Já se sabe que o cansaço pela desgastante partida de volta das quartas de final da Liga Europa cobrou do Ajax um duro preço: a justa derrota por 2 a 0 para o PSV, no clássico da 32ª rodada do Campeonato Holandês. Já se sabe que o Feyenoord cumprira seu papel antes mesmo dessa partida: ao fazer 2 a 0 no Vitesse, o Stadionclub viu sua vantagem na liderança aumentar para quatro pontos. Uma vitória contra o Excelsior, em Roterdã mesmo (mas “fora de casa”, no estádio Woudestein), iniciará a festa que já é preparada: a explosão que deixa Het Legioen – como é chamada a torcida – insuportavelmente ansiosa, para celebrar o virtual título da Eredivisie e o fim do jejum de 18 anos.

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Mas… essa mistura de ansiedade e tensão é assunto para a próxima semana. Neste final de semana, os olhos de quem acompanha futebol na Holanda estarão voltados para De Kuip. Não para um jogo do Feyenoord, já que a liga terá uma pausa. Mas sim porque o mais tradicional estádio do país é a sede da final da Copa da Holanda, a ser disputada neste domingo. E disputarão a KNVB Beker dois clubes que podem, junto do Utrecht, ser considerados os melhores e mais sólidos exemplos do que é ser um clube “autossustentável” na Holanda: AZ e Vitesse.

Então os finalistas da copa holandesa são dois times tão elogiáveis quanto o Utrecht (já garantido na quarta posição da Eredivisie) vem sendo? Não necessariamente, pelo menos dentro de campo. Para começo de conversa, o AZ já viveu melhores momentos na primeira parte da temporada. Atualmente, a decepção com o estilo de jogo é clara – e o símbolo óbvio disso foi a vexatória eliminação para o Lyon na segunda fase da Liga Europa. Embora seja mais fraco do que os Gones, o time de Alkmaar também não é ridículo a ponto de tomar o 7 a 1 que tomou em Lyon, após o 4 a 1 já levado na ida.

Aliás, a goleada também foi a principal mostra da fragilidade da defesa dos Alkmaarders. Enfim emprestado a um time onde pode jogar e recuperar ritmo, Tim Krul começou tendo atuações temerárias – tomou 24 gols em seus primeiros nove jogos pelo clube – até melhorar. Tanto que ele foi o herói da classificação do AZ à final da Copa da Holanda, ao defender a cobrança decisiva (só podia ser…) na disputa de pênaltis ganha sobre o Cambuur – 3 a 2, após 0 a 0 nos 120 minutos. Porém, é justo dizer que Krul só foi tão vazado porque o miolo de zaga também caiu de produção no returno. Sofrendo de novo com lesões, Ron Vlaar tem se alternado com Rens van Eijden, na zaga, sem que isso traga segurança. Assim como na lateral direita, com o norueguês Jonas Svensson tomando a titularidade do sueco Mattias Johansson.

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Inclusive, não faltam boatos de que a relação entre o técnico John van den Brom e os principais diretores – leiam-se o diretor técnico Max Huiberts e o diretor geral Robert Eenhoorn – não anda em seus melhores momentos. Então, ora bolas, como o AZ pode estar bem? Explique-se: a situação financeira do clube está agradavelmente tranquila. A ponto de ter sido anunciada, na semana passada, a reaquisição do AFAS Stadion, estádio que fora cedido à AFAS (empresa eletrônica patrocinadora do clube). Pois a verdade é que o AZ esteve perigosamente perto de repetir a história de ascensão e queda meteóricas do Twente.

É possível se lembrar: na década passada, entre 2005 e 2009, o AZ foi patrocinado pelo banco DSB – cujo proprietário, Dirk Scheringa, foi o mecenas que impulsionou os Alkmaarders a façanhas como a semifinal da Copa Uefa em 2004/05 e, principalmente, o histórico título da Eredivisie em 2008/09. Porém, no mesmo ano da conquista, o DSB faliu, Scheringa obviamente deixou o clube, as turbulências entraram em campo (com participação muito ruim na fase de grupos da Liga dos Campeões e um mau trabalho de Ronald Koeman, técnico demitido poucos meses após chegar), e o cofre ficou vazio.

