A Copa do Mundo, por enquanto, é das defesas bem armadas. A arte de se proteger em bloco e não deixar os adversários terem respiro dentro da área. E, por isso mesmo, também das bolas paradas, uma maneira de desmontar os sistemas defensivos (ainda que rearranjados de outras maneiras) e buscar uma brecha, que seja, no caminho das redes. Há recordes de pênaltis, de gols de falta, até mesmo de gols contra – muito fruto dos espaços reduzidos. Por isso mesmo, enche os olhos ver uma jogada bem trabalhada com a bola rolando, que termine lá, na caixa. É o que aconteceu em Austrália x Dinamarca. Coletivamente, o tento de Christian Eriksen serve de colírio – num empate por 1 a 1 no qual os escandinavos não foram muito além disso, é bem verdade.

O lance começa em uma cobrança de lateral, tudo bem. Enquanto Thomas Delaney briga pela bola, Aaron Mooy só consegue afastar parcialmente. E o Mundial também vê a valia enorme nesta “segunda bola” – o rebote ofensivo que, em um paralelo com as quadras, faz uma diferença danada no basquete e pode ser ainda mais em um esporte de placares baixos, como o futebol. Lasse Schöne põe o corpo à frente do adversário e ganha uma disputa fundamental. Então é que realmente começa a beleza.

Outro ponto fundamental da Copa está no comando do ataque. Para encarar os paredões, os centroavantes precisam ir além de seu “papel tradicional”, de mandar a bola para dentro. Os homens de referência se destacam pelo bom posicionamento e pela capacidade de decidir em um toque, claro. Mas têm sido imprescindíveis ao atuarem de costas para o gol, fazendo a proteção contra os defensores, achando espaços, dando passes açucarados. É o que Nicolai Jörgensen conseguiu. Fez um domínio difícil e, ao puxar dois marcadores, demonstrou sua destreza e sua visão. Um passe com a parte de fora do pé, sem olhar para o lado, mas já sabendo que Christian Eriksen chegaria por ali. Uma assistência fenomenal, complementada pela finalização plástica do camisa 10. Peito do pé na bola, um míssil em linha reta, sem nem dar tempo de reação ao goleiro. Redes estufadas.

A liberdade de Eriksen no lance, aliás, faz toda a diferença. O craque estava na ponta esquerda, para receber o lateral. Transita entre as linhas sem chamar atenção e, quando Jörgensen prepara o passe, já se projeta ao centro da área para arrematar. O camisa 10 tem sido letal e essencial na seleção dinamarquesa pela maneira como se apresenta para concluir. Os 17 gols nos últimos 20 jogos com a equipe nacional só ressaltam isso.