Na Espanha, o futebol se alia ao combate do coronavírus também no campo tecnológico

O futebol espanhol permanece sem perspectivas de retorno a curto prazo. Nesta semana, o governo local freou a intenção de La Liga em realizar uma bateria de testes sobre os jogadores, o que permitiria retomar os treinamentos durante as próximas semanas. O Ministério da Saúde segue com a palavra final sobre as decisões, embora os próprios jogadores se opusessem à postura da Liga, avaliando que os esforços precisam se concentrar nos setores mais necessitados da sociedade. E, enquanto as atividades continuam suspensas, o próprio futebol (e a contestada La Liga) fornecem tecnologia para auxiliar no combate à COVID-19.

Uma das principais ações de La Liga em conjunto com as autoridades científicas está em ceder seu centro de processamento de dados à análise da pandemia. A sede da entidade conta com um ‘supercomputador’ que possui capacidade superior à de 4 mil aparelhos domésticos. O equipamento geralmente é usado para detectar transmissões piratas do torneio e também vídeos ilegais na internet. Contudo, durante a paralisação das disputas, a máquina está sendo aplicada a serviço da ciência.

Antes da crise, como a capacidade do supercomputador ficava ociosa em parte da semana, La Liga já emprestava o equipamento a universidades. Por exemplo, pesquisas sobre o câncer compilavam dados com auxílio da liga espanhola. A máquina também realizava simulações focadas em vírus e proteínas. Já neste momento, o centro de processamento de dados volta seus esforços ao coronavírus, em uma rede conjunta de trabalho ao lado de 700 mil pessoas e milhares de máquinas integradas.

Representantes de La Liga entraram em contato com a Escola de Medicina da Washington University, em St. Louis, e estabeleceram uma parceria com o Departamento de Bioquímica e Biofísica Molecular. “Em resumo, estamos tentando entender como todas as partes em movimento das proteínas do coronavírus contribuem para sua função. Isso identifica novas oportunidades terapêuticas, projeta novos tratamentos e envolve colaboradores para testar as simulações, através de experimentos em laboratório”, declarou George Bowman, professor da Washington University, em entrevista à ESPN americana.

O ‘supercomputador’ de La Liga também é 4 mil vezes maior que um desktop comum. A máquina funciona como milhares de computadores juntos. “Temos engenheiros e especialistas em TI, pessoas que conhecem o sistema tão bem. Eles pensaram que poderíamos lidar com outras questões, já que não temos jogos todos os dias”, contou Emilio Fernández del Castillo, chefe do setor tecnológico de La Liga, também à ESPN americana.

Neste momento, o supercomputador simula formas de ‘atingir’ o coronavírus, identificando pontos em que o tratamento pode ser mais efetivo. Os modelos buscam entender a superfície do vírus e a maneira como ele se liga às células humanas, mapeando a forma como ele se abre ao seu ‘ataque’. Até por isso, o projeto é chamado de ‘Demogorgon’, uma referência ao demônio recorrente na série Stranger Things. Como no seriado, o supercomputador de La Liga (ao lado dos demais computadores que integram a rede) tenta descobrir “a boca do monstro”.

“Estamos fazendo o possível para acelerar o desenvolvimento de tratamentos. Esperamos começar a enviar os trabalhos em breve e manteremos todos atualizados. Grandes progressos estão sendo feitos. Não podemos garantir o resultado ou a linha do tempo do nosso trabalho, mas já obtivemos sucesso em problemas relacionados ao Ebola. Estamos progredindo no entendimento do coronavírus e em breve compartilharemos informações sobre novas oportunidades terapêuticas”, complementa o professor Bowman.

E, se La Liga age com os cientistas, outra iniciativa que merece créditos é a encabeçada por Esteban Granero. Antiga promessa do Real Madrid, o meio-campista continua na ativa e tenta ajudar o Marbella a ascender a partir da terceira divisão. No entanto, a vida do veterano não se resume ao futebol. Formado em psicologia e leitor voraz, Granero também fundou sua empresa de Inteligência Artificial. A princípio, a companhia deve atuar na análise de dados para o futebol. Ainda assim, possui capacidade para estudar os números na área da saúde e também ajuda a mapear a pandemia na Espanha, sobretudo para prever o número de infectados e antecipar necessidades de equipamentos.

“Criamos um modelo que estima e prevê o número de casos, ao mesmo tempo que acompanha a evolução dos dados. Isso nos permite antecipar os potenciais problemas na mobilização de recursos. Ele prevê, por exemplo, em quais regiões precisaremos de máscaras e respiradores, podendo antecipar o fornecimento. O modelo também pode simular as medidas de distanciamento, as mudanças nas regras do isolamento, prever tendências e ajudar a impedir uma segunda onda”, declarou Granero, ao jornal The Guardian.

Mesmo ainda com a rotina de atleta, Granero também atua como chefe-executivo da Olocip, sua empresa de tecnologia. Durante a formação de sua companhia, o meio-campista entrou em contato com professores de Inteligência Artificial na Universidad Politécnica de Madrid para auxiliar em sua nova empreitada. Segundo o veterano, eles trabalharam com um sistema de análise de dados baseado em modelos médicos, mas para ser aplicado dentro do futebol. Podem apontar não apenas questões ligadas a lesões, mas recomendações ao próprio sistema de contratações e análise de desempenho.

“Ao longo da minha carreira, via as informações serem coletadas, como eram analisadas e usadas. Isso era bastante deficiente. Algumas decisões eram tomadas de maneira arbitrária e pensei que deveria haver um meio de produzir análises que não fossem apenas descritivas, mas que previssem a situação”, afirmou Granero, ao Guardian. “O principal erro na análise descritiva é que ela não responde a pergunta que o clube realmente está fazendo. Se você quer contratar um jogador, está mais interessado em como ele funcionará no time do que no que fez antes. Aplicar os dados para prever é um grande salto. Fazemos ferramentas para fortalecer os especialistas. Sempre dizemos que humanos e máquinas juntos são muito mais fortes”.

Há algumas semanas, Granero recebeu o convite de um amigo para fazer parte da plataforma ‘Stop Corona’. O mecanismo serve para ajudar a prever a evolução do vírus. Assim, o meio-campista está fornecendo o seu modelo de análise de dados gratuitamente a equipes científicas e médicas. O apoio se iniciou desde que a Espanha anunciou seu estado de emergência.

“Pensamos que tínhamos as ferramentas para ajudar e que era nossa responsabilidade contribuir. Há vidas em jogo. Os números oficiais podem confundir as coisas. Quando há um déficit evidente no número de testes e tantas pessoas que pegaram o vírus não foram examinadas, sabe-se que este não é o número real. É a realidade diagnóstica, não a verdadeira medida das pessoas com vírus. O número real pode ser estimado por um modelo como o nosso”.

Segundo Granero, o modelo concluiu que o estado de emergência na Espanha foi anunciado mais tarde do que deveria. Se acontecesse mais cedo, a curva seria menor e a recuperação das atividades aconteceria em menos tempo. Em compensação, um retardamento seria ainda mais catastrófico ao sistema de saúde espanhol. Neste momento, os esforços se concentram em melhorar as ações diante do atual cenário.

“Nosso pessoal é especialista em seu campo, cientistas de prestígio, e não estamos brincando com isso. Os dados não são lei: são analisados e interpretados por médicos, epidemiologistas, matemáticos. Não podemos tomar decisões, o que podemos fazer é garantir que o modelo seja absolutamente confiável para ajudar os médicos, enfermeiras e equipes médicas na linha de frente, que se colocam em risco todos os dias. Eles são os heróis. O mínimo que podemos fazer é nos colocar à disposição deles, dar o que for possível”, concluiu o veterano.

Atualmente, a Espanha possui 219 mil casos de coronavírus registrados e 104 mil ativos. Mais de 22 mil pessoas morreram no país. Embora as curvas desacelerem, os números diários ainda são altos, se comparados com outros países. De quinta para sexta, mais de 6,7 mil pacientes testaram positivo na Espanha e 367 faleceram. O futebol, ao menos, pode contribuir apresentando caminhos para evitar um impacto ainda maior.

Graças ao seu apoio, as colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta e esta é a Olé, com informações e análises sobre o futebol espanhol. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas.