Luiz Guilherme Conceição Silva tem 29 anos se tornou um ídolo na China, ganhando títulos, marcando gols e entrando para a história do futebol daquele país. Jogou um Mundial e é uma das estrelas do futebol da Ásia. Atualmente, ele divide os holofotes com um espanhol recheado de títulos e que jogou pelo Barcelona. Mas por lá, Luiz Guilherme, ou Muriqui, como é conhecido, é quem tem o histórico de conquistas. Chegou como estrela e tenta levar o Al Sadd, seu atual clube, a ter um pouco do sucesso que teve pelo Guangzhou Evergrande, na China.

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A história de Muriqui na China começou há cinco anos, quando deixou o Atlético Mineiro, desacreditado, para se aventurar na segunda divisão da China. Uma aventura que, ele admite, poucos fariam. O Guangzhou Evergrande tinha sido rebaixado à segunda divisão em 2009, depois de um escândalo de manipulação de resultados que levou seus donos à cadeia e colocou o clube à venda. O grupo que comprou o clube, uma empresa do ramo imobiliário, contratou diversos jogadores, entre eles Muriqui. Ali começou uma história que o tornaria ídolo.

Além do título chinês da segunda divisão, Muriqui ajudou o Guangzhou Evergrande a ganhar o tricampeonato consecutivo da primeira divisão, em 2011, 2012, 2013, depois conquistar a Champions League da Ásia, em 2013. Chegou a ser o maior artilheiro da história do clube, antes de ser ultrapassado por Elkeson. Foram 78 gols marcados pelo clube, o que também ajuda a entender o tamanho da idolatria do brasileiro. Em junho de 2014, o Al Sadd, do Catar, o contratou por US$ 8 milhões. Na atual temporada, Muriqui tem oito gols e é o artilheiro do clube no Campeonato Catariano. O Al Sadd é o terceiro colocado, seis pontos atrás do líder Al Rayyan.

Muriqui falou em entrevista exclusiva à Trivela sobre a vida no Catar, diferenças para a China, como se tornou ídolo no clube chinês e sobre a Copa do Mundo de 2022, que será no país do Oriente Médio – embora haja muita pressão para tirar de lá. Confira a entrevista com Muriqui:

Trivela: Você se tornou ídolo e artilheiro no Guangzhou. O que você acha que te ajudou a fazer sucesso?

Muriqui: Primeiro foi eu ter chegado à equipe na segunda divisão. Nenhum jogador iria para a segunda divisão da China, ninguém nem conhecia. Eu mesmo não conhecia. Hoje talvez seja mais conhecido, mas aquela época, quatro, cinco anos atrás, era difícil e eu fui. Acredito que eu ter chegado ainda na segunda divisão e ser o primeiro jogador contratado pela empresa, somado com boas atuações dentro de campo, fez com que eu tivesse uma identificação grande com a torcida.

Os chineses tinham uma certa obsessão com a Champions League da Ásia e você esteve lá quando o time foi campeão pela primeira vez, em 2013. Como é essa relação? Parece com a relação dos clubes brasileiros com a Libertadores?

Sim, é parecido mesmo. É a principal competição do continente, é muito importante. Eles tinham um projeto para vencer em cinco anos e eles conseguiram em quatro anos, três anos e meio. É bem parecido com a importância que os brasileiros dão para a Libertadores, é a competição que todo mundo quer ganhar.

O que foi mais difícil na Champions da Ásia?

O primeiro ano foi o mais difícil, já sofremos na primeira fase, passamos, mas caímos nas quartas de finais. Foi um ano de aprendizado. No ano seguinte, com mais experiência, já conhecendo como era, conseguimos ser campeões. O primeiro ano foi difícil para se adaptar, nunca ter jogado.

É mais difícil morar no Catar ou na China?

No Catar eu aproveito mais a minha vida com a família. Como é um país pequeno, não tem muitas viagens. Exceto quando jogamos a Champions League da Ásia, quando fazemos viagens de duas ou três horas. A China, por ser um país muito grande, tem mais viagens, as cidades são mais distantes. Guangzhou é uma cidade ótima pra viver, tem muita coisa para fazer, restaurantes.

De costumes, o que foi mais difícil?

Achei que seria mais difícil, fusos horários diferentes, comida diferente, primeira vez jogando fora do país, achei que seria bem complicado, mas me adaptei muito bem. Quando vim para o Oriente Médio, estava bem calejado, aí foi mais fácil.

Qual é a diferença técnica entre a liga da China e do Catar?

