Um ato histórico. Pela primeira vez desde a Revolução Islâmica, em 1979, mulheres foram autorizadas para entrar em um estádio de futebol no Irã. Foi no estádio Azadi Sport Complex, em Teerã, para o jogo das Eliminatórias da Copa 2022, contra Camboja. Como informamos na noite desta quarta, mais de 3,5 mil mulheres compraram ingressos para a partida. Foi um passo importante, mas ainda está longe do ideal.

As torcedoras que entraram no estádio ficaram em um setor separado dos homens. A separação foi feita por lugares vazios, placas grandes de metal e por policiais mulheres. O setor, assim, ficou cercado, o que alguns torcedores criticaram chamando de “jaula”. Ainda é uma situação bastante incômoda de se ver.

“Parte de mim está feliz, mas eles basicamente criaram um muro”, disse Maryam Shojaei, irmã de Masoud Shojaei, capitão da seleção iraniana, que é uma das líderes da campanha pela abertura dos estádios. “Não é o que estávamos pedindo. Não é como se todo mundo pudesse ir e sentar livremente com seus irmãos, pais e maridos”.

“As mulheres estão ansiosas para finalmente acabar a proibição, tanto que um grande número delas irão aparecer nos portões para comprar ingressos e irão aparecer para protestar”, contou Minky Worden, diretor de iniciativas globais na Human Rights Watch.

A situação continua tensa. Alguns radicais iranianos protestaram contra a medida de abrir o estádio para as mulheres, criticando o que chamam de “capitulação pela pressão do Ocidente”. E os problemas seguem grandes. Nenhuma fotógrafa recebeu credencial para entrar no jogo e registrar o momento, por exemplo. Todas as que tentaram tiveram seus pedidos negados.

“Depois de tudo que passamos, eu simplesmente não poderia deixar de ir”, afirmou Sara (nome fictício) ao New York Times, falando sobre a sua ida ao estádio. Ela contou ao jornal americano que levou a sua mãe para assistir ao jogo.

O resultado da partida era o de menos. Até porque o Irã é uma força asiática, enquanto Camboja é um time que ainda está bastante longe de ser capaz por brigar por vaga na Copa do Mundo. Ao menos da Copa 2022, que ainda será com 32 seleções. O placar de 14 a 0 deixa claro que o jogo, em si, era pouco atraente.

O que ele representou para as mulheres foi o mais importante, mas precisa ser encarado apenas como um primeiro passo. A pressão, inclusive por parte da Fifa, precisa continuar para que o acesso feminino aos estádios não seja uma mera exceção para limpar a barra do Irã depois de uma tragédia e que seja colocado em prática livremente, sem muros ou segregações.

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