GamesMundo

Quando o soccer teve vez

Os Estados Unidos são uma das maiores potências mundiais quando o assunto são os games. Mesmo com as quedas nas vendas e na própria produção contabilizadas em 2009, a expectativa é de que os números de 2010 voltem a apresentar ascensão. Muito em virtude de um estudo recente avaliar em aproximadamente US$ 8 bilhões a indústria norte-americana de jogos — US$ 3 bilhões a mais do que o girada em 2009.

Mais: com as perspectivas de que a indústria ao redor do mundo atinja US$ 65 milhões, as expectativas são grandes para que os valores estadunidenses superem os dois dígitos (em bilhões de dólares). E naturalmente, parte desse potencial se refletiu na produção de inúmeros games esportivos, inclusive futebol – e FIFA está aí para provar -, mesmo o soccer não sendo, historicamente, praia norte-americana.

No entanto, se hoje a NBA, a NHL, a NFL e a NLB, todas franquias estadunidenses, contam com títulos fortes e, em alguns casos, líderes de mercado, o mesmo não pode ser dito da Major League Soccer. Embora a liga sempre tivesse marcado presença em FIFA, esta não era oficializada, composta somente por times que levavam os nomes de cidades, como New York, Atlanta ou as canadenses Toronto e Vancouver.

Algo que mudaria a partir de 2000, quando, paralelamente à FIFA adquirir a licença da MLS, a Konami foi além: além de licenciar a franquia futebolística norte-americana, apostaria em um título exclusivo da competição. A ideia era aplicar o know-how em games futebolísticos para seguir os passos da própria EA com marcas esportivas do país. No entanto, o plano não deu muito certo. Somente dois games exclusivos foram lançados, antes que a MLS optasse em ceder a licença exclusiva para FIFA.

Noite de estreia

O primeiro deles veio em setembro de 2000, para Playstation. Trata-se de ESPN MLS GameNight. O jogo foi desenvolvido, basicamente, na engine do Winning Eleven 4 / ISS Pro Evolution. As mudanças eram bastante pontuais, como a inserção das 12 equipes de então da Major League Soccer às seleções internacionais já existentes e a saída da Master League e a inserção da MLS propriamente dita. Graficamente, também foram poucas alterações. A de maior destaque, certamente, era a bola da partida, que, devido ao licenciamento do campeonato, passava a ser idêntica à da liga americana.

A disputa da MLS era bem interessante, e seguida à risca o modus operandi da competição: as 12 equipes divididas em três grupos com quatro equipes cada, mas enfrentando-se entre si. Ante os três rivais da chave, a equipe escolhida pelo usuário fazia quatro jogos. Contra os oito restantes, eram realizadas duas partidas. Ao longo do torneio, as vitórias ajudavam o jogador a somar – além dos três pontos – créditos para que se pudessem contratar reforços para o time, nos moldes da antiga Master League. Caso o jogo terminasse empatado, era realizada uma prorrogação, na qual o vencedor somava dois pontos.

O game em si tinha suas graças. Uma delas era justamente a presença dos atletas e das equipes da MLS licenciados. Jogadores como Cobi Jones (Los Angeles Galaxy), El Diablo Etcheverry (DC United), Tony Meola (Kansas City Wizards) e até o craque Carlos Valderrama (que, aliás, era o personagem da capa do game e atuava pelo Miami Fusion) eram possíveis de ser contratados. O licenciamento da ESPN também dava um “charme” interessante ao jogo, com a imagem do placar nos moldes daquele transmitido na emissora. Sem contar a opção da narração da partida se dar em espanhol – uma clara tentativa de captar os latinos fãs de soccer.

Por outro lado, a jogabilidade parece não ter seguido os moldes da tradição da Konami, e em alguns momentos, fazia da experiência em ESPN MLS GameNight algo torturador. Os botões nem sempre respondiam quando deviam, ocasionando por vezes perdas de bola das mais inacreditáveis. Os goleiros não eram dos mais confiáveis, e não raramente soltavam bolas fáceis. Os dribles em velocidade (o famoso quadrado e “xis”) eram feitos sempre para o mesmo lado, dependendo da perna forte do jogador em questão. O conjunto da obra fez o título variar suas notas entre 6 e 7 (em 10) na mídia especializada: ou seja, de regular para bom.

Tempo extra para emplacar

Apesar de não ser um sucesso acachapante – e da concorrência pela preferência dos fãs da liga com FIFA -, o game “convidou” a Konami a apostar em ESPN MLS ExtraTime, lançado em abril de 2001 para Playstation 2. Mais uma vez, a Konami trazia jogadores, uniformes e o campeonato de futebol estadunidense na íntegra e licenciados. Visualmente, o jogo era até bem parecido com GameNight. As diferenças foram para melhor, com a evolução nos detalhes (muito em virtude da diferença de capacidade dos consoles) dos jogadores e até mesmo da introdução das partidas, com todos os efeitos de uma transmissão da ESPN.

A jogabilidade continuou não sendo um dos grandes fortes, ainda que o drible tenha sido aprimorado. A movimentação dos jogadores seguia “quadrada”, meio dura, se comparada a outros games da Konami (em especial se colocada lado a lado com Winning Eleven 5, um dos precursores da “surra” que os japoneses dariam em FIFA no começo da década passada). Ainda assim, as limitações defensivas das equipes davam margem a possibilidade de muitos gols, especialmente nas famosas espetadas de bola aprofundadas, tão usadas no princípio da Konami no PS1 – o que, de alguma forma, ajudava a garantir diversão.

Tal qual GameNight, ExtraTime teve uma aceitação até razoável, e uma avaliação mediana da maioria dos especialistas. O IGN, um dos principais sites especializados em jogos eletrônicos, chegou a dar média 8,2 (em 10) ao título da empresa japonesa – avaliação que, na visão do colunista, soa como um pouco exagerada, inclusive tendo em vista a nota popular não ter chegado a 7,5. No entanto, não foi suficiente para que a MLS seguisse com a Konami, haja vista que este foi o segundo e último jogo produzido de forma alheia à presença da liga em FIFA – onde a Major League Soccer marca presença até hoje.

Por que MLS não engrenou? Por duas razões relativamente simples. Primeiro, naturalmente, pelo público. Se a NBA e a NHL contam com apelos internacionais, por estas concentrarem os grandes nomes, respectivamente, do basquete e do hóquei internacionais, o mesmo não pode ser dito da Major League Soccer. Falta, ainda, peso à liga americana para que pudesse ser “independente” – algo que, tão cedo, não deverá ocorrer. Além disso, já havia uma enorme concorrência. Na preferência dos adeptos da MLS, o rival era o próprio FIFA. No mercado como um todo, o “adversário” era “apenas” o “co-irmão” Winning Eleven.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo