Em 28 de abril de 1945, a Itália já tinha sido conquistada pelos Aliados. Um passo fundamental para a derrocada do Eixo na Segunda Guerra Mundial, que teve um ato bastante simbólico naquele dia. Capturado na véspera, Benito Mussolini foi executado pelos partisans comunistas, segundo a história oficial, e teve seu corpo exposto em praça pública. Há exatos 70 anos, os italianos definitivamente não precisavam mais temer a figura de Il Duce ou os anos de repressão e sangue impostos pelo fascismo.

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Mussolini permaneceu no topo do poder na Itália de 1922, quando assumiu como Primeiro Ministro, até 1943, destituído e preso pela monarquia. Durante estes 21 anos, o Duce interferiu em todos os setores da sociedade italiana, inclusive no futebol. E se a história mais lembrada é sobre a forma como o líder se aproveitou do bicampeonato mundial da Azzurra para promover o seu regime ditatorial ao mundo, antes disso ele tentou relegar o futebol na Itália à pequenez.

Mussolini desaprovava as raízes inglesas do esporte e tentou impor uma modalidade genuinamente nacional: a Volata, inspirada no medieval Calcio Fiorentino. Apesar da propaganda do regime e da filiação de mais de 100 times à liga nacional, a Volata deixou de ser apoiada pelos fascistas em 1933 e teve seu campeonato extinto em 1939.

A origem de gigantes italianos no fascismo
Mussolini joga bola em Roma, em 1930
Mussolini joga bola em Roma, em 1930

Ainda nos anos 1920, Mussolini percebeu que seria impossível acabar com a paixão dos italianos pelo futebol. E, por mais que não fosse exatamente um grande fã da modalidade, tentou usá-la a seu favor, obviamente. Durante o final da década, o regime lançou suas mãos sobre a Prima Divisione. Seu projeto visava criar um campeonato verdadeiramente nacional, com clubes de várias regiões, e não concentrado em apenas algumas cidades do norte do país. Assim, as mensagens do fascismo poderiam se espalhar com mais facilidade a toda a Itália.

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Então, o regime passou a agir sobre os próprios clubes de cidades estratégicas. A fusão de Naples e Internazionale-Naples criou o atual Napoli em 1926, mesmo ano em que Firenze e Libertas deram origem à Fiorentina. Porém, o processo mais intenso aconteceu em Roma. Na época, a capital possuía quatro equipes competitivas, mas sem se aproximar do nível das principais forças nacionais. De início, pensou-se em unir todas elas, antes de manterem o dualismo comum em Milão ou Turim. Torcedor e dirigente do clube, o general Giorgio Vaccaro ajudou a preservar a Lazio, clube romano mais popular da época. Já Alba Audace, Fortitudo e Roman se fundiram para originar a Roma em 1927. Na foto que abre o texto, inclusive, Mussolini aparece nas arquibancadas assistindo ao segundo Dérbi da Capital da história.

Mesmo os clubes mais tradicionais sofreram com a interferência do fascismo. A Internazionale tinha dois títulos nacionais quando passou pelas mudanças. Primeiramente sobre o nome “estrangeiro”, transformada em Ambrosiana. Além disso, pela própria absorção da US Milanese, terceira força de Milão na época e primeira rival do Milan. Uma união abençoada pelo secretário do partido fascista e que rendeu o primeiro título logo na temporada seguinte. Em 1945, com o fim da Segunda Guerra, a Inter recuperou o seu nome original, enquanto a Milanese tentou ressurgir como uma equipe independente, sem sucesso. Já em Gênova, a rival do Genoa passou a ser a Dominante, reunindo Andrea Doria, Sampdierdarenese e Corniglianese – que depois se separaram e, as duas primeiras, criaram a Sampdoria em 1946.

A criação do campeonato nacional, a Serie A


Depois da reestruturação dos clubes, o grande passo do regime de Mussolini no futebol aconteceu em 1929/30. Naquele ano, surgiu a Serie A: o Campeonato Italiano deixou de ser regionalizado (como era desde 1905, com diferentes formatos ao longo dos anos) para ganhar o formato atual, com uma primeira divisão nacional em pontos corridos. A deixa também para que várias agremiações, especialmente do norte do país, desaparecessem. Ao longo de mais de três décadas, o futebol tinha se disseminado por cidades industriais e portuárias, com diversas equipes locais – Milão já tinha sido representada por nove times no campeonato; Turim, por oito. Equipes reduzidas drasticamente a partir dos anos 1920, sob a influência dos fascistas.

