A guerra está declarada. A Federação Francesa de Futebol (FFF) e a Liga de Futebol Profissional (LFP) estão em conflito, e, claro, só há um perdedor no meio do tiroteio: o futebol francês. Tudo começou com a decisão tomada pela LFP de mudar o sistema de rebaixamento e acesso entre a Ligue 1 e a Ligue 2. Em vez das três vagas das temporadas anteriores, a partir de 2015/16 dois times caem para a segunda divisão nacional e outros dois são promovidos para a elite.

Foi o suficiente para que os clubes da Ligue 2 ficassem de cabelos em pé. Afinal, além de tirarem um dos lugares até então garantidos para a primeira divisão na temporada seguinte, nada mudou com relação ao rebaixamento para o National: três times serão rebaixados para a terceira divisão. Furiosos, os dirigentes dos clubes da Ligue 2 boicotaram o sorteio das duas primeiras fases da Copa da Liga.

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A crise de governança se instalou de vez quando a FFF, por meio de seu comitê executivo (Comex), anulou o novo sistema definido pela LFP. Estatutariamente, o Comex tem o direito de vetar uma medida tomada pela LFP, mas o que se viu foi o estopim para uma guerra sem precedentes. Há o temor de que se crie uma separação ainda maior entre a elite e os clubes amadores ou de menor poder financeiro caso seja reduzido o número de acessos e rebaixamentos.

Para se ter uma ideia de como os ânimos andam acirrados entre as duas entidades que comandam o futebol francês, Frédéric Thiriez, presidente da LFP, enviou um comunicado para os 20 clubes da Ligue 1 e quis saber a opinião deles sobre o assunto. Do total, 19 apoiaram a medida adotada pela Liga. A única voz dissonante foi o Guingamp, ex-clube de Noël Le Graet, presidente da FFF.

A princípio, o sistema de dois rebaixados/dois promovidos também valeria entre a Ligue 2 e o National, mas os dirigentes dos clubes da segunda divisão ameaçaram um boicote à primeira rodada do torneio. Para evitar isto, Thiriez e Le Graet se comprometeram a aplicar a reforma na temporada 2016/17, com a condição de que a FFF validasse a fórmula “dois por dois” entre a segunda e a terceira divisões nacionais.

A assembleia geral da FFF, porém, nem aprovou, nem reprovou a ideia, adiando sua decisão para dezembro deste ano. Diante deste quadro, o conselho de administração da LFP adotou o sistema que jogou ainda mais gasolina em um incêndio que já tomava grandes proporções. Como houve a interferência da FFF em uma medida da LFP, é claro que a Liga sente sua autonomia ferida e reclama por sua independência para gerenciar os campeonatos do país.

Diante de toda esta crise entre entidades e a possibilidade real de haver um abismo ainda maior entre os clubes da elite e os menores, a imagem do futebol francês se esfarela. A intensa guerra política enfraquece a França justamente em um momento no qual precisa reunir energias na reta final de preparação para sediar a Eurocopa daqui a um aproximadamente um ano. Mesmo que todos os lados se entendam em um curto intervalo de tempo, as sequelas dessa cisão ficarão latentes e ainda causarão impactos mais graves.

A esfinge Ibrahimovic

Há tempos, os boatos sobre uma possível saída de Zlatan Ibrahimovic, do Paris Saint-Germain, tomam conta dos noticiários. Em um primeiro momento, o atacante desmentiu cada especulação sobre seu futuro e jurava que permaneceria no time da capital. De uns tempos para cá, porém, a atitude do sueco mudou. Com uma postura cada vez mais evasiva diante de tanto barulho, suas declarações intrigantes deixam em dúvida sua continuidade no Parc des Princes.

Ibra ainda tem um ano de contrato com os parisienses e parecia muito disposto a cumpri-lo. Nas últimas semanas, os rumores se multiplicaram, e o jogador tratou de despistar qualquer informação sobre o que fará durante 2015/16. O que há de mais concreto no momento? Um interesse muito grande do Milan pelo retorno do goleador, com um contrato de três temporadas e salário anual de € 5,5 milhões.

Voltar para a Lombardia parece ser uma ideia bastante sedutora para Ibrahimovic. Mas o atacante, de 33 anos, desperta atenção de outros clubes – e ele também faz questão de deixar seu futuro completamente em aberto. Durante a passagem do PSG pelos Estados Unidos na pré-temporada, ele foi questionado se gostaria de atuar na MLS. A resposta dele foi breve e um pouco enigmática: “Sim, gostaria”. Mas quando? Pode ser amanhã ou daqui a cinco anos, quem sabe. Ele só disse que preferiria um time de Los Angeles, Nova York ou Miami. Tudo muito incerto, com diversas possibilidades.

Vale lembrar que, em junho, Ibrahimovic viajou ao lado de Mino Raiola (seu agente) para o Catar. Ambos se reuniram com Nasser Al-Khelaïfi, dono do PSG. Na pauta do encontro, uma discussão sobre um aumento salarial para o jogador, principal estrela do clube parisiense. Ninguém sabe o resultado desta reunião, mas Ibra tinha cartas muito boas nas mãos para conseguir uma valorização. Mas aquela certeza de outros tempos não aparece mais.

O PSG também mudou de status. Se antes havia sido proibido de reforçar seu elenco por conta das violações do fair play financeiro, agora o time da capital tem um pouco mais de liberdade e pode trazer alguém para seu grupo – tanto que a diretoria conversa com o Manchester United a respeito de Ángel Di María. Ou seja, Ibrahimovic não seria mais alguém tão insubstituível assim.

Resta saber se o discurso repleto de incertezas adotado por Ibra não passa de uma maneira de pressionar o PSG para ganhar um aumento salarial. O clube, por sua vez, soube contra-atacar ao mostrar que o sueco não é tão indispensável assim. O desdobramento deste assunto será crucial para a temporada parisiense não começar com um problema dos mais cabeludos para resolver.