José Mourinho virou quase um sinônimo de um técnico defensivista, um retranqueiro, no popular. Seus esquemas de tentar travar grandes jogos e vencer estacionando o ônibus, em expressão criada na Inglaterra, viraram uma marca do português. Só que ele reclama que esse é um rótulo e que ele não é um técnico assim. Quando ele diz isso, tem uma dose de razão: Mourinho, ao longo da carreira, tem trabalhos que sustentam essa afirmação, com time ofensivos e com melhor ataque, inclusive. Se olharmos nos últimos anos, porém, o rótulo irá se aplicar porque é o resultado dos seus últimos trabalhos.

“Você está na direção de uma mentira mil vezes se torna verdade e não é verdade”, afirmou o treinador à BeIN Sports. “Quando as pessoas lembram a incrível partida que a Inter jogou na semifinal da Champions League com 10 jogadores, as pessoas falam que era uma aula de futebol defensivo, mas que eram dois ônibus estacionados”, disse.

“Você não diz que duas semanas antes foi 3 a 1 para a Inter sobre o Barcelona. Nós nos colocamos em uma posição de ir até lá e defender aquele resultado, jogando com 10 jogadores contra o melhor time do mundo, porque duas semanas antes nós os vencemos por 3 a 1 e deveria ter sido quatro ou cinco”, continuou o treinador.

Mourinho tem razão em ressaltar a vitória da Inter no jogo de ida. Dizer que foi uma partida que deveria ter sido quatro ou cinco, além do 3 a 1, é um exagero. A Inter, porém, fez uma grande partida. Um dos gols, de Diego Milito, foi marcado em impedimento. Ainda assim, a Inter mereceu completamente a vitória, fez uma partida enorme para a sua história, ofensivamente também. Wesley Sneijder, então o camisa 10 dos nerazzurri, fez uma partidaça, decisivo para aquele jogo.

No segundo jogo, a Inter de fato se entrincheirou na defesa, segurando o resultado e perdendo pro 1 a 0, com um gol já no final, e avançando à final. Só que há um contexto importante para ser ressaltado nesse jogo: Sergio Bustquets provocou a expulsão, injusta, de Thiago Motta, ao simular uma agressão. Com a expulsão aos 28 minutos do segundo tempo, a Inter se fechou na defesa e foi competente em reduzir as chances do adversário.

No Real Madrid, apesar dos momentos mais lembrados serem os confrontos com o Barcelona e tentativas de se defender, o time foi campeão de La Liga com um desempenho espetacular. Foram 100 pontos conquistados naquela temporada, com 121 gols marcados e 32 sofridos. Ficou nove pontos à frente do Barcelona.

Mesmo antes, no Chelsea, teve momentos espetaculares à frente do Chelsea. Em 2004/05, foi campeão em sua primeira temporada pelo Chelsea com 95 pontos, com 72 gols marcados – segundo melhor, atrás apenas do Arsenal com 87. Na temporada seguinte, 2005/06, ele levou novamente o título, com 91 pontos e novamente 72 gols marcados – o melhor ataque, junto com o Manchester United, vice-campeão.

O problema é que esses desempenhos ficaram na história. Nos trabalhos recentes, especialmente no Chelsea e no Manchester United, os seus trabalhos foram calcados em times defensivos. E ainda que haja todos os problemas que podem justificar tudo que aconteceu, é inegável que seus times eram mais defensivos do que ofensivos, também pela constante estratégia de fechar o time nos jogos grandes.

“Quando eu vim para o Chelsea pela segunda vez e nós fomos campeões, nós fomos campeões quando não éramos o melhor time do país. Para ser campeão quando você não é o melhor time do país, você tem que ser mais estratégico do que filósofo”, explicou o português.

“E então, quando o Chelsea foi campeão novamente com Antonio Conte, o Chelsea era um time de contra-ataque, muito defensivo e fenomenal no contra-ataque. Uma vez mais eles fizeram isso por um ponto de vista estratégico. Mas, porque era Antonio e não eu, vocês não mencionam isso”, reclamou Mourinho.

“Eu adoraria ir para um clube em condições de fazer o que Jürgen [Klopp] e Pep [Guardiola] fizeram”, afirmou o ex-treinador do Manchester United. “Se você olhar para o time do Liverpool que começou o jogo, quantos deles estavam lá quando Jürgen chegou? Alguns. E quando Pep não estava feliz com seus laterais, no verão seguinte ele contratou três laterais que ele queria”, disse ainda o treinador. “Quando ele contratou um goleiro como Claudio Bravo e não estava feliz com ele, na temporada seguinte ele contratou Ederson”.

“quando Jürgen está no clube e não ganha absolutamente nada por três anos e meio e ainda tem a confiança, ele ainda tem a confiança, ainda tem a condições de tentar continuar seguindo. Provavelmente nesta temporada eles têm uma grande chance para isso, a primeira vez que eles ganhem um troféu”, analisou Mourinho.

“No meu próximo trabalho, eu não vou começar uma conversa sem saber exatamente o que o clube quer e o que o clube irá me dar em termos de estrutura e os objetivos do clube”, declarou ainda o treinador.

Mourinho tem razão quando diz que não é defensivo, se estiver se referindo a toda a sua carreira. Mas se estivermos falando dos seus dois últimos trabalhos, esse foi um rótulo que ele abraçou com carinho.