A China é mais forte, é bem mais forte. Aqui é mais difícil de jogar. Eles colocam 10 caras lá atrás, até fazer o primeiro gol, você pena. Os jogos são muito mais complicados, temos que enfrentar todos os jogadores atrás da linha da bola. Para os times médios ou pequenos, se conseguir um empate, parece que já está bom. É complicado por isso, eles abdicam de jogar. É mais difícil para jogar, ainda mais para quem joga no ataque. Na China, o nível técnico é melhor, eles deixam jogar, e por isso acho que os jogos são mais abertos.

Como é jogar com Xavi?

Ele me surpreendeu muito. É um jogador que dispensa comentários, tecnicamente. Venceu praticamente todas as competições que disputou, é consagrado. Fiquei feliz em trabalhar com um cara vencedor como ele. Dá para aprender muito com ele. Fora de campo, é extremamente humilde, educado, respeitador. É um exemplo.

Você assumiu a camisa 9 e está jogando como referência do time, enquanto no Guangzhou você atuava mais pelos lados. Como está sendo isso?

Aqui realmente estou jogando de centroavante, de 9, algo que nunca fiz na vida. É mais difícil, mas é tudo questão de adaptação. Nós só podemos ter três estrangeiros e o cara que chega mais próximo de jogar na frente sou eu. O treinador pediu para fazer essa função. Falei que ele não era minha posição, não me sentia confortável, mas ele me pediu para jogar ali e estou me adaptando, estou conseguindo fazer os gols.

No Al Sadd, você é o artilheiro do time com oito gols e vice-artilheiro da liga, atrás do Rodrigo Tabata.  Dá para buscar o título? Qual é a expectativa do clube?

O Al Sadd é um time grande aqui e, como grande, tem o objetivo de estar sempre na ponta. O nosso objetivo é sempre ser campeão. Tivemos três tropeços contra equipes médias ou pequenas e isso pode fazer diferença no final. Precisamos começar a tirar a diferença para ainda conseguir buscar o título.

O Al Sadd tem condições de ganhar a Champions League, como você conseguiu pelo Guangzhou Evergrande?

Se bobear, o Al Sadd tem mais poderio financeiro, mas em termos técnicos e de qualidade, acho difícil. Não que seja impossível, mas estamos um pouco abaixo. Olhando hoje, parece complicado conseguir. Tem equipes nos Emirados Árabes e na Arábia Saudita que são melhores. Pode ser que chegue às quartas de final, mas será difícil ir além. Para chegar à final e ganhar, falta bastante.

Aos 29 anos, você tem muitos anos de carreira pela frente. Pensa em voltar ao Brasil?

Tenho desejo de voltar sim, não agora, tenho mais um ano de contrato com o Al Sadd. Como você falou, tenho muitos anos pela frente. Sou sondado com frequência pelo mercado chinês, japonês, pelo mercado asiático. Tenho a ideia de ficar mais uns três ou quatro anos por aqui. Penso muito na minha família, na qualidade de vida que temos aqui. Além disso, o Brasil vive um momento complicado. Penso na segurança, na educação dos meus filhos. Hoje, não penso em voltar. Já tive sondagens de clubes brasileiros, mas proposta oficial, de chegar o papel mesmo, só tive uma. A relação contratual, com multa, é complicada, há uma grande diferença grande. Eu teria que abrir mão de muita coisa, o clube também. Eu também tenho desejo de continuar por aqui, então acabei não aceitando quando veio a proposta.

O que se fala da Copa do Mundo de 2022 por aí?

Eles já estão fazendo obras. Um ou dois estádios ficam prontos já no ano que vem. Estão bem adiantados. O objetivo deles é fazer uma Copa que todos possam comentar. Estão fazendo metrô, algo que aqui não tem. Digo pra você que está bem adiantado, comparado ao que vimos em 2014. Em termos de organização, eles estão bem à frente do Brasil.

Uma das coisas que se fala sobre a Copa do Mundo do Catar é que será um problema jogar no Calor. Como é a sua rotina de treinos e jogos aí no Catar?

Agora é época de frio, conseguimos treinar 15h30, último jogo foi 16h. Durante o calor, na época do Ramadã, é um clima mais complicado de viver, aí treinamos sempre à noite, 19h30, 20h, até 21h, dependendo da temperatura. Se a Copa fosse na mesma data de sempre [julho/julho], seria muito calor, teria que ar condicionado para poder jogar durante o dia [Em setembro, a Fifa confirmou que a Copa do Mundo de 2022 será no final do ano, em novembro e dezembro].

Se um jogador te perguntasse se seria melhor ir para o Catar ou para a China, o que você diria?

Depende do que ele quer. Pela qualidade de vida, eu indiciaria aqui no Catar. Se for pela questão técnica, a China seria o ideal. Eu iria para a China.