Por Roberto Aló Filho

Treze de dezembro de 1981. Uma noite de pura arte, pintada em 42 minutos. Quem pôs seus olhos ficou vislumbrado com tamanha beleza. Os ingleses do Liverpool mal conheciam os artistas brasileiros, talvez Zico, a referência por jogar na seleção brasileira. Eram tricampeões europeus, mas o Flamengo foi arrasador: 3 a 0 no primeiro tempo.

Não se ganha um jogo assim tão facilmente por acaso ou destino. O Flamengo se preparou para aquele momento. Após ganhar a Libertadores de forma dramática, o Mundial Interclubes tornou-se obsessão. Era o grande objetivo da diretoria rubro-negra. Os jogadores seguiram à risca todo o planejamento. Passaram por Los Angeles para facilitar a adaptação ao fuso horário japonês. Não houve reclamação.

Na cabeça dos jogadores aquela era uma chance única. Na noite anterior à decisão, cada jogador reagiu de um jeito. Zico estava tranqüilo. Acompanhado de sua mulher Sandra, o Galinho tava relaxado. “Estava namorando com minha mulher no quarto e namorei até onde pude”, disse ele. “Não tive problema, estava o tempo todo com ela desde Los Angeles. Quando você está bem, treinando e jogando bem, não tem porque se preocupar. Só tive que acordar às 6 da manhã por causa do fuso. Não tinha jeito”, completou o camisa 10. Já Adílio estava ansioso. “No dia anterior bate a ansiedade, mas estávamos bem. Foi uma estrada longa, conquistamos vários títulos pra chegar onde chegamos”, concluiu o meia. O lateral-esquerdo Júnior disse que até a preleção feita por Paulo Cesar Carpegiani ainda no Prince Hotel foi tranqüila. O olheiro Jairo dos Santos passou as informações do time inglês e o técnico apenas alertou sobre o posicionamento dos jogadores e a atenção nas bolas paradas, o forte da equipe inglesa.

A expectativa dos torcedores era enorme. O jornalista Roberto Assaf comparou a chance de ser campeão do mundo àquele bilhete de loteria que alguém vem lhe oferecer no sinal, você o recusa e depois fica sabendo que alguém ganhou. Era uma chance única. Os jornalistas André Rocha e Mauro Beting, autores do livro “1981 – Como um craque idolatrado, um time fantástico e uma torcida inigualável fizeram o Flamengo ganhar tantos títulos e conquistar o mundo em um só ano”, também relembram a façanha rubro-negra. André tinha oito anos e era o único flamenguista de sua família. Em sua memória, a lembrança de que era um jogo diferente pela relevância, o horário de meia-noite, todo um clima criado. Foi especial. Mauro Beting não é flamenguista, mas disse com todas as letras: “Você se apaixonava por aquele time. Era ousado, de excelência. Em termos de filosofia, se assemelha com o Barcelona de hoje”.

Cavalete montado, a paleta somente com as cores vermelha e preta, na tela o fundo verde desbotado pelo frio retratando o gramado do Estádio Nacional e o pincel na mão de um artista chamado Artur Antunes Coimbra. Zico participou dos três gols. De seus pés vieram pinceladas que tiveram dois arremates de Nunes e um de Adílio. O camisa nove comemorou o primeiro gol em direção a pequena torcida flamenguista presente no estádio. Adílio, autor do segundo gol, conta que a emoção de marcar aquele tento foi demais: “Comecei a pensar como estava no Brasil, o pessoal vibrando! Foi uma coisa muito sensacional! Ainda não era um placar suficiente porque o Liverpool era um grande time. A concentração não caiu, mas esse segundo gol foi fundamental”, concluiu.

