O futebol feminino enfrenta resistência mesmo em países considerados liberais em termos de costumes. Na Palestina, a dificuldade é ainda maior. Os problemas sociais, políticos e culturais dificultam o que deveria ser simples: praticar um esporte. Honey Thaljieh não deixou que nada disso atrapalhasse. Buscou o seu sonho e tornou-se jogadora de futebol. Mais do que isso: fundou a seleção da Palestina, foi capitã do time e seguiu carreira no esporte. Aos 30 anos, a mulher nascida em Belém trabalha na Fifa, pelo esporte que ama, tentando fazer da liberdade que conquistou em tantas frentes na vida uma realidade para mais mulheres. Suas múltiplas identidades, que foram prisões, tornaram-se o motivo de ela conseguir mais liberdade.

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“Sou palestina, árabe, cristã, mulher e jogo futebol”, disse Thaljieh em uma entrevista ao jornal espanhol El País. Aposentada do futebol depois de uma série de lesões – que pararam uma jogadora que não foi vencida nem pela guerra, nem pelo machismo, nem pela ausência de uma seleção do seu país -, ela será retratada como uma das personagens do especial “Rebeldes do Futebol 2”. Falamos sobre a série “Rebeldes do Futebol”, que retrata personagens que se tornaram heróis sociais através do futebol, como Sócrates e Cantona. Nada mais justo que retratar Honey Thaljieh, que quebrou diversos tabus de uma só vez com o seus sonhos.

“Tudo começou como um passatempo, mas percebi que amava aquilo. Então eu comecei a crescer e depois da primeira e da segunda intifada, enfrentamos desespero, destruição, guerra. A maioria perdeu a esperança”, contou a palestina. “Todas as noites, os soldados invadiam nossa casa e nos colocavam para fora, não importava se estava chovendo ou frio. Nosso carro foi destruído, meu primo foi morto. Era difícil ver os corpos no chão. Estas imagens estão sempre na cabeça. As vezes tenho pesadelos”, ela lembrou.

O futebol foi uma das formas de Thaljieh encontrar esperança. “Eu pensei que poderia conseguir algo com o futebol. Em lugar de me sentir sem esperança, o desespero, poderia construir algo, dar esperança à sociedade e às mulheres”, narrou a agora ex-jogadora. Mas ela só começou a jogar, de fato, quando estava na faculdade, em Belém. Viu um anúncio e descobriu que era a primeira mulher interessada em jogar. Conseguiu formar um grupo de quatro ou cinco jogadoras, que seriam a base da futura seleção palestina.

O embrião do que seria a seleção palestina feminina foi em 2003, mas foi preciso passar por muitas dificuldades impostas antes de a bola poder rolar. “Foi muito difícil por todas as barreiras, sociais, culturais e políticas. E as críticas como as mulheres não devem jogar futebol, vestir shorts, que devem cobrir suas cabeças. As críticas tornaram difícil, mas nós decidimos que não estávamos só jogando futebol. Era mais do que futebol”, afirma Thaljieh. Mais do que um esporte, o futebol passou a ser um ativismo, uma forma de se colocar, de buscar liberdades e direitos.

Em 2005, a Federação Palestina de Futebol autorizou a criação da seleção feminina e o time jogou o seu primeiro jogo, contra a Jordânia. Foi uma mudança em cadeia: também foi criada a primeira liga feminina do país e passaram a participar de torneios internacionais com seleção. Em 2009, a Palestina disputou o seu primeiro jogo de seleção em casa, na Cisjordânia, contra novamente a Jordânia. A partida atraiu 14 mil pessoas. Só que Thaljieh se lesionou dois dias antes do jogo e ficaria fora. “Eu o meu sonho. Pelo que eu tinha esperado tanto tempo. Eu queria tanto jogar que, no final, o treinador me deixou entrar nos últimos três minutos”, ela conta. O sonho de ver a seleção da Palestina em uma Copa do Mundo feminina passou a ser possível. Se aposentou naquele mesmo ano, atrapalhada pelas lesões. Fez cerca de 17 gols, segundo ela contou ao El País. Mas a sua trajetória no futebol não acabava ali.

Em 2012, concluiu a pós-graduação da Fifa em “Gestão, lei e humanidades do esporte” e foi trabalhar na Fifa. Primeiro, como membro do comitê de futebol feminino. Depois, como gestora em projetos de desenvolvimento do futebol feminino. Desde setembro de 2013 ela é Gerente de Comunicações Corporativas da entidade que dirige o futebol mundial. Sua história passou a ser uma arma na batalha por melhores condições para o futebol feminino ao redor do mundo. Além de uma enorme inspiração.

Honey Thaljieh em Fórum da ONU, em 2012
Honey Thaljieh em Fórum da ONU, em 2012

“Se você ensina esporte às pessoas, isso dá poder a elas, especialmente às mulheres”, declarou Thaljieh em entrevista ao Boston Globe, em novembro de 2014. “Se você dá poder às mulheres, você dá poder a toda comunidade. Se você dá a chance às mulheres de praticarem esportes, você dá a elas a chance de serem líderes. Você dá a chance de que elas deem poder a outros”, argumenta.

“Como palestina, cresci sob uma ocupação e uma opressão: minha identidade foi a minha prisão. Como cristã, vivi em uma sociedade muçulmana dominada pelos homens. Como árabe, em um mundo com tanto racismo e estereótipos, minha origem étnica também se tornou a minha prisão. E por ser mulher, em uma sociedade patriarcal, onde o futebol era uma atividade dos homens, meu gênero foi minha prisão. Todas estas identidades se tornaram na minha prisão, mas também através delas encontrei a liberdade para ser da maneira que sou”, disse Thaljieh.

E isso se vê na prática. O antes inexistente futebol feminino na Palestina passou a ter um programa com 400 jogadores registradas, quatro times e diferentes idades. Se antes ela era vista com desprezo por parte da sociedade de Belém quando ela jogava nas ruas com os meninos, hoje ela é vista como um exemplo. Sempre que visita a sua terra natal, ela joga futebol nas ruas de terra. A diferença é que agora ela não é mais olhada com desconfiança ou com desprezo. Ao contrário disso, até o seu pai vai assisti-la e ela dá o exemplo com a sua vida.

Assista à palestra de Honey Thaljieh no TED de Zurique, em 2014: