Emoções acirradas, frases prontas, dificuldade para se concentrar. Joseph Blatter deu ao jornal holandês De Volkskrant a entrevista mais sincera desde que anunciou que entregaria o mandato. Depois de tudo que aconteceu, deixou de lado a postura elegante, auto-confiante e arrogante. Falou com rancor de Michel Platini, dos americanos e, principalmente, deixou transparecer que teme o dia seguinte à escolha do seu sucessor, após 41 anos envolvido com patrocinadores, dirigentes e a política interna da Fifa.

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Blatter sente-se traído pro Platini, mas não é de agora. Acolheu o francês na Fifa durante quatro anos, depois da Copa do Mundo de 1998, e o ajudou a ser eleito presidente da Uefa. As rusgas começaram com um desaforo na Eurocopa de 2008. “Quando ele foi eleito, ainda éramos melhores amigos. Pouco depois, em 2008, não era mais o caso. Na cerimônia de abertura na Suíça, eu conversei brevemente com o presidente suíço Couchepin, que eu conhecia. Ele disse: ‘Eu o vejo na partida’. Mas aconteceu que eu fui colocado a oito lugares do centro, longe dele. O presidente da Fifa foi posto de lado, simplesmente posto de lado”, afirmou.

Durante o congresso que terminou com sua reeleição, dias depois do FBI invadir um hotel suíço para prender dirigentes da Fifa, Platini pediu que Blatter cancelasse as eleições. Veio a ameaça de bomba, que o presidente ainda não consegue explicar direito, tanto que se atrapalhou na resposta. Deixou a entender que suspeita que ela tenha vindo da Uefa, tanto que a sua assessora teve que fazer a primeira intervenção para deixar claro: “O senhor Blatter não disse que a Uefa estava por trás da ameaça de bomba”.

Algo abalou ainda mais Blatter naquele dia. A sua família estava no congresso para apoiá-lo, e seu irmão Peter, de 80 anos, foi intimidado por Platini, segundo fontes do jornal e o próprio suíço. “Eu cruzei com ele (Peter) durante o almoço no congresso. Eu perguntei: ‘O que aconteceu?’. E disse: ‘Não fique triste. Vou vencer. Não sei por quantos votos, mas vou vencer essas eleições. De jeito nenhum vou perder para aquele príncipe.’ Meu irmão não disse uma palavra. Foi apenas depois das eleições que eu fiquei sabendo do que aconteceu. Durante o almoço, Platini sentou-se na mesa do meu irmão e disse: ‘Diga para Sepp desistir da eleição ou ele vai para a prisão’.”

Blatter garante que não foi a pressão de Platini que o fez entregar o mandato pouco depois de ser reeleito. Também não dirá o que aconteceu durante aqueles quatro dias que o fez mudar de ideia, enquanto for presidente da Fifa. “Eu fiz isso para proteger a instituição e minha família dos ataques contra a Fifa, não para me proteger. Não preciso de ajuda para a minha integridade pessoal”, afirmou. Um desses ataques foi a caracterização da procuradora-geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, de que a Fifa parece a Máfia.

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Blatter não confia nos americanos. Quer saber por que as prisões aconteceram na semana das eleições, embora seja óbvio que o FBI queria aproveitar o momento em que os olhos do mundo estivessem voltados para a Fifa e, de maneira mais prática, em que os principais dirigentes da entidade estivessem em um lugar só. “Me ajude a descobrir a verdade”, disse ao repórter, pontuando cada palavra com um tapa na própria perna.

Blatter diz que não há mandato de prisão contra ele, sequer uma investigação, mas ainda assim, ele não se sente confortável para viajar a países onde os Estados Unidos exercem influência. “Algumas semanas atrás, prenderam um banqueiro suíço na Itália, e 24 horas depois, ele estava em Miami. Não sabemos o que acontece nos bastidores. Então, não vou a lugar nenhum. O sistema funciona de tal maneira que alguém pode ser interrogado se visitar um país onde os americanos são influentes”, disse. Curioso ver Blatter com medo do sistema.

A entrevista termina com Blatter falando sobre o futuro. “O que fará em 27 de fevereiro, o primeiro dia depois da sua passagem pela Fifa?”, perguntou o repórter. “O dia 27 de fevereiro está longe, muito, muito, muito longe”, respondeu. “Não estou nos meus últimos meses. Espero que eu não tenha que ir embora ainda (e a aponta para o céu). Não, não, não, não. Eu recebi permissão para falar diretamente com o papa”, afirma, confuso.

O repórter lembra que Blatter disse que sua mãe havia ligado do céu pedindo para que ele se juntasse a ela. “Minha hora ainda não chegou. Ela estava errada. 41 anos. 41 anos com a Fifa. Nunca há total liberdade quando você esteve em uma organização durante 41 anos. O jogo é minha paixão e eu não posso abandonar o futebol. Futebol é mais do que um jogo. É uma filosofia de vida. Mas eu vou finalmente poder aproveitar minha vida privada. Em um negócio, um pai pode passar sua empresa para o seu filho. Na Fifa, é impossível. Não sei o que vai acontecer com meu legado”. E Blatter talvez tenha mais medo de como será lembrado nos livros de história do que da rotina que terá uma vez que seja afastado do poder.

Traduzimos os principais trechos, mas a conversa inteira, em inglês, pode ser lida aqui.

VEJA NOSSA COBERTURA DO FIFAGATE.