – assim como nas origens dos CSKA’s pela Europa ou do Steaua Bucareste. Seu próprio nome, geralmente simplificado como “4.25”, faz referência à data de criação de uma unidade armada popular na península coreana para combater a invasão japonesa a partir de 1932. Além disso, todos os seus atletas possuem o status de soldados.

Dono de 21 títulos no Campeonato Norte-Coreano, todos registrados a partir de 1985, o 25 de Abril também possui outras participações de destaque nos torneios continentais. Em tempos nos quais a Copa dos Campeões da Ásia não era tão restritiva, os norte-coreanos foram semifinalistas em 1990/91. Além disso, vinham de duas boas campanhas na própria Copa da AFC, derrotados apenas na decisão regional em 2018 – o equivalente à semifinal geral.

Desta vez, o 4.25 confirmou sua força na zona da Ásia Oriental com um ataque prolífico, capaz de anotar 24 gols em 10 partidas. O atacante Kim Yu-song, artilheiro da seleção local, vinha como o grande destaque. O título poderia não apenas justificar o apelo por um futebol ofensivo num país reconhecido por suas retrancas, mas também aumentaria os clamores por uma abertura aos clubes locais na AFC, em um momento de expansão da Champions Asiática.

Do outro lado, o Al-Ahed ascendeu a partir da década de 1980, refundado após a extinção de outro clube de futebol no subúrbio de Beirute, que cessou suas atividades durante a invasão israelense em 1982. Naquele mesmo momento histórico, o Hezbollah surgia como um grupo paramilitar xiita fomentado pelo governo iraniano, para combater o exército de Israel na região. Considerada terrorista por diferentes nações e entidades  (incluindo EUA, União Europeia, entre outros), a organização também possui seu braço político. O partido cresceu desde a década passada e, com o terceiro maior número de cadeiras no parlamento, foi um dos principais alvos dos protestos recentes realizados pela população libanesa.

Não há uma relação oficial entre o Al-Ahed e o Hezbollah, mas são várias ligações traçadas entre ambos. As cores são as mesmas, enquanto o clube traz o nome do principal periódico da organização. Patrocinadora da equipe, a rede de televisão Al-Manar é propriedade do Hezbollah. A população xiita também forma a base de torcedores do time. Além do mais, membros do Hezbollah ocupam posições diretivas no Al-Ahed e o secretário-geral do partido, Hassan Nasrallah, chegou a fazer discursos após os títulos recentes.

Campeão nacional pela primeira vez em 2008, o Al-Ahed conquistou sete títulos desde então e cedeu seis atletas à seleção libanesa que disputou a última Copa da Ásia. No entanto, clube mais popular do país, o Nejmeh já se recusou a enfrentar os rivais fora de casa, acusando uma intimidação do Hezbollah para a conquista de mais um troféu. A afirmação mais grave, ainda assim, aconteceu no último ano: em discurso na ONU, o primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu acusou o Hezbollah de esconder mísseis dentro do próprio estádio do Al-Ahed.

Diante das afirmações, o clube levou jornalistas e diplomatas para um tour pela praça esportiva, declarando que a denúncia não se sustentava. Apesar do clima nada amistoso, não foi isso que impediu os libaneses de baterem cartão na Copa da AFC durante os últimos anos e registrarem sua melhor campanha nesta edição, com apenas três gols sofridos em seus dez jogos até a decisão. Por questões de capacidade, o Al-Ahed não usou o estádio citado por Netanyahu.

Nesta segunda, por fim, a controversa partida aconteceu em Kuala Lumpur. Tanto 25 de Abril quanto Al-Ahed precisaram lidar com a falta de apoio no estádio. Entre as barreiras aos norte-coreanos que desejam deixar o país e o momento turbulento enfrentado pela população libanesa, as arquibancadas permaneceram às moscas. Mesmo os times precisavam encarar as intempéries. Em meio à temporada de chuvas no sudeste asiático, os jogadores encararam um clima ao qual não estão acostumados.

Já dentro de campo, o Al-Ahed provou sua superioridade. A equipe criou um bom número de chances durante o início da partida, parando nas defesas de An Tae-song. Porém, o goleiro norte-coreano seria expulso aos 26 minutos, ao cometer uma falta fora da área. Com um jogador a mais, os libaneses impuseram o seu domínio e, depois de um caminhão de chances desperdiçadas, anotaram o gol do título aos 29 do segundo tempo. Após o cruzamento da esquerda, o ganês Issah Yakubu anotou de cabeça o gol decisivo. Seria suficiente.

Depois do duelo, o goleiro Mehdi Khalil ganhou o prêmio de melhor jogador da Copa da AFC. Titular da seleção libanesa, ele não sofreu gols em 9 das 11 partidas ao longo da campanha. E a festa consagra o bom momento do futebol do Líbano. Após retornar à Copa da Ásia após 19 anos, com sua primeira classificação dentro de campo, o país também soma duas vitórias em três partidas nas Eliminatórias da Copa – curiosamente, derrotados apenas pela própria Coreia do Norte em Pyongyang, diante de 40 mil torcedores. O Al-Ahed oferece uma nova dimensão a esta ascensão, ainda que provoque contestações entre muitos torcedores no país e ainda mais entre a própria comunidade internacional. O feito durante os protestos, além do mais, é simbólico.