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Celeiro de craques e manobra da Fifa, há 40 anos o Mundial Sub-20 acontecia pela primeira vez

Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Palco para o surgimento de muitos craques, o Mundial de Juniores (posteriormente rebatizado como Mundial Sub-20) teve sua primeira edição realizada na Tunísia, há exatos 40 anos. A União Soviética se consagrou naquela ocasião inaugural, derrotando o México na decisão por pênaltis, disputada  em 10 de julho daquele ano. E o elenco soviético cumpriu as expectativas sobre a funcionalidade do torneio: revelou alguns bons jogadores que formariam a base da seleção ao longo da década seguinte, enquanto outros países viram eclodir nomes que tiveram ali sua primeira experiência num grande torneio internacional. História bastante rica, que recontamos nas próximas linhas.

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O torneio foi criado sob medida para as intenções manifestadas na plataforma de governo que elegeu João Havelange à presidência da Fifa, em julho de 1974 – e que, naturalmente, se reverteriam em votos para futuras reeleições. Havia o componente econômico: o Mundial era patrocinado pela Coca-Cola, marca incluída até mesmo na nomenclatura oficial da competição. Era um prenúncio da era em que a entidade máxima do futebol (e o esporte como um todo) enriqueceria por meio de polpudos contratos de exploração comercial de seus torneios.

Mas, por outro lado, existiam também objetivos limitados ao esporte: desenvolver o futebol de base, cujos torneios internacionais eram até então esparsos e com critérios fluidos ao apontar os participantes, além de dependerem da iniciativa de administrações locais para sua organização. E, mais do que isso, representava também a ampliação da internacionalização do jogo, tanto do ponto de vista de seleções participantes quanto de países-sede, já que uma Copa do Mundo demandava recursos bem maiores.

Assim, a Tunísia, país que só estrearia em uma Copa no ano seguinte, na Argentina, foi apontada como o local de disputa da primeira edição. A capital Túnis recebeu os grupos A e B, cada um sediado em um estádio, enquanto as chaves C e D foram jogadas, respectivamente, em Sousse e Sfax. Entre as curiosidades observadas nesta primeira edição do torneio havia a duração das partidas, disputadas em dois tempos de 40 minutos, ao invés de 45, com eventuais prorrogações de dois tempos de 10 minutos, em vez de 15 – o que voltaria a seria adotado dois anos depois no Mundial seguinte, no Japão, e então descartado.

As promessas

Mesmo realizado numa época em que o futebol de base ainda não era olhado grande com interesse mundial (a presença de público foi decepcionante em todos os jogos), o torneio mostrou um bom número de jogadores que teriam futuro nas seleções de seus países. Entre os europeus, por exemplo, a França revelou o meia Bernard Genghini, que integraria seu “quadrado mágico” de meio-campo na Copa do Mundo de 1982. Além dele, havia ainda o zagueiro Michel Bibard, que disputou a Copa de 1986, e dois medalhistas de ouro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, derrotando o Brasil na decisão: o zagueiro Philippe Jeannol e o ponta François Brisson.

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A Espanha contou com, entre outros, o goleiro Paco Buyo (futuro Sevilla e Real Madrid), o lateral Santiago Urkiaga (Athletic Bilbao) e o meia Ricardo Gallego (Real Madrid). Enquanto a Itália levou o goleiro Giovanni Galli, o lateral Giuseppe Baresi e o meia Antonio Di Gennaro (todos jogariam a Copa de 1986), além dos zagueiros Luigi Sacchetti (vencedor do scudetto com o Verona em 1985) e Moreno Ferrario (campeão com o Napoli em 1987) e outras caras conhecidas da Serie A dos anos 80, como o meia Antonio Sabato (Inter e Torino) e o atacante Aldo Cantarutti (que rodaria por clubes menores, como Pisa, Catania, Atalanta, Ascoli).

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Entre os sul-americanos, além do Brasil (um capítulo à parte), vale mencionar o promissor time uruguaio, que contava com o goleiro Fernando Álvez, o lateral Victor Hugo Diogo, o zagueiro Hugo De León e o meia Rubén Paz – todos com passagem pelo futebol brasileiro e presença em Copas do Mundo no currículo – além de outros nomes conhecidos, como o atacante Venancio Ramos e o meia Mario Saralegui. O outro participante da região, o Paraguai, revelaria o meia-atacante Juan Manuel Battaglia, que migraria para o futebol colombiano, onde defenderia por dez anos a forte equipe do América de Cali, pentacampeã nacional entre 1982 e 1986 e tri vice da Libertadores em 1985, 1986 e 1987.