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Na década de 1930, somente Milão, Turim, Roma e Gênova contaram com mais de um time na primeira divisão – e nenhuma cidade teve mais de dois representantes na elite durante o fascismo. Se em 1929/30 os únicos times do centro-sul eram Livorno, Roma, Lazio e Napoli, a partir de então outros clubes começaram a disputar a elite com frequência, como Palermo, Bari, Fiorentina e Lucchese. Por outro lado, a concentração de clubes nas regiões de Piemonte e Lombardia (de Turim e Milão) diminuiu de maneira significativa. Agremiações como o Pro Vercelli (dono de sete títulos nacionais até 1922) e Casale nunca mais apareceram na Serie A.

O novo campeonato também facilitava o projeto do regime de Mussolini em relação à Azzurra. O fascismo buscava sediar a Copa do Mundo desde 1930, boicotando a primeira edição pela negativa da Fifa e recebendo o torneio quatro anos depois. A Serie A nacional dava sua contribuição na formação da seleção, com uma elite de jogadores mais concentrada e baseada em poucos clubes. Além disso, a abertura de portas aos oriundi (jogadores nascidos em outros países, mas com ascendência italiana) tornou a equipe de Vittorio Pozzo ainda mais forte.

O futebol italiano chega ao topo do mundo

azzurra

Em 1934, com atletas cedidos por oito clubes da Serie A, em especial a Juventus, a Azzurra conquistou o Mundial. Uma campanha que recebeu atenção especial de Mussolini. Já em novembro daquele ano, Il Duce desprendeu atenção especial sobre o amistoso contra a Inglaterra, que definiria o “verdadeiro campeão do mundo”. O ditador ofereceu um Alfa Romeu a cada jogador pela vitória e pediu informes constantes sobre o jogo durante sua viagem à Suíça. Contudo, os italianos por muito pouco perderam a chance da vitória inédita sobre os “pais do futebol”: em uma partida violentíssima que ficou conhecida como a Batalha de Highbury, a Azzurra buscou os 3 a 2 no placar, após sofrer três gols em 12 minutos.

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Àquela altura, o futebol já atendia as demandas de Mussolini. E a consolidação aconteceu em 1938, com o bicampeonato mundial na França – quando o ditador enviou seu famoso telegrama “Vincere o morire!” ao capitão Giuseppe Meazza, antes da decisão contra a Hungria. Com a iminência da Segunda Guerra Mundial, o Duce passou a se preocupar mais com os assuntos militares. Mesmo assim, seu regime teria interferido por uma última vez no futebol, no penúltimo Scudetto antes que a Serie A fosse interrompida pelo conflito. Existem rumores de que a ditadura teria beneficiado a Roma em seu primeiro título nacional, em 1941/42, através das arbitragens. Por mais que Mussolini tivesse sua imagem ligada à Lazio, da qual se tornou sócio em 1929, a vitória da Roma seria importante em um momento no qual a Itália definhava na guerra: evocaria o mito do Império Romano. Em vão.

A derrocada de Mussolini e da Itália fascista na Segunda Guerra, indiretamente, influenciou o surgimento de duas potências do Leste Europeu. Algumas das principais derrotas italianas aconteceram na futura Iugoslávia, onde a resistência era comandada por Josip Broz Tito. Duas importantes organizações militares locais deram origem ao Partizan Belgrado e ao Estrela Vermelha no pós-guerra. Já na Itália, o fim do fascismo significou maiores liberdades aos clubes locais, que desfrutaram de uma significativa abertura de fronteiras a partir da década de 1950, longe das amarras do nacionalismo. Ainda que a estrutura dos times em si e a distribuição de forças pelas cidades do próprio país ainda continuem correspondendo às determinações do Duce durante seu poder.

O abandono do antigo estádio da glória de Mussolini

Durante a Copa de 1934, cinco dos oito estádios traziam em seu nome os símbolos do regime fascista. Em Turim, o atual Estádio Olímpico tinha sido inaugurado como Estádio Benito Mussolini. Porém, o principal palco era o Estádio do Partido Nacional Fascista, que recebeu a estreia da Azzurra e a consagrou na final contra a Tchecoslováquia. Permaneceu como casa do futebol na capital até a reforma do Estádio Olímpico em 1953.

O Estádio do PNF voltou ao seu nome original, Estádio Nazionale, em 1945 e acabou homenageando o Torino logo após o Desastre de Superga, quatro anos depois. Já em 1957, o governo demoliu o local para construir o atual Estádio Flaminio, um dos palcos das Olimpíadas de 1960. Um local, de certa maneira, assombrado por seu passado. Utilizado esporadicamente por Roma e Lazio, o Flaminio era mais frequentemente usado para shows e de jogos da seleção italiana de rúgbi. Entretanto, uma disputa envolvendo políticos e dirigentes fez a federação de rúgbi abandonar o estádio. Atualmente é administrado pela federação de futebol, embora abandonado na prática (alvo de protestos dos moradores da capital há um mês) e com planos de reforma que não saem do papel.

flaminio