“Eu tive algum tempo para pensar, para repensar, para analisar, e o que eu sinto é exatamente que o Zé está cheio de fogo!”. Esse Zé é José Mourinho anunciando em entrevista à Sky Sports que não aguenta mais ficar de férias. O treinador português de 56 anos está sem emprego desde dezembro, quando foi demitido do Manchester United, e não vê a hora de sentir o cheiro da grama novamente.

“É basicamente a primeira vez que eu tive tempo de pensar, a primeira vez em que estive em Setúbal (onde nasceu) ao fim de julho ou começo de agosto em mais de 20 anos. Meus amigos me dizem: ‘aproveite o tempo que você tem, aproveite seu julho, seu agosto, aproveite o que você nunca teve’. Honestamente, não consigo aproveitar. Não estou feliz o bastante para aproveitar”, admitiu. “Eu sinto falta do futebol. Eu tenho o fogo. Tenho um compromisso comigo mesmo, com pessoas que me amam, com muitos torcedores que tenho ao redor do mundo. Muitas pessoas que eu inspirei”, afirmou.

Ao fim da passagem pelo Manchester United, ele parecia um homem esgotado, sem o brilho nos olhos que o trabalho em um clube daquele tamanho exigia, e muitos críticos consideravam-no um profissional ultrapassado. Sem tocar nesses pontos específicos, Mourinho, porém, quer encarar o próximo desafio como um recomeço.

“O Zé tem que ser o Zé até o último dia, mas eu não vejo o último dia porque meu próximo passo será como um começo. Eu não sinto que seja apenas mais um ano em um acúmulo de muitos anos em que trabalhei, quantos títulos venci. Isso é história, isso é coisa para museu. Meu futuro começará no meu próximo trabalho e, como estava dizendo, parece um pouco ridículo com tantas coisas lindas ao meu redor e tantas coisas que eu não tive por tantos anos, mas eu realmente não consigo aproveitar o tempo livre”, disse.

Mourinho já teve propostas para retornar ao futebol. Na entrevista, não negou que tenha sido abordado por Benfica e um clube chinês. No entanto, por mais inquieto que esteja, não quer trabalhar apenas por trabalhar. Quer a oportunidade certa, um alto nível de desafio, e restringe suas opções às cinco principais ligas da Europa, exceto se houver um clube de outro país com um projeto realmente ambicioso de crescer e brigar por vários títulos. Mas, de preferência, um local em que haja ‘Mourinhistas’.

“O mais difícil para mim é dizer não às possibilidades. Eu tenho que trabalhar porque, dentro de mim, eu tenho esse impulso de querer trabalhar. Quando tenho uma oportunidade de trabalhar, dizer não é muito, muito, muito, muito difícil. Por que eu digo não? Eu digo não porque não é o nível de desafio que quero. Mas, com todo o respeito às possibilidades que tive e aos clubes envolvidos, eu quero o direito de escolher pessoas que sejam ‘Mourinhistas’. ‘Mourinhista’ é alguém que seja um fã”, afirmou.

“Os ‘Mourinhistas’ me querem onde eu pertenço, então, para mim, por enquanto, não é uma questão de dizer ‘ok, tenho esta oferta e vou aceitá-la’. Tenho que ser paciente e esperar a chance certa e a chance certa é uma que tenha o mesmo tamanho e o mesmo nível que eu como treinador. É o mais difícil porque tenho o impulso, durante esse período, tantas vezes, de dizer ‘sim, eu vou’. Mas não. Não posso ir. Tenho que esperar a chance exata. Nunca disse qual era essa. Nunca faço isso”, acrescentou.

Começaram especulações de uma ida à Bundesliga, quando surgiu a notícia de que Mourinho estava aprendendo alemão. Mas na verdade ele estava fazendo isso porque não tinha mais nada para fazer. “É difícil. Para um português, aprender espanhol, italiano, é fácil. Meu francês e meu inglês não são muito ruins. Alemão é difícil. Mas, quando eu voltar a Londres, em setembro, vou fazer aulas duas ou três vezes por semana para tentar. Mas, honestamente, não estou pensando em ir para a Bundesliga. Nenhum clube está esperando por mim, ninguém bateu na minha porta. Mas o que eu posso fazer? Alemão ou russo. Gosto de aprender, gosto de estudar, gosto de ter objetivos. Vou tentar pelo menos aprender as coisas básicas”, explicou.

Mourinho, por fim, reafirmou que um dia talvez treine uma seleção nacional, mas que esse momento ainda não chegou. “Uma partida por mês? Muito escritório. Nada de gramado. Sem partidas. Esperar dois anos para uma Eurocopa? Dois anos para uma Copa do Mundo? Não. Ainda não”, disse. “Mas talvez um dia. Se não Portugal, outro time, porque quando vou à Euro ou à Copa (como comentarista, geralmente), quando estou no centro do evento, eu tenho o sentimento de que um dia quero fazer aquilo. Mas penso que o trabalho não é para mim. Talvez um dia. E, se for Portugal, eu ficaria muito orgulhoso”, encerrou.

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