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Fora do eixo Europa-América do Sul, o destaque ficaria com a seleção de Honduras, que já contava com alguns dos principais nomes que marcaram sua boa participação na Copa do Mundo de 1982, como o goleiro Julio Cesar Arzú, o zagueiro Anthony Costly, os meias Gilberto Yearwood, Ramón Maradiaga e Héctor Zelaya, mais o ponta Prudencio Norales e o centroavante Porfirio Betancourt. Por outro lado, o México, vice-campeão na Tunísia, teria dois jogadores daquela equipe de juniores convocados já para a Copa do Mundo da Argentina no ano seguinte (o meia Enrique Lopez Zarza e o atacante Hugo Rodríguez), mas os demais não conseguiriam dar sequência à carreira internacional.

O México perderia a decisão para uma União Soviética que também incluía uma boa safra de talentos que vingariam na seleção, sendo presença constante no forte time vermelho ao longo da década seguinte. A começar pelo meia Vladimir Bessonov, eleito o craque da competição, e que participaria depois das Copas de 1982, 1986 e 1990, além de ter sido vice-campeão europeu em 1988. Outros colegas a terem longas carreiras internacionais seriam o zagueiro Sergei Baltacha (que jogaria a Copa de 1982 e a Euro 1988), o meia Vagiz Khidiyatullin (mais tarde também convertido a defensor, e que também estaria nos mesmos torneios, além da Copa de 1990) e o versátil meia Andrei Bal, que participaria dos Mundiais da Espanha e do México, e na época defendia o pequeno Karpaty Lviv.

A seleção brasileira

Dirigido por Evaristo de Macedo, o time-base do Brasil na Tunísia tinha o goleiro João Roberto (Guarani), protegido pela defesa formada pelos laterais Edevaldo (Fluminense) e Paulo Roberto (Juventus-SP) e os zagueiros Juninho (Ponte Preta) e Heraldo (Operário de Campo Grande). No meio, o dinâmico volante Jorge Luís (Flamengo) jogava ao lado dos armadores Cléber (Atlético-MG) e Guina (Comercial-SP).

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Na frente, outro destaque era o ponta-direita Júnior Brasília, do Flamengo, bem acompanhado pelo centroavante Paulinho (XV de Piracicaba) e pelo ponta-esquerda Baroninho (Noroeste-SP). Na reserva, havia ainda o goleiro Birigui (também do Guarani, assim como o titular), o lateral Valdemir (Caldense-MG), o zagueiro Gritti (Matsubara-PR), os meias Nardela (XV de Piracicaba) e Zito (Botafogo-SP), além dos atacantes Tião (Cruzeiro) e Baltazar (Atlético-GO).

brasil sub-20 1977

Deste elenco, apenas Edevaldo e Juninho chegariam a participar de uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira, como reservas no time de Telê Santana em 1982, na Espanha. Mas alguns outros teriam carreiras relevantes dentro do futebol brasileiro, sendo inclusive negociados pouco tempo depois com clubes grandes – caso de Guina, Paulinho (ambos logo contratados pelo Vasco), Baroninho (que iria para o Palmeiras) e Baltazar (que viraria o “Artilheiro de Deus” no Grêmio).

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Quanto aos demais, o zagueiro Heraldo defenderia ainda clubes como America, Fluminense, Cruzeiro e Palmeiras, além de se sagrar campeão brasileiro pelo Coritiba em 1985. Nardela ainda jogaria no Grêmio e, juntamente com Jorge Luís, faria parte do Joinville hegemônico no futebol catarinense e expressivo no cenário nacional no começo dos anos 80. Cléber e Tião teriam passagens pelo Flamengo, fazendo o caminho inverso de Júnior Brasília, que atuaria pelo Cruzeiro e mais tarde integraria o surpreendente Brasil de Pelotas semifinalista do Brasileirão de 1985.

O principal destaque individual da Seleção foi Júnior Brasília, eleito pela Fifa o segundo melhor jogador do torneio, atrás apenas do soviético Bessonov e seguido por outro brasileiro, o meia Cléber. Artilheiro da competição com quatro gols, Guina também recebeu menção especial, levando a Chuteira de Ouro. Além destes, a revista francesa Onze, em sua cobertura da competição, citou também João Roberto, Edevaldo, Paulo Roberto e Jorge Luís como bons valores. Por fim, como curiosidade da época, vale citar que os jogos do Brasil tiveram transmissão ao vivo da TV Globo, nos horários de 15h20 (contra Irã e Costa do Marfim) e 13h30 (contra Itália e México).

Os jogos

O torneio começou em 27 de junho, com quatro jogos, válidos pelos grupos A e C. O grande destaque da rodada de abertura ficou com a goleada do México sobre a dona da casa Tunísia (6 a 0). Houve ainda o tranquilo triunfo do Brasil sobre o Irã (5 a 1), a boa vitória da Espanha sobre a França (2 a 1) e a surpresa no empate entre Itália e Costa do Marfim (1 a 1). A União Soviética estreou no dia seguinte pelo Grupo D com vitória fácil sobre o Iraque (3 a 1), enquanto o Paraguai batia a Áustria pelo placar mínimo. Já na chave B, vitórias do Uruguai sobre a Hungria (2 a 1) e de Honduras sobre o Marrocos (1 a 0).