Aí deu-se a diferença que fez o AZ superar a crise em poucos anos. Ao invés de acreditar em planos mirabolantes, o clube baixou a cabeça e refez seu planejamento. Teve a sorte de fazer uma parceria menos dependente com um patrocinador. Vendeu aos poucos, e bem, os destaques do título de 2008/09 (Sergio Romero, Stijn Schaars, Moussa Dembélé, Mounir El Hamdaoui). Manteve um ideário tático que fez com que a equipe mantivesse uma regularidade dentro de campo – regularidade premiada com o título da Copa da Holanda, em 2012/13, marco da reação. Reorganizou o organograma e planejou melhor suas contratações – como indica a vinda de Billy Beane, o homem por trás da conhecida história com o Oakland Athletics que rendeu o livro “Moneyball”. Aprimorou ainda mais suas vendas, como indicam os 22 milhões de euros ganhos na transferência de Vincent Janssen para o Tottenham. Cuidou da base, com a revelação de gente como o promissor volante Derrick Luckassen. Bancou o trabalho de Van den Brom, a despeito das rusgas. Jogadores como o meio-campo Joris van Overeem e o atacante Wout Weghorst agradaram. Por isso, o AZ soube sobreviver à turbulência.

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Assim como o Vitesse fez. É verdade que a passagem do georgiano Merab Jordania como dono do clube, entre 2010 e 2013, foi uma faca de dois gumes: havia a ambição de fazer a equipe disputar o título holandês, mas era temerária a ligação de Jordania com o empresário russo Shalva Chigrinskiy – e de ambos com Roman Abramovich, dono do Chelsea. Se isso rendeu (e rende) um intercâmbio de jogadores dos Blues no Vites, também rendeu boatos controversos, como a suspeita de que o Chelsea não queria o Vitesse disputando o título holandês, para não correr risco de enfrentá-lo na Liga dos Campeões. Tal suspeita esteve por trás da polêmica demissão do técnico Fred Rutten, em 2013.

Depois de tal ano, as coisas ficaram mais claras. Jordania foi barrado do clube, dando lugar a Aleksander Chigrinskiy, irmão de Shalva. Joost de Wit, mais integrado ao futebol holandês, tornou-se o diretor geral do clube. Mais importante: seguiu a relação com o Chelsea, que possibilitou a vinda de jogadores como Bertrand Traoré a Arnhem. E na corda bamba em que viveu, o Vitesse conseguiu se equilibrar definitivamente, mantendo posições costumeiramente seguras na tabela. Mais: também manteve uma ideia tática clara. Ideia que foi implantada por Peter Bosz, que fez bom trabalho enquanto esteve no clube. E que foi aperfeiçoada por Henk Fräser, dando mais atenção à defesa, após a atuação decepcionante do técnico Rob Maas no returno da temporada passada.

O resultado disso tudo? Um time que conta com uma defesa mais sólida, tendo como destaques o goleiro curaçalino Eloy Room e o zagueiro georgiano Guram Kashia (capitão e ídolo da torcida). Que se beneficia dos empréstimos do Chelsea: o meio-campista inglês Lewis Baker é o segundo mais importante jogador do time aurinegro na temporada, e o brasileiro Nathan – também pertencente aos Blues – cresceu em seu novo empréstimo. Baker só não é mais importante por causa de uma contratação: Ricky van Wolfswinkel, cumprindo a expectativa de marcar gols num clube que conhece tão bem, e tendo o auxílio do albanês Milot Rashica.

Assim AZ e Vitesse têm a chance do título na Copa da Holanda – e fazem campanhas satisfatórias na Eredivisie, ficando na zona dos play-offs pela Liga Europa. Fizeram opções controversas, mas, no limite, souberam ficar com as boas consequências delas, tendo sobriedade para superar os momentos ruins.