Depois do terceiro gol, marcado por Nunes, todos tinham a certeza do título. Aquela foi a decisão mais tranqüila daquele timaço.  O lateral Júnior até gostaria que tivesse sido mais difícil. A preparação para o jogo foi mais psicológica do que física. O Flamengo vinha de seguidas decisões. “Em 45 minutos tiramos a expectativa que vínhamos alimentando durante quase 20 dias. Aí sim, vimos que valeu todo o sacrifício”, disse o lateral. Zico acredita que não houve soberba por parte dos ingleses: “Eles não conheciam o nosso time. O Jairo dos Santos foi muito importante. Quando fomos para o jogo já sabíamos o que íamos enfrentar. Talvez as informações que tínhamos do Liverpool, o eles não tinham da gente”. O Galinho se lembra de um fato curioso relacionado à torcida japonesa: “Separaram a arquibancada colocando duas bandeirinhas dos clubes. O lado do Liverpool encheu rapidinho. Restou aos atrasados encher o lado rubro negro”.  

Para Assaf aqueles 45 minutos foram o maior jogo da história do Flamengo. Ninguém se lembra do segundo tempo. Beting acredita que dormiu na segunda etapa. Os 3 a 0 foram tão avassaladores que, de 1981 para cá, nos confrontos entre brasileiros e europeus, ninguém abriu esse placar no primeiro tempo. Rocha se lembra dos gritos de campeão do mundo com a bola ainda rolando antes de terminarem os 45 minutos e também do carnaval fora de época promovido pelos torcedores.

Adílio disse que no segundo tempo o jogo fluiu, passou rápido. Carpegiani nem fez substituições. O goleiro Raul não teve trabalho. Defendeu duas ou três bolas fáceis. O Flamengo tinha a partida sob controle. A superioridade foi muito grande. Nunes só comemorou o título após o apito final do mexicano Mário Rúbio Vasquez. Zico não gostou muito: “Acabou o jogo, como íamos comemorar? Foi muito chato! Não foi ‘aqueeela’ comemoração!”. Júnior tem a mesma opinião: “A sensação do título conquistado veio após o terceiro gol”. O camisa 10 rubro-negro foi eleito o melhor jogador da partida e ganhou um carro.

A torcida estava ansiosa para a volta da equipe ao Brasil. Assaf diz que a festa da vitória no Mundial de Clubes foi algo próximo a da conquista do tricampeonato mundial da Seleção em 1970: “A chegada dos tricampeões foi um negócio apoteótico e a comemoração desse título mundial do Flamengo foi a mesma coisa, bem próximo disso”.  Zico não participou dessa festa. Teve merecidas férias acompanhado de sua esposa. Viajou direto do Japão para o Havaí e depois Las Vegas: “Fomos tomar muito! Encher a cara e se divertir”, disse o craque rubro-negro.

O Flamengo de 1981 é um time inesquecível. Mauro Beting afirma que foi a melhor equipe que ele viu jogar no Brasil nos últimos 40 anos. Roberto Assaf diz que foi, talvez, o time com o maior toque de bola que assistiu e acha que era melhor que o atual Barcelona. Aquele time tava jogando a cada três dias. Com uma semana pra se preparar, concentrado, afim e estudando o adversário, não perderia para ninguém, disse André Rocha.  Zico acredita que a manutenção de um grupo com tantos talentos por tantos anos dificilmente ocorrerá em nosso país. Para Júnior será difícil reunir tanto talento em uma equipe só: “Passados 30 anos ainda continua uma reverência muito grande em relação ao que a gente fez”.  É um título guardado com muito carinho no coração dos rubro negros.

O quadro dessa conquista está eternizado na galeria de arte do futebol.

Ficha técnica

FLAMENGO 3 X 0 LIVERPOOL
Data:
13/dez/1981
Local: Estádio Nacional de Tóquio (Japão)
Público: 62.000 pagantes
Árbitro: Mário Rúbio Vasquez (México)
Gols: Nunes 13’/1T e 42’/1T e Adílio 36’/1T

Flamengo
Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Técnico: Paulo Cesar Carpegiani
Liverpool
Bruce Grobbelaar, Phil Neal, Ray Kennedy, Mark Lawenson e Phil Thompson; Allan Hansen, Sammy Lee e Graeme Souness; Terry McDermott (David Johnson), Kenny Dalglish e Craig Johnstone. Técnico: Bob Paisley