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Prisão de Sandro Rosell em Barcelona por contratos com CBF fecha cerco sobre Ricardo Teixeira

O ex-presidente do Barcelona e da Nike no Brasil, Sandro Rosell, foi preso nesta terça-feira na Catalunha, em uma operação policial conjunta da Espanha com Andorra batizada de Jules Rimet. As acusações que pesam sobre ele implicam diretamente Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, que renunciou ao cargo em 2012. Rosell é acusado de lavagem de dinheiro na venda de direitos de TV de amistosos da seleção brasileira usando contas nos Estados Unidos e em paraísos fiscais, como, evidentemente, Andorra. Além disso, segundo autoridades catalãs, a quantia desviada é estimada em € 15 milhões. E este é apenas o começo. Há muitas investigações que pesam sobre Rosell e Ricardo Teixeira.

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A operação descobriu que havia uma organização criminosa que cobrava comissões ilegais de direitos de TV dos amistosos da seleção. Depois, lavavam o dinheiro em empresas em paraísos fiscais. Segundo a investigação, Ricardo Teixeira é apontado como sócio de Rosell nas operações. O ex-presidente da CBF, porém, não foi preso.

A acusação que pesa sobre Rosell é uma consequência direta da investigação do FBI. As movimentações de contas nos Estados Unidos mostraram indícios de irregularidades, que levaram a descobrir o caminho do dinheiro que passou por Espanha, Andorra e Catar – sede da empresa que comprou direitos de amistosos da seleção brasileira.

A informação do Estadão é que a Justiça já bloqueou € 10 milhões em contas, além de cerca de 50 imóveis avaliados em € 25 milhões. Rosell é acusado de operar várias empresas nos estados Unidos e paraísos fiscais com o uso de laranjas, como Shahe Osannessian, supostamente dono de uma empresa fundado por Rosell.

Histórico de Rosell

A história de Rosell com a CBF vem de muito antes. Rosell tinha sido gerente da ISL em 1993, empresa suíça de marketing esportivo que seria descoberta, anos depois, em esquemas fraudulentos de venda de direitos de TV da Copa do Mundo. Foi por esse escândalo que Ricardo Teixeira teve que renunciar ao cargo de presidente da CBF e membro do Comitê Executivo da Fifa, assim como João Havelange, que era membro do COI e da Fifa, em 2012.

A experiência de Rosell era grande com a cartolagem. Ele foi também agente comercial do COI, da Fifa, FIBA (Federação Internacional de Basquete), Uefa e IAAF (Federação Internacional de Atletismo), além da LFP, a Liga de Fútbol Professional, da Espanha.

Em 1996, Rosell assumiu como responsável de marketing esportivo da Nike na Espanha e Portugal.  Em 1999, se mudou para o Rio de Janeiro para ser o gerente de marketing esportivo da Nike na América Latina. Um prêmio pelo seu feito de conseguir com sucesso gerir o contrato da Nike com a seleção brasileira, algo considerado muito importante para a empresa entrar de vez no futebol.

Segundo o Estadão, há a suspeita que a Nike tenha pagado a bolada de US$ 40 milhões em propina para fechar contrato com a CBF e ser a fornecedora de material esportivo da seleção brasileira. A Nike substituiu a Umbro em 1997 e é a fornecedora de material esportivo da seleção desde então – com contrato até 2022, aliás. Na época, a Nike tinha uma atuação pequena no futebol e a importância de ter a seleção brasileira foi enaltecida pela própria empresa, em entrevista à Trivela.

“Quando quisemos entrar para valer em um esporte mundial, precisávamos estar atrelado a uma marca mundial. E a seleção brasileira é a maior marca no mundo. Estar ao lado do Brasil ajudou a projetar nossa marca dentro do público de futebol, e também foi muito importante para que entendêssemos a dinâmica desse mercado, as necessidades dele, para nos aperfeiçoar”, conta Cristián Corsi, presidente da Nike no Brasil (leia mais sobre o assunto no especial sobre camisas de futebol).

A visibilidade dos cargos que ocupou na empresa norte-americana permitiu que Rosell se realizasse também na política do seu clube de coração, o Barcelona. Ele voltou à Espanha em 2002 e em 2003 foi vice-presidente de Joan Laporta no Barcelona. Foi um dos responsáveis e alguns apontam como principal responsável pela contratação de Ronaldinho em 2003, justamente por ser executivo da Nike anteriormente.

Rosell rompeu com Laporta em 2005 e foi candidato a presidente do Barcelona em 2010. Foi o responsável por levar Neymar para o Barcelona, em 2013, em uma operação que é investigada pelas autoridades da Espanha por fraude fiscal. O escândalo levou o dirigente a renunciar ao seu cargo em 2014.

A prisão e o envolvimento de Teixeira
Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF (Photo by Luis Vera/LatinContent/Getty Images)
Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF (Photo by Luis Vera/LatinContent/Getty Images)

A atuação de Rosell junto à seleção brasileira aumentou ao longo do tempo, depois de ser o principal articulador do contrato da Nike com a CBF. A investigação deflagrada nesta terça também confirma que o ex-presidente do Barcelona tinha contratos de fachada com a CBF para desvio de dinheiro e é daí que vem a acusação que o levou à prisão. A renda de alguns amistosos jamais chegava ao Brasil. Ele recebia uma espécie de comissão – algo próximo de US$ 500 mil por jogo. O dinheiro ia para empresas com sede nos Estados Unidos, no nome de Sandro Rosell.

Segundo o Estadão, a prática acontecia desde 2006 e seguiu até pelo menos 2013. E justamente por ter contas nos Estados Unidos é que o FBI pode investigar a origem do dinheiro e a situação de Ricardo Teixeira pode se complicar. E não só porque o ex-dirigente da CBF tem casa em Boca Ratón, na Flórida, e costuma passar seus dias por lá. Mas tem a ver com o fato de Antônia, filha de Ricardo Teixeira, ter transferido € 1,7 milhão para Sandro Rosell em 2012. Tinha 11 anos de idade e já estava nos Estados Unidos. É apenas um dos fios do novelo. Aparentemente, há mais. Bem mais.

No Fifagate, dirigentes da Concacaf usaram contas nos Estados Unidos para pagamentos de propinas e desviaram o dinheiro para paraísos fiscais, caracterizando fraude fiscal. Foi assim que o principal delator do Fifagate foi pego: Chuck Blazer, americano. Várias das contas de empresas de marketing esportivo, envolvidas também em acusações de lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraude fiscal, também estavam nos Estados Unidos. Com isso, entrou na jurisdição do FBI. É o mesmo que acontece com este caso de Rosell e, por consequência, de Ricardo Teixeira.

Há investigações do FBI sobre Ricardo Teixeira pelo Fifagate também, como já informamos aqui na Trivela. No dia 27 de maio de 2015, quando explodiu a operação que sacudiu a Fifa, mostramos que pelos documentos do FBI, Ricardo Teixeira estava entre os co-conspiradores. Isso para não falar nos esquemas corruptos revelados por José Hawilla, dono da Traffic, que foi indiciado nos Estados Unidos e, no esquema de delação premiada, revelou algumas das irregularidades de Teixeira.

Em junho daquele mesmo ano, Ricardo Teixeira passou a ser investigado pela justiça suíça e brasileira. E não acaba por aí. No dia 3 de dezembro de 2015, Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero, atual presidente da CBF, foram formalmente indiciados nos Estados Unidos. Nós também mostramos por quais esquemas de corrupção Teixeira e Del Nero foram acusados.

Tudo isso só mostra que a bola já estava cantada. E que até está demorando para que Ricardo Teixeira de fato pague por todas as irregularidades que cometeu. Segundo a revista Veja, Ricardo Teixeira está negociando um acordo de delação premiada nos Estados Unidos, com o Departamento de Justiça. Aí sim que veremos muitas casas caírem. Inclusive a dele.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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