Difícil encontrar apenas uma palavra para definir Muhammad Ali. Talvez o seu próprio nome, por si, carregue todas as virtudes que construíram um dos maiores esportistas de todos os tempos. Aliás, quase todas palavras relacionadas a Ali costumam possuir mais de um sentido. ‘Lutador’ não serve apenas para aquilo que fazia nos ringues, mas também por sua postura em busca de direitos e igualdade. ‘Autêntico’ se refere muito ao seu estilo de boxear, assim como à maneira de agir na frente dos microfones. ‘Direto’ era o seu soco, literalmente falando, e o soco no estômago das autoridades que insistia em confrontar. Nenhum outro craque dos esportes soube tão bem o valor e a grandeza de sua imagem para mudar o mundo. E mudou. Por isso, a morte de Ali encerra apenas o ciclo do homem que sofria com Mal de Parkinson. A lenda fica, é eterna, e tem tanto ainda a ensinar.

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O que americano fez nos ringues não se limita apenas ao seu esporte. O boxe ganhou muito com Ali, dono de um estilo próprio de lutar. O homem que voava como uma borboleta e picava feito abelha. No entanto, sua técnica também respingou em outras modalidades, inclusive no futebol. É a ginga, a malícia, a habilidade que conseguem valer mais do que a força. O melhor se constrói com esforço e inteligência. Assim, o jovem Cassius Clay chegou ao topo. Assim, superou limites.

Só que o Muhammad Ali, gênio de luvas, deixou em evidência um ser humano único. O esportista que rompeu tantas barreiras por aquilo que representava. As opiniões do boxeador não eram unanimidade. Mas ele se fez ouvir pela maneira que negou todos os estereótipos. Em tempos nos quais os negros buscavam os seus direitos nos Estados Unidos, Ali se colocou ao lado de Martin Luther King e Malcolm X. Em tempos nos quais se refutava a Guerra do Vietnã, por causa de seus ideais, Ali disse não à imposição de seu país. Teve que pagar por isso. E nunca abandonou as suas convicções.

Ali foi um fenômeno. O boxeador que deu ao seu esporte uma visibilidade nunca antes vista. O esporte dos ginásios passou a tomar estádios de futebol inteiros graças ao seu craque. Por Ali, multidões encheram as arquibancadas de Wembley, de Highbury, do Waldstadion, do Estádio 20 de Maio – este, palco do mítico “Rumble in the Jungle”, o confronto com George Foreman no Zaire. Quem ia nestes locais, porém, não queria apenas ver o melhor de todos. Queria também vê-lo escrevendo a história, ali, face a face. Que fosse um gesto, no qual o americano expressasse toda a sua genialidade. A sua forma única de pensar e agir.

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E, frente às multidões, Ali falava. Para construir um espetáculo além dos rounds. Para marcar-se ainda mais como um show. Mas também para conscientizar. Esse senso de Muhammad Ali, balanceando a sua promoção com os seus preceitos, é algo que raras vezes se viu. É algo que todos os que concentram os holofotes sobre si poderiam se espelhar. Uma postura que enfatiza o poder do esporte (e que pode ser ainda maior no caso específico do futebol) sobre as massas, uma força transformadora quando bem aproveitada. Exatamente o que fazia Clay.

Ao longo da vida, Muhammad Ali mostrou, sobretudo, a coragem que todos devemos ter. A coragem de enfrentar de peito aberto seus adversários – sejam ele de luvas, de farda ou de terno e gravata. A coragem de dar a cara a tapa, de cair e levantar, cair e levantar. A coragem que manteve mesmo após a aposentadoria, quando a lenda também expôs o seu lado mais frágil, na luta contra o Mal de Parkinson. A coragem de quem dá um passo além, de ícone a ser admirado para exemplo a ser seguido. “O maior” ainda segue como um adjetivo muito pequeno para se definir a grandeza de Ali.