Uma das principais características das torcidas na Alemanha é o seu alto grau de mobilização. O preço dos ingressos relativamente baixo em relação aos demais países da Europa Ocidental e os setores populares (sobretudo sem cadeiras) são um reflexo sobre a maneira como os torcedores têm voz, apesar das brigas ferrenhas com a DFB (a federação alemã) e a DFL (a liga responsável pelas três primeiras divisões). Já nesta semana, as torcidas resolveram se unir e usar seu silêncio como ferramenta de protesto àquilo que vem acontecendo nas competições nacionais. Nas três primeiras divisões do Campeonato Alemão, os três níveis profissionais da Bundesliga, os frequentadores dos estádios reclamam dos privilégios dados à televisão. Criaram um “dia nacional” para se manifestar contra a comercialização do futebol e a prioridade dada aos interesses da televisão, sobretudo aos vários horários de jogos e à realização de partidas da liga na segunda-feira.

Os protestos aconteceram entre terça e quarta, em diferentes estádios do país. Ao longo de 20 minutos, o silêncio prevaleceu nas tribunas, especialmente entre os ultras. Onde a adesão ocorreu, as torcidas sequer fizeram questão de comemorar os gols. Ficou marcada a intenção de se fazer ouvir através da falta de voz. Em vários estádios, era possível ler o lema da campanha: “Vocês irão ouvir de nós – ou não”. Além disso, diferentes pautas entraram nas faixas de protesto. Há cerca de um mês, a DFB tinha uma reunião marcada com os representantes dos torcedores, mas o encontro foi cancelado pelas próprias torcidas, insatisfeitas por não serem ouvidas em imposições recentes, como a criação de um novo horário de jogos às segundas-feiras para a primeira divisão.

A associação de torcidas, inclusive, soltou um comunicado esclarecendo sua postura, após reuniões realizadas com diferentes grupos: “Continuamos a defender os valores básicos do futebol e outros elementos que alienam o esporte ao redor da corrupção, da barganha de dirigentes e da comercialização. Nós percebemos mais do que nunca nossa responsabilidade de nos levantar contra a DFB e a DFL, através de dezenas de milhares de torcedores nas arquibancadas pelo país. Os e-mails vazados do presidente da federação mostraram que estávamos certos em encerrar o diálogo. Entretanto, esta renúncia se refere apenas às conversas, mas não à nossa luta fundamental por outro futebol. Um futebol baseado nos torcedores, não na espiral sempre buscando novas direções. Focando nos aficionados, não apenas olhando em investidores e grande dinheiro. Quando as preocupações não são ouvidas nas conversas, nós as apresentamos novamente, onde não podemos ser ignorados: nos estádios”.

Enquanto isso, faixas com os mais variados assuntos tomaram as tribunas. “O futebol é para você e para mim, não para a merda da TV a cabo” e “Parem com a fragmentação das rodadas” eram as mensagens no Weserstadion, casa do Werder Bremen, onde também surgiam cartazes de televisões quebradas por uma bola. “Queridos oficiais da DFB, garantimos a vocês a proibição de entrarem em todos os prédios na sede do clube, assim como em todos os eventos do Bayern no estádio” pontuavam na Allianz Arena, em um papel timbrado gigante direcionado à federação. Também levantaram várias faixas em que sinalizavam as limitações impostas pela entidade. Já em Düsseldorf, as torcidas vizinhas de Fortuna e Bayer Leverkusen se uniram na manifestação, com direito a show pirotécnico para deixar tudo mais evidente. “O protesto não é direcionado ao time, mas sim à federação. A DFB poderia usar esse debate para mostrar sua boa vontade com o público, mas não está preocupada com os interesses dos torcedores. A demolição é consistente”, declararam os anfitriões, que também direcionaram sua insatisfação à arbitrariedade da polícia.

Em Hannover, a torcida do time da casa repetiu o que já havia feito em toda a temporada passada, quando os protestos silenciosos se direcionavam a Martin Kind – empresário que, por possuir ações do clube há mais de duas décadas, desejava romper as regras da liga e controlar a instituição. O barulho voltou na atual campanha da Bundesliga, mas os torcedores aderiram ao movimento nacional. “Com as rodadas de sexta a segunda, com 15 horários diferentes de jogos, chegamos a um ponto em que o futebol perdeu o equilíbrio entre esporte e negócio”, dizia uma das faixas. Além disso, também aconteceram manifestações contra movimentos neo-nazistas e extremistas no estádio. Já a torcida do Borussia Mönchengladbach não fez 20 minutos de silêncio, mas preferiu entoar durante estes 20 minutos músicas de protesto.

Em Leipzig, a torcida do RasenBallsport não integrou o movimento nacional. Visitantes no estádio, os ultras do Stuttgart se manifestaram também contra a Red Bull, acusando a companhia de burlar a regra “50+1”, em que nenhuma companhia pode se tornar acionista majoritária de um clube. A torcida do Eintracht Frankfurt não participou dos encontros nacionais de torcidas e, por isso, se manteve alheia aos acontecimentos gerais. Já os ultras do Magdeburgo, que estiveram nas reuniões entre torcedores, optaram por não protestar, ao avaliarem que algumas ideias mais radicais poderiam não estar em conformidade com os demais torcedores que frequentam os estádios. Segundo eles, seria um sinal de seu descontentamento com os rumos dos posicionamentos, por mais que eles concordem que a luta pelos interesses e a solidariedade entre torcidas seja necessária.

Movimentos em conjunto envolvendo as torcidas na Alemanha não são novos. Os protestos são costumeiros, contrapondo principalmente a DFB e a DFL. Em 2012, por exemplo, a insatisfação era contra a diminuição dos setores visitantes nos estádios. Já na rodada do final de semana, diferentes estádios apresentaram faixas contra a candidatura da Alemanha à Euro 2024. “Unidos pelo dinheiro, corruptos no coração da Europa”, dizia boa parte das faixas, parodiando o lema da DFB em sua proposta para receber o torneio continental. A insatisfação se dá com as prioridades diferentes entre torcedores e federação. Ao todo, 17 torcidas de clubes diferentes se uniram nesta manifestação, sobretudo nas divisões de acesso.

A queda de braço entre torcidas e entidades na Alemanha acaba sendo mais ampla. Há uma preocupação sobre a maneira como a Bundesliga vem perdendo terreno no mercado em relação a outros campeonatos nacionais, como a Premier League. O interesse maior da federação e da liga é alavancar as receitas de diferentes maneiras. Enquanto isso, os torcedores veem os seus direitos como prioridade no futebol, acima da comercialização. Entre manter a atmosfera nas arquibancadas e ver um investimento maior nas equipes, o conflito é evidente.