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Inspetor colocou Catar como “alto risco” para 2022, mas Fifa ignorou

A discussão sobre a Copa do Mundo de 2022 ser disputada em um período diferente do ano por causa do forte verão do Catar em junho e julho levantou muitas questões. Se esse era um problema, por que escolher o país? E se havia a possibilidade da Copa ser disputada em outros períodos do ano, por que os outros candidatos não tiveram isso esclarecido para mostrarem suas propostas já pensando nisso? Tudo seria evitado se o relatório dos inspetores que visitaram os países candidatos fosse seguido. Harold Mayne-Nicholls, que foi inspetor da Fifa, disse que o relatório colocava o Catar como a única opção de “alto risco” para sediar o evento de 2022. Mas o relato foi ignorado pelos membros do Comitê Executivo da Fifa.

Uma equipe de inspetores liderados por Nicholls visitou os candidatos e elaborou um relatório para ser usado pelos membros do Comitê Executivo antes da votação para definição da sede, em dezembro de 2010. Mesmo com o Catar tendo sido apontado como uma opção arriscada, 14 dos 22 votos foram para o país do Oriente Médio. “Eu sabia dois dias antes que o Catar estava muito, muito forte. Com certeza, o relato não foi um elemento chave na decisão de muitos deles. Eles deveriam lê-lo, era o trabalho deles”, criticou Mayne-Nicholls.

“O fato da competição estar planejada para Junho /Julho, os dois meses mais quentes do ano nessa região, e tem que ser considerado um potencial risco de saúde para os jogadores, dirigentes e para a família Fifa e torcedores, e requer que precauções sejam tomadas”,diz o texto do relatório apresentado por Mayne-Nicholls. “Nós não tínhamos nenhuma prova que iria acontecer, mas nós dissemos que mesmo com o sistema de resfriamento que foi prometido, seria muito arriscado”, declarou o dirigente.

O ex-inspetor foi o primeiro a propor um calendário para que a Copa do Mundo de 2022 seja realizada no Catar, mas no período de inverno no país, em janeiro e fevereiro. O chileno, que foi presidente da federação de futebol do seu país e atualmente é consultor e acadêmico, acredita que a Fifa deveria seguir um caminho parecido com o Comitê Olímpico Internacional (COI) para a escolha de sedes dos eventos.

Uma longa lista de candidatos é avaliada por técnicos antes de ser submetida à escolha dos membros, que é política. “É preciso algo como o COI. Um grupo de três ou quatro. Então a decisão política é tomada. O COI disse para Doha em duas ocasiões que eles não estavam prontos ainda”, afirmou Mayne-Nicholls.

“As considerações operacionais são uma coisa, mas nós precisamos de mais. Nós precisamos de uma festa para o mundo. Você não pode pedir que os países preencham muitas obrigações. Temos que pensar sobre isso”, afirmou ainda o chileno.

O COI viveu momentos de turbulência parecidos com os que a Fifa vive atualmente. Em 1998, a escolha de Salt Lake para sediar os jogos de inverno em 2002 gerou uma mudança no processo. Diversos membros com poder de voto receberam presentes e muitos foram acusados de suborno e fraude. Muitos dirigentes se demitiram. O departamento de justiça processou dirigentes com essas acusações, mas foram inocentados. Ainda assim, dez membros do COI foram expulsos e outros dez foram punidos. Membro criminalmente inocentados, foi considerado que ganhar os presentes foi moralmente dúbio.

A partir desse episódio, as regras para a escolha das sedes dos Jogos Olímpicos foram mudadas. As regras se tornaram mais restritas e a análise técnica passou a feita. Além disso, 15 ex-atletas olímpicos foram incluídos no comitê que faz a seleção, além do COI ter colocado limite de permanência por idade no comitê.

A escolha de 2022 ainda gera dúvidas e por isso Michael Garcia, ex-promotor de Nova York, foi contratado para investigar o processo de escolha das sedes de 2018 e 2022. Não há qualquer prova de conduta ilícita apresentada até aqui, mas o fato do Catar ter ganhado a concorrência, mesmo com esses problemas sobre sediar o evento em um período do ano com temperaturas que chegam a 50°C pressionam a Fifa por mudanças no seu processo de escolha.

A Fifa propôs que o processo de escolha tenha votação aberta a todos os 209 membros da entidade, e não só aos 22 do Comitê Executivo. Tanto o presidente Joseph Blatter quando o secretário-geral Jérôme Valcke admitiram que escolher as sedes das Copas de 2018 e 2022 ao mesmo tempo foi um erro.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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