Mundial de Clubes

A mera presença no Mundial de Clubes já simboliza um grande conto de fadas ao Hienghène

Dentre os parcos orgulhos do futebol da Nova Caledônia, o maior deles é ter gerado um campeão do mundo. Christian Karembeu nasceu em uma tribo local e deixou a ilha para se tornar jogador profissional, decolando com a seleção francesa. A um território de 278 mil habitantes encravado no Oceano Pacífico e ainda ligado politicamente à França, os neocaledônios até possuem uma relevância considerável dentro de campo. Já chegaram a disputar a decisão da Copa das Nações da Oceania com sua seleção e alguns jogadores atingiram o estrelato na Ligue 1. Já 2019 marca o ápice dos clubes locais. A Nova Caledônia não só quebrou a hegemonia da Nova Zelândia na Liga dos Campeões da Oceania, como também fez uma decisão doméstica. Campeão continental ao superar o rival Magenta, o Hienghène Sports viverá o sonho de disputar o Mundial de Clubes.

A grande sacada do Mundial de Clubes é, tantas vezes, dar visibilidade a times de relevância antes limitada aos seus continentes. Potências locais da África e da Ásia, por exemplo, se tornaram bem mais conhecidas ao redor do planeta graças à participação no torneio da Fifa. À Oceania, no entanto, esta função se potencializa. O esporte permanece no máximo semi-profissional na região e o Mundial se torna uma plataforma para exaltar a pequenez. Todavia, o monopólio da Nova Zelândia na Champions local (sobretudo do Auckland City) tirava de vista essa perspectiva. A façanha do Hienghène traz ares de contos de fadas à mera participação na primeira fase do intercontinental. Repetem o que já tinha feito em 2010 o Hekari United, de Papua Nova Guiné.

O Hienghène Sports é o que se espera de um clube nanico em um local pouco tradicional no futebol. Fundada em 1997, a agremiação está localizada na comuna homônima de Hienghène. A cidade ao norte da Nova Caledônia, a 380 km da capital, soma 2,5 mil habitantes. Seu próprio estádio praticamente abriga a população inteira, com capacidade para 1,8 mil espectadores. Habitada majoritariamente pela etnia canaque, a principal do território, a região se desenvolveu exatamente a partir dos 1990, muito por conta de suas belezas naturais e do ecoturismo realizado por lá.

Já dentro de campo, o Hienghène passou a ter relevância no Campeonato Neocaledônio durante esta década. Chegou a conquistar por três vezes a copa local a partir de 2013, quando ganhou o direito de disputar por tabela a Copa da França – que absorve esses representantes dos territórios ultramarinos. Caiu sempre na fase de entrada, contra oponentes da quinta divisão, algo que se repetiu diante do ASPV Strasbourg em 2019/20. De qualquer maneira, a relevância na liga – com direito ao título inédito em 2017, repetido em 2019 – levaria os alviazuis à Champions da Oceania. E isso seria suficiente para o time romper as fronteiras.

Durante as fases iniciais da Liga dos Campeões de 2019, o Hienghène se impôs contra outros adversários das ilhas da Oceania. O potencial começou a ficar um pouco mais claro nas quartas de final, quando eliminaram os fijianos do Ba, um dos clubes mais tradicionais do Pacífico. Nada comparado ao feito das semifinais, quando os neocaledônios bateram por 2 a 0 o Team Wellington, campeão continental em 2018. O título se tornou palpável ali. Ainda mais que, na outra chave, o eneacampeão Auckland City também sucumbiu contra o Magenta. O clássico neocaledônio na final seria um prato cheio aos amantes do futebol alternativo.

O Estádio Numa-Daly, na capital Nouméa, recebeu 7 mil torcedores para a final extraordinária – um número expressivo, sobretudo se pensarmos que a cidade possui 99 mil habitantes. E a partida especial também seria decidida por um gol especial. Apesar do favoritismo do Magenta, bem mais tradicional, o Hienghène triunfou. O tento da vitória por 1 a 0 aconteceu aos 21 do segundo tempo, quando o substituto Antoine Roine arriscou um chute do círculo central e superou o goleiro adversário. Gol antológico que valeu a taça inédita aos alviazuis e também a experiência única de se disputar a competição da Fifa. Enquanto as viagens internacionais são corriqueiras aos demais participantes do Mundial, os atletas neocaledônios vivenciarão algo que provavelmente nunca mais se repetirá em suas vidas.

A referência do elenco é o atacante Bertrand Kaï, dono de uma qualidade notável aos padrões da Nova Caledônia. Aos 36 anos, o capitão da equipe é quem mais experimentou essa rodagem internacional. Nascido em Hienghène e formado pelo próprio clube, ele sempre atuou no futebol local, com passagens rápidas por Magenta e Gaïtcha. O retorno à comuna aconteceu em 2015. De qualquer forma, sua reputação internacional veio mesmo com a seleção neocaledônia, sobretudo pelos 11 gols marcados na conquista dos Jogos do Pacífico em 2011. Ele seria eleito o melhor jogador da Oceania naquele ano. Um ano depois, Kaï protagonizou a equipe nacional que despachou a Nova Zelândia nas semifinais da Copa das Nações da Oceania. Já em 2019, recebeu a Bola de Ouro de melhor jogador da Champions.

Mesmo com esse protagonismo, Kaï não consegue viver totalmente do futebol. O maior artilheiro da história da seleção neocaledônia paralelamente administra um colégio interno, garantindo comida à cantina e produtos de limpeza ao local. Precisa conciliar o trabalho com os treinamentos diários e também com as rodadas nos finais de semana. A rotina é repetida pela maioria dos companheiros, distantes do profissionalismo. E, como se não bastasse, há atletas que igualmente defendem a seleção de futebol de areia, acumulando mais afazeres. O próprio capitão talhou sua habilidade na praia.

“Como jogadores amadores, vivemos uma vida ordinária e tentamos encontrar um equilíbrio entre nosso trabalho, os deveres familiares e o futebol. Isso é muito difícil, especialmente agora que alcançamos este nível, em que vencemos a Champions da Oceania pela primeira vez na história do país. Isso não seria possível sem os sacrifícios que fizemos”, declarou Kaï, em entrevista ao site da Fifa. “Em nosso país, vivemos como tribos e isso ajudou o time a ser como uma família. Fazemos muitos sacrifícios quando vamos jogar futebol no fim de semana e deixamos nossas esposas, nossos filhos”.

O restante do elenco do Hienghène se limita à própria Nova Caledônia. Há outros destaques da seleção, como o goleiro Rocky Nyikeine e o zagueiro Emile Béaruné, ambos presentes na vitória sobre a Nova Zelândia em 2012. Os únicos estrangeiros no elenco são o japonês Kohei Matsumoto e dois brasileiros contratados já pensando no Mundial, por intermédio de um empresário. Marcos Paulo surgiu no Marília e atua como lateral ou volante, enquanto Pedro Luis vem sendo utilizado no meio-campo, após despontar na base do Vasco e passar pelo Tigres do Brasil. Como tantos outros, aguardam que o Mundial sirva de vitrine.

Apesar das disparidades em relação aos oponentes, Bertrand Kaï acredita ser possível surpreender: “Vir ao Catar para disputar essa grande competição é um sonho transformado em realidade. Ninguém acreditava que pudéssemos conquistar o título. Nós mesmos não pensávamos, mas, graças a anos de trabalho duro, carregamos a tocha daqueles que nos precederam e nos ensinaram o significado de sacrifício. Tentaremos ser os melhores representantes possíveis ao país e apresentar uma boa imagem do futebol na Nova Caledônia. Lutaremos: no fim são 11 contra 11 e o time com mais determinação vencerá”.

Já o treinador do Hienghène também merece seu respeito. Felix Tagawa nasceu no Taiti e é considerado um dos melhores jogadores surgidos nas ilhas do Pacífico. Atacante goleador, fez sucesso na seleção taitiana durante a virada do século e chegou a atuar profissionalmente no futebol australiano. O veterano chegou a comandar a seleção sub-20 neocaledônia, liderando também o período vitorioso dos alviazuis a partir de 2017.

“É um momento de orgulho para o país. O clube é mágico por seu espírito de equipe e tentamos ser perfeccionistas. Não há egoísmo, mas apenas compartilhamento e espírito coletivo. Esse é o mantra da nossa torcida”, ressaltou Tagawa, em entrevista à BBC. “Temos jogadores que vieram dos quatro cantos da ilha, não importa a etnia. O elenco conta com um servidor público, um engenheiro civil, professores. Temos que ser felizes com o que somos e com o que possuímos, isso nos dá forças. Levamos pelo lado positivo os empregos paralelos e trabalhamos para construir nosso futuro. Esses trabalhos nos ajudam nas competições internacionais”.

A jornada do Hienghène pode terminar em apenas uma noite. Se o clube for eliminado pelo Al Sadd nesta quarta-feira, não terá a chance nem de fazer uma partida paralela para definir sua colocação. A importância do Mundial de Clubes aos neocaledônios, entretanto, vai além da vitória ou da derrota. Entrar em campo sob o hino da Fifa, cumprimentar Xavi e disputar uma partida internacional é a história que qualquer jogador amador deseja contar pelo resto da vida. Os melanésios terão esta oportunidade. A essência do futebol se preserva através deles.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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