O regulamento previa que apenas os campeões dos grupos avançariam às semifinais, o que acabou esvaziando a disputa na reta final da primeira fase, como foi no caso das chaves B e D, nas quais uruguaios e soviéticos já estavam com a vaga praticamente nas mãos após a segunda rodada. Nos outros, no entanto, a disputa se manteve até o fim. No A, por exemplo, após a goleada aplicada na estreia, o México ficou no empate com espanhóis e franceses, conquistando a vaga apenas graças à surpreendente derrota dos ibéricos para a Tunísia. No C, depois de arrancar o gol de empate em 1 a 1 com a Costa do Marfim somente no último minuto, o Brasil avançou batendo a Itália por 2 a 0, enquanto os africanos caíam diante do Irã.

urss sub-20 1977

Nas semifinais, o Brasil encarou o México enquanto soviéticos e uruguaios disputaram a outra vaga na final. E em ambas as partidas, a decisão foi para os pênaltis. Na primeira partida, os mexicanos saíram na frente aos 13 minutos da etapa final em cabeçada de Rergis. Seis minutos depois veio o empate brasileiro, também de cabeça, com o volante Jorge Luís. O Brasil ampliou totalmente o restante do jogo, mas não conseguiu vencer. Nos pênaltis, o goleiro mexicano Paredes defendeu a segunda cobrança brasileira, do zagueiro Juninho, e os astecas acabaram vencendo por 5 a 3.

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Na outra semifinal, o jogo foi mais amarrado, com os soviéticos atuando bem abaixo do que fizeram nas partidas anteriores, e terminou sem gols no tempo normal e na prorrogação. No último minuto do tempo extra, o técnico soviético Sergei Masyagin fez uma alteração inusitada, trocando o goleiro Novikov pelo reserva Sivuha apenas para a cobrança de pênaltis. Deu certo. A equipe venceu por 4 a 3 e avançou à final.

Na decisão do terceiro lugar, o Brasil não encontrou dificuldades para bater o Uruguai por 4 a 0. Na final, porém, o confronto entre soviéticos e mexicanos foi mais parelho. Após um primeiro tempo sem gols, o placar foi aberto aos três minutos da etapa final. Bessonov interceptou um recuo mal feito na intermediária mexicana, avançou em velocidade, passou por dois defensores, pelo goleiro e tocou para o fundo das redes.

Aos dez minutos, o árbitro francês Michel Vautrot apitou um sobrepasso do goleiro Novikov, marcando tiro livre indireto dentro da área soviética. Na cobrança, o atacante Fernando Garduño soltou uma bomba no ângulo, empatando a partida. Mas logo depois do reinício, Vautrot marcou outra falta, agora perto da área mexicana. Bessonov bateu seco, forte e rasteiro, pelo lado da barreira, e a bola entrou bem no canto do gol asteca, recolocando os europeus em vantagem.

delegação URSS

O novo empate mexicano viria aos 18 minutos, depois que Mora cruzou da direita, Hugo Rodríguez não alcançou, mas Manzo acertou um belo chute de virada. Perto do fim do jogo, em meio à pressão soviética, os astecas ainda tiveram o zagueiro Álvarez expulso por uma falta em Bessonov, mas conseguiram levar o jogo para a prorrogação e, posteriormente, para os pênaltis. Sergei Masyagin, então, repetiu a troca dos goleiros no fim do tempo extra, e a alteração teve impacto imediato: Sivuha defendeu a primeira cobrança, do capitão mexicano Rubio. Só que Bal, o capitão soviético, também desperdiçou sua cobrança, a terceira de sua equipe, chutando na trave. Ao fim da série normal, empate em 4 a 4.

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A disputa seguiu até a décima cobrança para cada lado, depois que até o goleiro mexicano Paredes bateu e converteu. Chegou então a vez de Garduño, autor do primeiro gol do México, mas que agora viu seu chute ser defendido por Sivuha. O zagueiro Viktor Kaplun foi então encarregado de fazer a cobrança que poderia enfim dar o título à União Soviética e não desperdiçou, deslocando o arqueiro mexicano e dando início às comemorações. O capitão Andrei Bal ergueu a taça, e os soviéticos fizeram história.

Esta acabaria sendo a única conquista do país no Mundial de Juniores. Na edição seguinte, em 1979, perderia a decisão para a Argentina de Diego Maradona. Em 1985, quando sediou, terminaria na quarta colocação. E em 1991, na última competição oficial disputada antes de seu desmembramento definitivo, chegaria em terceiro no torneio disputado em Portugal. Os mexicanos, por sua vez, só voltariam a uma semifinal em 2011, na Colômbia, quando também ficaram com o terceiro lugar.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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